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Níger: evitando a propagação da hepatite E

03/11/2017
Epidemia pode ser controlada por meio da melhora das condições de água e saneamento
Níger: evitando a propagação da hepatite E

Foto: Guillem Valle

A disseminação da hepatite E na região de Diffa, no Níger, diminuiu desde que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a detectar e tratar casos no início de 2017, e também após a declaração subsequente sobre o surto por parte do Ministério da Saúde, em abril deste ano. A doença, cujos sintomas são os mesmos de outras doenças mais comuns, normalmente, não tem consequências graves, mas em mulheres grávidas há um índice de mortalidade significativamente mais alto. Por meio da combinação de detecção ativa de casos, diagnósticos rápidos, protocolos médicos adequados e trabalho em conjunto com as comunidades com uma rede de voluntários, os índices de casos com mortalidade foi reduzido.

“No início, vimos muitos casos e muitas mortes”

O dr. Roamba, obstetra e ginecologista de MSF, está tratando pacientes com hepatite E no principal centro de saúde materno-infantil em Diffa, sudeste do Níger. Em meados de abril, o Ministério da Saúde declarou um surto da doença. “No início víamos muitos casos e muitas mortes”, conta o dr. Roamba.

No início, médicos de MSF começaram a suspeitar que estavam tratando alguma doença incomum, porque muitas pessoas – em sua maioria, mulheres grávidas – começaram a chegar ao hospital, no início de 2017, em estado de coma. Muitas delas não sobreviveram.

A doença, que é transmitida pela água e afeta o fígado, podendo ser fatal se não for adequadamente tratada, nunca havia sido diagnosticada em Diffa antes. Porém, conflitos na região levaram mais de 247 mil pessoas deslocadas a buscarem abrigo ao longo da fronteira entre o Níger e a Nigéria, onde condições de superlotação e a falta de saneamento proporcionam o ambiente ideal para a disseminação de doenças como a hepatite E, que até agora matou mais de 40 pessoas na região.

Desde que o surto foi declarado, equipes de MSF e do Ministério da Saúde apoiaram o tratamento de aproximadamente 1.400 pessoas com hepatite E em nossos centros de saúde, postos médicos e em vilarejos e clínicas, além de terem tratado cerca de 350 dos casos mais graves em um centro de saúde materno-infantil apoiado por MSF. Desde o início da resposta por parte de todas as organizações humanitárias e do Ministério da Saúde, o índice de mortalidade caiu de 29%, em 25 de abril, para 1,91% no dia 12 de outubro, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

De acordo com o dr. Roamba, o trabalho com a comunidade por meio de uma rede de voluntários e a melhora das condições de água e saneamento por parte de organizações humanitárias foram essenciais para a redução do índice de morbidade da hepatite E.

Os promotores de saúde de MSF têm visto equipes de saúde e saneamento treinarem voluntários a fim de ajudar pessoas a detectarem alguns sintomas da doença, a manter casas e espaços públicos limpos e a garantir que a água que tomam seja limpa e própria para consumo. Agora, as comunidades devem levar rapidamente pessoas que manifestam sintomas de hepatite E a centros de saúde e clínicas, de onde pacientes com complicações médicas são transferidos para o centro de saúde materno-infantil em Diffa. Como resultado, o número de casos graves chegando ao hospital despencou.
“Desde que identificamos a causa da hepatite E, houve uma grande mudança”, diz o dr. Roamba. “Há bem menos pacientes morrendo, porque eles chegam aqui em uma condição melhor do que antes”.

A presença da hepatite E na região de Diffa destaca as condições de vida precárias que refugiados e deslocados estão enfrentando, bem como a necessidade urgente de ajuda humanitária para as pessoas afetadas pelo conflito. Muitos foram deslocados mais de uma vez, fugindo de conflitos, para ter de fugir novamente conforme as frentes de batalha se deslocam. Um contexto tão volátil de segurança cria um ambiente muito desafiador para organizações humanitária, e aumenta o temor de futuros surtos mortais voltarem a acontecer em comunidades distantes de cuidados médicos.

MSF em Diffa

MSF atua em Diffa desde o fim de 2014 para prestar assistência a pessoas que fogem da violência decorrente de conflitos entre o Boko Haram e os exércitos da região. As equipes de MSF oferecem cuidados médicos e psicológicos gratuitos em 11 centros e postos de saúde na região de Diffa, além de realizar atividades de abastecimento de água própria para consumo, construções de latrinas e distribuições de itens de primeira necessidade em vilarejos e outros locais onde refugiados, repatriados e deslocados internos estão reunidos. MSF também oferece suporte ao hospital de Nguigmi, do Ministério da Saúde, ao principal centro de saúde materno-infantil da cidade de Diffa e ao hospital Maine Soroa, oferecendo, entre outros serviços, cuidados de saúde reprodutiva e pediátrica e apoio de saúde mental. No hospital Nguigmi, a equipe de MSF também oferece tratamento a crianças com desnutrição aguda grave.