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“Muitos dos que partiram precisavam muito de tratamento”

03/11/2016
Apesar das necessidades médicas urgentes, centenas de pacientes decidiram deixar as instalações por medo dos confrontos armados
“Muitos dos que partiram precisavam muito de tratamento”

Foto: Kadir Van Lohuizen/Noor

Há alguns dias, o dr. Zanidin Amin mandou seus sete filhos e o resto de sua família de volta à sua cidade natal, Marjah, um distrito fora de Lashkar Gah, capital da província de Helmand, no sul do Afeganistão. A casa da família, na capital, havia sido atingida por balas durante um confronto intenso entre forças do governo afegão e grupos armados de oposição. O dr. Amin trabalha na ala pediátrica do hospital de Boost, em Lashkar Gah, que conta com 300 leitos, e no qual a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) vem apoiando o Ministério Afegão de Saúde Pública desde 2009. No início de outubro, confrontos na área de Lashkar Gah se intensificaram e as equipes de MSF do hospital trataram 34 pacientes feridos. Muitas pessoas fugiram da cidade, entre elas um grande número de pacientes que deixaram o hospital porque temiam ficar encurralados ali, na medida em que os confrontos chegaram à cidade.  

“Eu estava na unidade pediátrica de terapia intensiva e, de repente, vi muitas pessoas saindo de todas as alas do hospital”, relembra o dr. Amin. “Em apenas um dia, fomos de quase 300 pacientes para 100. Eu diria que pelo menos metade dos que deixaram a ala pediátrica ainda precisavam de cuidados essenciais, inclusive algumas pessoas que estavam recebendo oxigênio. Ainda que isso fosse contrário às recomendações médicas, as pessoas fugiram porque estavam com medo”. Dados apontam que o número de emergências diárias caiu em média 30%, indo de 33 no início de outubro a 23 após três semanas.

“Estávamos em Lashkar Gah para o casamento do irmão do meu marido, mas meu bebê ficou doente, então eu o trouxe ao hospital”, explicou a mãe de Bibi, de poucos meses de idade, há alguns dias. “Meu marido diz que a cidade pode ser atacada e que não é segura, então devemos partir o mais rápido possível.”

As pessoas vêm de todas as partes da província de Helmand, muito afetada pelo conflito, para serem tratadas no hospital de Boost. A instalação é o único hospital público em Lashkar Gah a oferecer serviços pediátricos especializados.

“Há algumas clínicas privadas disponíveis na cidade, mas elas são muito caras, então, normalmente, as pessoas preferem vir ao nosso hospital porque é gratuito”, explica o dr. Amin. “Além disso, durante o confronto intenso, muitas clínicas e centros de saúde foram fechados e seus profissionais partiram”, adiciona.

Idoso recebe atendimento na sala de emergência do hospital de Boost, em Lashkar Gah, Afeganistão (Foto: Kadir Van Lohuizen/MSF)Embora a situação esteja um pouco mais calma em Lashkar Gah desde a metade de outubro, os confrontos continuam acontecendo em várias partes da província de Helmand, dificultando muito o acesso de pacientes ao hospital de Boost. “Muitos pacientes, especialmente os que estão em distritos distantes, têm dificuldade de chegar até nós porque muitas estradas foram fechadas devido aos confrontos ou aos explosivos improvisados. Viagens que em condições normais durariam meia hora podem chegar a três, quatro ou até seis horas”, diz o dr. Amin.

“Demoramos sete horas para chegar aqui de carro, três vezes mais que o normal”, lembra a mãe de uma jovem paciente, Shakuba. “O confronto nos forçou a parar muitas vezes no caminho, ainda que estivéssemos com pressa para chegar ao hospital com nosso filho doente. Não poderíamos mais esperar por outros passageiros, então alugamos um carro só para nós e isso nos custou 10 mil afeganes (150 dólares). Tivemos que pedir esse dinheiro emprestado e vamos demorar muito tempo até conseguir pagar essa dívida.”

Durante os dias de confrontos mais intensos, o dr. Amin ficou no hospital dia e noite. Agora, ele pode ir para casa quando seu turno acaba, mas dorme sozinho em Lashkar Gah, que antes era o lar de 30 membros de sua família. “Eu deixei a minha clínica em Marjah dois anos atrás porque a quantidade de confrontos lá estava aumentando, então me mudei com toda minha família para Lashkar Gah. Não é a primeira vez que temos que fugir da guerra. Às vezes, quero deixar Lashkar Gah e ficar com a minha família, mas o meu trabalho é aqui e eu quero ajudar.”

MSF começou a trabalhar no Afeganistão em 1980. Em nossos projetos no país, profissionais locais e internacionais trabalham juntos para garantir a melhor qualidade de tratamento. Desde 2009, MSF administra vários departamentos do hospital de Boost, em Lashkar Gah, em parceria com o Ministério de Saúde Pública. Em 2015, quase 80 mil consultas ambulatoriais foram realizadas no hospital por equipes de MSF, enquanto mais de 33 mil pacientes foram hospitalizados e mais de 12 mil partos foram assistidos. MSF também apoia as autoridades locais no hospital de Ahmad Shah Baba, no leste de Cabul, e a maternidade Dasht-e-Barchi, no oeste da cidade. Em Khost, no leste do país, MSF dirige um hospital-maternidade. A organização está prestes a inaugurar uma instalação para diagnóstico e tratamento da tuberculose multirresistente a medicamentos em Kandahar. Para o trabalho no Afeganistão, MSF conta apenas com financiamento privado, não aceitando recursos de governo algum.

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