MSF alerta para urgência no enfrentamento da tuberculose infantil

No mundo, 1,2 milhão de crianças adoecem, mas quase metade estão sem diagnóstico ou tratamento para TB

Maham Khalid, médica de MSF, examina Ahmad, de 4 anos de idade, durante uma consulta no centro do Programa de Gestão da Tuberculose Resistente a Medicamentos, apoiado por MSF, em Gujranwala, Punjab. Paquistão. ©MSF

No Dia Mundial da Tuberculose (TB), Médicos Sem Fronteiras (MSF) chama a atenção de governos e doadores internacionais para que coloquem as crianças no centro da resposta global à doença e se comprometam com investimentos contínuos no diagnóstico, tratamento e prevenção à TB em crianças, que continuam sendo um dos grupos mais vulneráveis. Nenhuma criança deveria sofrer ou morrer de uma doença que pode ser prevenida e tratada. 

“Em uma resposta à TB que já é subfinanciada, as crianças são empurradas cada vez mais para o fim da fila quando os serviços públicos são prejudicados por cortes de financiamentos, conflitos ou deslocamentos”, disse Cathy Hewison, líder da plataforma de TB de MSF.  

“Mesmo que imperfeitas, as ferramentas e tecnologias médicas para diagnosticar e tratar crianças com TB existem, mas somente metade das crianças com a doença é diagnosticada e tratada. Para uma resposta realmente global à TB, as crianças não podem continuar sendo deixadas em segundo plano — elas precisam ser priorizadas agora.” 

Segundo o Relatório Global sobre Tuberculose 2025, da Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,2 milhão de crianças e adolescentes menores de 15 anos adoeceram com tuberculose em 2024. O documento também revelou que alarmantes 43% das crianças nesta faixa de idade não receberam diagnóstico e, portanto, não puderam acessar o tratamento em 2024*, uma estatística que não apresentou melhora em relação a anos anteriores. 

A situação é ainda pior para crianças menores de 5 anos com tuberculose, com somente metade delas tendo acesso ao diagnóstico e ao tratamento da doença.  

A combinação das interrupções nos serviços de saúde relacionados à tuberculose, resultantes dos recentes cortes no financiamento internacional para programas de TB, com um número recorde de pessoas deslocadas em países com alta incidência da doença deverá resultar em um contingente ainda maior de crianças sem diagnóstico e sem tratamento. 

 

Como melhorar o diagnóstico da TB em crianças 

Apesar dessa triste realidade, podemos chegar mais perto de alcançar as crianças sem acesso ao diagnóstico e tratamento da tuberculose por meio da implementação efetiva das diretrizes da OMS.  

Por exemplo, uma maneira eficiente de diagnosticar TB em crianças menores de 10 anos é utilizar os algoritmos de decisão terapêutica recomendados pela organização, que nada mais são do que sistemas de pontuação que permitem aos profissionais de saúde diagnosticarem a doença com base apenas em sintomas clínicos (combinados a uma radiografia, quando possível) ou quando os testes laboratoriais não estão disponíveis ou apresentam resultado negativo.  

Técnico de MSF realiza exame de raio-X em uma criança na clínica de tuberculose de MSF no Centro de Saúde Rural de Baldia, em Karachi, durante um check-up. Paquistão. ©MSF

De acordo com pesquisas recentes realizadas por MSF em cinco países africanos (Guiné, Níger, Nigéria, Sudão do Sul e Uganda), a utilização dos algoritmos da OMS tem potencial para quase dobrar o número de crianças que podem ser diagnosticadas com tuberculose e, consequentemente, iniciar um tratamento que salva vidas. 

 

Uso de algoritmos da OMS mostra resultados positivos em projetos de MSF 

As equipes de MSF frequentemente atendem crianças com tuberculose cujo tratamento é tardio devido à ausência de diagnóstico ou porque a abordagem para diagnóstico foi inadequada, ou porque os médicos simplesmente não consideram a possibilidade de TB. 

Em Moçambique, Francisco, um menino de 11 anos, começou a apresentar sinais da doença em julho de 2024, mas seus sintomas foram ignorados por meses. Apenas em março de 2025 ele finalmente iniciou o tratamento adequado para a tuberculose, muito tempo depois dos primeiros sinais de alerta. 

Francisco, de 11 anos de idade, em tratamento contra a tuberculose resistente a medicamentos, em Moçambique. ©Marília Gurgel/MSF

“A princípio, notei que meu filho estava fraco e sem apetite”, disse Fernando Jorge Anasomia, pai de Francisco. “Inicialmente, eles [médicos] não fizeram nenhum teste. Quando os testes foram [finalmente] feitos, não apareceu nada. Eles nos disseram que a criança não tinha nenhuma doença. Quando fomos ao hospital pela segunda vez e fizemos os testes novamente, foi aí que nos disseram que a criança tinha tuberculose resistente a medicamentos. Demorou muito para começar o tratamento, mesmo que ele tenha começado a se sentir mal há oito meses.” 

A implementação dos algoritmos da OMS no cuidado de rotina em instalações de saúde apoiadas por MSF tem mostrado um aumento significativo no número de crianças diagnosticadas com tuberculose. 

O impacto da implementação dos algoritmos de decisão de tratamento da OMS no Níger tem sido um catalisador de esperança.

 – MoussaMamaneOumarouFaroukresponsável pelo programa de TB de MSF no Níger

“Em 2024 e 2025, quase metade de todas as crianças menores de 5 anos de idade que foram diagnosticadas com tuberculose no país estavam nos cinco distritos onde MSF apoia a implementação dos algoritmos. Considerando que o Níger possui um total de 72 distritos, ampliar essa abordagem em todo o país, juntamente com o Ministério de Saúde local, poderia reduzir significativamente a lacuna no diagnóstico de tuberculose em crianças e prevenir mais mortes evitáveis, explicou Moussa Mamane Oumarou Farouk, responsável pelo programa de TB de MSF no Níger. 

Cada sinal ignorado e cada decisão adiada empurram crianças com tuberculose para mais perto da forma grave da doença e da morte.  

Maior vontade política e investimentos de governos e doadores internacionais são urgentemente necessários para garantir que ferramentas de prevenção, diagnóstico e tratamento para a TB que salvam vidas estejam disponíveis para todas as crianças. 

 

Trabalho de Médicos Sem Fronteiras contra a tuberculose 

A organização tem fornecido cuidados para tuberculose (TB) há 30 anos, trabalhando ao lado de autoridades de saúde nacionais para tratar pessoas em uma variedade de cenários, incluindo áreas de conflito, comunidades urbanas empobrecidas, prisões, acampamentos de refugiados e áreas rurais.  

Em 2024, MSF tratou 25 mil pessoas com TB, incluindo 1.500 pacientes com tuberculose resistente a medicamentos, em mais de 35 países — a maioria na África (68%) e na Ásia (30%). 

MSF está atualmente realizando o projeto TACTiC (sigla em inglês para Testar, Prevenir e Curar a Tuberculose em Crianças), visando inovar o cuidado de TB para crianças através da implementação das últimas recomendações da OMS e da geração de evidência sobre sua eficácia, viabilidade e aceitabilidade, além da defesa de sua implementação a níveis globais e nacionais.  

O projeto abrange 12 países com alta incidência de tuberculose, nos quais MSF oferece cuidados de TB para crianças: Afeganistão, Filipinas, Guiné, Moçambique, Níger, Nigéria, Paquistão, República Centro-Africana, República Democrática do Congo Somália, Sudão do Sul e Uganda. 

 

*O Relatório Global sobre a Tuberculose da OMS destaca que, em 2024, foram relatadas 685 mil crianças menores de 15 anos com tuberculose, de uma estimativa de 1,2 milhão que tinham tuberculose.  

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