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MSF vai além para tratar a doença do sono na República Democrática do Congo

18/09/2015
Viajando de jipe e de moto, uma equipe médica móvel está a caminho de uma região remota e insegura da República Democrática do Congo (RDC) para diagnosticar e tratar pessoas sofrendo com a doença do sono

Foto: Philipp Frisch/MSF

Em uma clínica pequena e escura na região nordeste da RDC, a jovem Germaine, de 24 anos, se deita em um leito, incapaz de andar porque está muito tonta. Ela foi picada por uma mosca tsé-tsé e os médicos de MSF a diagnosticaram com a doença do sono.

Germaine é uma das 42 mil pessoas que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) pretende testar e tratar para a doença tropical em um período de oito meses. Em maio de 2015, equipes médicas móveis, compostas por médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório, começaram a viajar por regiões densas e instáveis das províncias de Orientale e de Ango, e do território de Banda, próximo da fronteira com a República Centro-Africana (RCA), visitando vilarejos onde as taxas da doença têm sido historicamente elevadas.

Nômades e refugiados

“Estamos concentrando grandes esforços para chegar às pessoas que vivem além dos vilarejos”, disse Rolland Kaya, coordenador-geral de MSF para os projetos de doença do sono. “Estamos focando nos grupos de pessoas mais vulneráveis e difíceis de alcançar, como refugiados e nômades vivendo nas florestas. Uma equipe de sensibilização de saúde pública viajou até comunidades remotas de pescadores e fazendeiros para contar a eles sobre a situação da região. Estamos encorajando essas pessoas a virem ser testadas porque elas estão correndo grande risco de serem picadas e infectadas pelas moscas.”

Desde maio, MSF examinou 12.183 pessoas; até agora, 91 delas foram diagnosticadas com a doença do sono.

Com a equipe trabalhando em áreas tão remotas, MSF também está aproveitando a oportunidade para levar cuidados gerais de saúde às pessoas, particularmente às mulheres grávidas, crianças com menos de cinco anos de idade e adultos com sintomas de malária. Desde maio, a equipe tratou 6.884 pessoas para a malária.

Muito tonta para trabalhar

Os primeiros sintomas da doença do sono incluem febre, dores de cabeça, dores nas juntas e coceiras. Os medicamentos usados para tratar pessoas nesses estágios precoces da doença são relativamente fáceis de administrar e não são tóxicos. Quanto mais rápido a doença é identificada, maior é a chance de cura. 

No segundo estágio, os parasitas infectam o sistema nervoso central. Isso acontece quando sinais mais óbvios da doença aparecem, incluindo um ciclo de sono perturbado, o que dá à doença do sono o seu nome.

Germaine começou a apresentar sintomas da doença do sono há três meses, após o nascimento de seu terceiro filho. Sofrendo de fadiga e vertigens, ela não conseguia ir até para a plantação para trabalhar. “Eu estava tão tonta que cairia no chão”, ela lembra. “Eu não tinha energia, não conseguia comer e só bebia alguns goles de água.”

Germaine passará sete dias na clínica para receber injeções do medicamento pentamadine. “Minha família não entendia o que havia de errado comigo”, diz ela. “Eles estão muito aliviados por eu estar recebendo tratamento, e já estou começando a me sentir melhor.”

Doença do sono em declínio

A doença do sono continua a afetar milhões de pessoas em 36 países da África subsaariana. A maioria vive em áreas rurais remotas com acesso limitado a serviços de saúde. Muitas foram deslocadas de suas casas pela guerra e pobreza. Todos esses fatores tornam difícil realizar monitoramentos e diagnosticar e tratar casos.

No entanto, na década passada, o número de casos da doença do sono ao redor do mundo diminuiu, e o tratamento melhorou.

MSF tem se engajado ativamente no tratamento da doença do sono há 25 anos na RDC, RCA, Congo e Sudão do Sul. Equipes de MSF contam que notaram que as pessoas na RDC se tornaram mais conscientes do perigo da doença, e mudanças comportamentais, ligadas à insegurança, também estão contribuindo para a queda do número de casos.

“Acreditamos que o declínio do número de casos que estamos observando está ligado à mudança de estilo de vida das pessoas devido à insegurança na região”, diz o Dr. Turid Piening, consultor de saúde de MSF. “Elas estão abandonando suas tradições de caçar e pescar perto de rios onde há focos das moscas tsé-tsé, e estão cultivando suas plantações mais perto de casa.”

Mas, para eliminar a doença, ainda há muito a ser feito, incluindo o desenvolvimento de um teste rápido de uso fácil para substituir procedimentos complicados de diagnóstico, junto a medicamentos orais que possam ser tomados em casa. Até que isso aconteça, MSF está comprometida a encontrar, testar e tratar pessoas sofrendo dessa doença que ameaça suas vidas, independentemente da área remota onde vivam.

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