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MSF pede que o preço da delamanida, medicamento contra a tuberculose, seja reduzido

18/10/2019
Somente a África do Sul dispõe do medicamento com custo reduzido
MSF pede que o preço da delamanida, medicamento contra a tuberculose, seja reduzido

Foto: Jan-Joseph Stok

Médicos Sem Fronteiras (MSF) elogia  o preço mais baixo oferecido ao governo da África do Sul pelo mais novo medicamento contra a tuberculose (TB), a delamanida, mas pede que ele seja significativamente menor e seja estendido a todos os países que precisam. A Mylan, que licencia o medicamento do detentor da patente Otsuka, cobrará 940 dólares (aproximadamente 3.850,00 reais) por um tratamento de seis meses (157 dólares/ 644,00 reais por mês) a partir de 1 de junho de 2020 na África do Sul. A delamanida é usada em combinação com outros medicamentos para tratar pessoas com TB resistente a medicamentos (TB-DR), incluindo a forma mais difícil de tratar da doença: a TB ultrarresistente a medicamentos (TB-XDR). 
 
A delamanida é um dos medicamentos mais caros usados no tratamento da TB-DR, ao preço de 1.700 dólares (cerca de 6.970 reais) por um curso de tratamento de seis meses (283 dólares/ 1.161 reais por mês) através do Global Drug Facility (GDF), um mecanismo de compra de medicamentos e insumos para diagnóstico de tuberculose. Esse é apenas um dos vários medicamentos necessários para tratar a doença. Seu alto preço é um fator essencial do alto custo geral do tratamento de pessoas com TB multirresistente (TB-MDR) e TB-XDR. Um curso completo de tratamento de 20 meses para uma pessoa pode custar entre 8 mil dólares (cerca de 32.200 reais) e 12 mil dólares (cerca de 49.200 reais) através do GDF, dependendo da duração do tratamento e dos outros medicamentos que compõem o regime de tratamento. 
 
O alto preço teve um efeito assustador na ampliação do tratamento: embora a delamanida tenha sido condicionalmente aprovada pela Agência Europeia de Medicamentos em abril de 2014, no fim de agosto de 2019, apenas 2.902 pessoas já haviam sido tratadas com a delamanida. Os dados são da equipe de ação para expansão do tratamento da TB-DR de especialistas globais em TB, que recebe atualizações dos Programas Nacionais de TB e de grandes provedores de tratamento, como MSF.  
 
As diretrizes de tratamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) priorizam o uso de medicamentos mais novos como parte de regimes totalmente orais para o tratamento da TB-MDR e TB-XDR. MSF pede que mais países mudem de tratamentos tóxicos mais antigos, que precisam ser injetados, par regimes orais que contenham os medicamentos mais novos, incluindo a delamanida. Esses novos medicamentos são críticos para melhorar as taxas de cura abismais de 55% e 34% para TB-MDR e TB-XDR, respectivamente. O uso dos novos medicamentos contra a tuberculose também é urgentemente necessário para crianças com TB-MDR, a fim de melhorar os resultados do tratamento e reduzir os riscos de efeitos colaterais. 
 
No entanto, o preço de 940 dólares (aproximadamente 3.800 reais) para a delamanida, oferecido por Mylan à África do Sul, permanece alto demais. Também não está claro se a Mylan planeja oferecer esse preço a todos os países. Os países que enfrentam altas taxas de resistência especialmente aos medicamentos fluoroquinolonas, como a Índia, devem tomar medidas eficazes, incluindo a substituição de patentes por meio de licenças compulsórias para que os fabricantes de genéricos possam entrar na cadeia de suprimentos e reduzir ainda mais o preço. Pesquisadores da Universidade de Liverpool calcularam que a delamanida poderia ser produzida e vendida com lucro por muito menos – variando de 5 a 16 dólares (20 a 65 reais) por mês, se o uso do medicamento for ampliado pelos programas nacionais de TB.
 
Dr. Stobdan Kalon, referente médico de MSF na Índia 
 
“Lutamos constantemente para tratar com sucesso pessoas com TB-XDR que tenham resistência a fluoroquinolonas e crianças com TB-MDR em nossa clínica em Mumbai, o que é uma preocupação grave, dadas as taxas inaceitavelmente altas de falha e morte durante o tratamento. Para aumentar a chance de cura, esses pacientes precisam de regimes eficazes de tratamento e acesso imediato a medicamentos mais novos, como bedaquilina e delamanida.
 
Mesmo a 940 dólares, a delamanida continua sendo um dos medicamentos mais caros para a TB-DR e seu alto preço continuará a ter um efeito assustador em barrar a ampliação desse medicamento nos programas nacionais de TB. Enquanto esses novos medicamentos estiverem fora do alcance dos programas de TB, um regime de tratamento totalmente oral para pessoas em todos os lugares com pré-TB-XDR e TB-XDR, assim como crianças com TB-MDR permanecerá uma realidade distante e as pessoas continuarão sofrendo o lado devastador dos efeitos de medicamentos mais antigos que precisam ser injetados, incluindo surdez permanente. Otsuka e Mylan devem reduzir ainda mais o preço da delamanida para garantir que os programas de TB possam pagar e ampliar o uso de esquemas de tratamento totalmente orais”.
 

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