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MSF e Google implementam sistema inovador de registro médico em projetos de combate à desnutrição na África

08/09/2015
Profissionais brasileiros estão atuando como voluntários e em cargos remunerados

Foto: Nick Fortescue

Após ajudar na luta contra a epidemia de Ebola na África Ocidental, por meio de um tablet resistente ao cloro, o Project Buendia, sistema de registro médico voltado para ajuda humanitária, foi implementado em setembro em projetos da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) de combate à desnutrição no continente africano. Para ajudar nesta nova etapa do projeto, foram recrutados engenheiros de software, desenvolvedores, agentes de saúde e nutricionistas; entre eles, três brasileiros.

Criado a partir de uma parceria entre MSF, o Google Crisis Response e a Escola de Medicina de Harvard, o Project Buendia visa envolver cada vez mais profissionais no contexto humanitário. “Nosso projeto precisará de vários contribuintes durante sua vida útil, tanto do mundo tecnológico quanto do universo médico-humanitário”, diz Ivan Gayton, consultor de inovações tecnológicas de MSF. O brasileiro Rodrigo Gira, desenvolvedor de software da equipe principal e líder comunitário, não esconde a animação: “Definitivamente, o melhor projeto de que já participei. A troca de experiência e convivência diária com desenvolvedores de diferentes partes do mundo não tem preço.”

A nova fase do Project Buendia está modificando o software de uma ferramenta já existente, usada inicialmente em setembro do ano passado, durante o pico do surto de Ebola. Na época, com o intuito de melhorar a transferência de informações sobre pacientes, foi desenvolvido um tablet que pode ser mergulhado no cloro em até 10 minutos, tempo necessário para eliminar quaisquer indícios do vírus e, assim, evitar a contaminação. “A aplicação para o Ebola tinha um código muito difícil; não tínhamos tempo para construir algo geral e depois adaptá-lo para o Ebola”, explica Ivan Gayton, que afirma que projetos de desnutrição permitirão essa flexibilidade.

Segundo o consultor, tecnicamente, serão concentrados esforços no aprimoramento de mecanismos já utilizados por MSF, como o OpenMRS, um sistema de registro médico, mas que não é tão eficiente em dispositivos móveis; o OpenDataKit (ODK), este, sim, um sistema móvel, para coleta de dados; um aplicativo Android que mostra a ficha do paciente; e um servidor local implementado em um Intel Edison (um microcomputador), que consome pouquíssima energia e não precisa de conexão de internet.

O sistema de registro médico também é open source, como explica o brasileiro Vinicius Boson, que atua como desenvolvedor de software no Project Buendia: “O software foi todo desenvolvido utilizando o conceito de código aberto e fortemente apoiado pela comunidade. Qualquer pessoa interessada em ajudar e que possua alguma experiência com as tecnologias utilizadas pode baixar o projeto no próprio computador, seguir as orientações de como configurar o ambiente de desenvolvimento e começar a contribuir.” Para os interessados, o código já está disponível na plataforma Github.

A inovação apresentada pelo Project Buendia é ter as ferramentas necessárias para conseguir funcionar mesmo em locais remotos com recursos precários – cenário da maioria dos projetos de MSF –. Seja pela perspectiva humanitária ou a partir do ponto de vista tecnológico ou elétrico, por meio do Project Buendia, os profissionais terão mais facilidade para coletar dados e realizar análises adequadas, a fim de monitorar o estado dos pacientes e da crise, neste caso, de desnutrição.

“A chave é fazer essas coisas funcionarem em um ambiente de profunda dificuldade”, diz Ivan Gayton. O brasileiro Leonardo Lima, engenheiro de software que começou no projeto como voluntário e hoje faz parte da equipe principal de desenvolvimento, acrescentou que  “deve-se levar em consideração que as instalações estruturadas por MSF são, em sua maioria, tendas erguidas em lugares ermos, sem internet, sem luz, e, por isso, uma solução como essa, que funciona a base de baterias; com tablets a prova de água e poeira; servidores que cabem no bolso e proporcionam uma infraestrutura de rede sem fio, ajuda, e muito, o trabalho de toda a equipe.”

O Project Buendia pretende ainda generalizar seu sistema para que ele possa ser inserido em outros contextos humanitários com os quais MSF atua, como conflitos armados, desastres naturais e epidemias. Segundo Ivan Gayton, a desnutrição na África foi o cenário dessa nova etapa por ser uma condição frequentemente presente e que seria positivamente impactada por uma simples melhoria na oferta e no acesso a cuidados de saúde.

A desnutrição é uma das maiores causas de mortalidade infantil – estima-se que nove crianças morram a cada minuto devido à falta de nutrientes essenciais em suas dietas.

Para tratá-las, MSF estrutura centros de nutrição terapêutica, onde oferece cuidados médicos e distribui alimentos terapêuticos. Em lugares onde a desnutrição pode se tornar grave, a abordagem de MSF é preventiva, com a distribuição dos alimentos para crianças em situação de risco.

Em 2014, MSF tratou 217.900 casos de desnutrição grave em seus programas intensivos e ambulatoriais.