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Níger: “Estava caótico; o hospital estava no limite da superlotação”

22/05/2015
Médico de MSF relata a resposta da organização ao atual surto de meningite na capital do país

Foto: Sylvain Cherkaoui/Cosmos

Uma epidemia de meningite no Níger já infectou mais de 6.500 pessoas e tirou 433 vidas, de acordo com as autoridades do país. O Dr. Clément Galen, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), relata a resposta de emergência de MSF em Niamey.

“Quando eu cheguei ao hospital de Lazaret em Niamey, no começo de maio, estava caótico. O hospital estava no limite da superlotação. Nossa equipe estava admitindo até 350 pacientes com meningite todos os dias, e oferecendo tratamento ambulatorial para outros 400. Para vagar os leitos, fomos forçados a dar alta aos pacientes assim que eles começavam a melhorar e oferecer o restante do tratamento de forma ambulatorial. Nós trouxemos uma equipe médica adicional para que pudéssemos lidar com os altos números.

Nas últimas duas semanas, o número de internações caiu significativamente, de 100 novos pacientes por dia para apenas 30. Mas estamos prontos para lidar com um novo aumento do número de casos, tanto na capital quanto em outras partes do país afetadas pela epidemia. Precisamos garantir que os pacientes sejam enviados o mais rápido possível a instalações de saúde para receber tratamento.

O tratamento da meningite é bem simples, desde que seja administrado a tempo: os pacientes precisam tomar antibióticos chamados Ceftriaxone por cinco dias.

Os jovens são os mais afetados – a maioria dos nossos pacientes têm entre cinco e 30 anos. Quando eles chegam, geralmente têm febre, pescoço rígido e estão vomitando. Às vezes, as crianças têm convulsão a noite toda, mas não vão ao hospital até a manhã seguinte. Todos os dias, pacientes são trazidos quando já estão em coma. Muitos pacientes chegam tão tarde que nós não conseguimos salvá-los.

Felizmente, também há casos mais moderados de meningite, como pacientes que chegam sozinhos. Eles têm uma chance muito maior de sobrevivência.

O principal problema com a meningite é que a condição do paciente pode parecer boa, mas, de repente, aparecem complicações e ele precisa ser transferido para a UTI. As complicações surgem quando as bactérias estão particularmente carregadas de vírus. Elas desgastam o corpo, usando suas reservas de água e açúcar, e desencadeiam uma cascata inflamatória, causando desidratação, febre e o comprometimento de órgãos vitais. Por isso, nós supervisionamos bem de perto os nossos pacientes e monitoramos seus níveis de glicose no sangue e sinais vitais.

As pessoas no Níger estão cientes dos perigos da meningite. No começo da epidemia, havia muito medo da doença – em Niamey, a histeria se instalou. Mas, agora, as pessoas se acalmaram. Elas sabem quais os sintomas aos quais devem se atentar, e assim que alguém tem uma dor de cabeça ou no pescoço, vai ao médico. Muitas pessoas querem ser vacinadas contra a meningite, mas, infelizmente, não há doses suficientes disponíveis no mercado para essa cepa da doença, então, o Ministério da Saúde está priorizando crianças de dois a 15 anos.      

O que realmente me impressiona é a dignidade e a aceitação da morte das pessoas. Como profissionais médicos, achamos muito difícil aceitar a morte, especialmente quando existe tratamento. Mas as famílias daqui são extremamente dignas diante da morte. Muitas vezes, elas dizem ‘ele se foi’, em vez de ‘ele morreu’. É uma expressão muito gentil que, por vezes, esconde uma dor enorme.”