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Motoristas que mudam vidas em Rustenburg, na África do Sul

27/09/2019
Curta-metragem mostra o papel de motoristas no projeto de violência sexual de MSF em Rustenburg
Motoristas que mudam vidas em Rustenburg, na África do Sul

Tadeu Andre/MSF

Contado pelos olhos de um motorista que trabalha no projeto de atendimento de sobreviventes de violência sexual de MSF, um novo curta-metragem chamado 'Mudança de Condução na África do Sul' mostra que todos têm um papel a desempenhar na jornada de cuidados de sobreviventes, especialmente os homens.

Lebogang Seketema – conhecido como Lebo – conhece a dor e o sofrimento que a violência sexual pode causar àqueles que passam por isso. A irmã dele foi violentada por um vizinho aos 9 anos de idade. Havia pouco acesso aos cuidados naquela época e a família optou por deixar isso para trás.

Lebo também trabalhou por três anos como motorista de um projeto de violência sexual e de gênero, conduzido por MSF em Rustenburg, no coração do cinturão de mineração de platina da África do Sul. Nos acampamentos informais espalhados pelas minas da região, os homens superam as mulheres em quantidade. Uma mistura potente de violência estrutural histórica, dificuldades econômicas e dinâmica tradicional de gênero significa que muitas mulheres, especialmente aquelas com filhos, dependem de parceiros masculinos para sobreviver. Isso deixa muitas delas vulneráveis à violência sexual e de gênero. 

Todos os dias, Lebo e sete outros motoristas do sexo masculino revezam-se para buscar e transportar sobreviventes de violência sexual – ou clientes, como eles se referem – para atendimento médico e psicológico de emergência, além de apoio social em um dos quatro “Kgomotso Care Centers” (KCC), que são mantidos em parceria com o Departamento de Saúde do Noroeste em todos os acampamentos amplamente informais da área. Geralmente, eles levam as pessoas depois de volta para casa. Kgomotso significa "local de conforto" no idioma local de Setswana. Cada centro conta com enfermeiros forenses, conselheiros registrados e assistentes sociais, que oferecem às clientes um pacote de cuidados para tratar lesões, ajudam a prevenir o HIV, DSTs e gravidezes indesejadas, oferecem aconselhamento psicológico e apoio social crítico.

Como socorristas, os motoristas de MSF geralmente são a primeira pessoa que uma sobrevivente encontra após um incidente. O papel deles na jornada de cuidados das sobreviventes é visto como parte vital da abordagem que MSF está desenvolvendo para garantir um atendimento humano, não intrusivo e de apoio a sobreviventes desde o início. 
No entanto, como Lebo, todos os motoristas tomaram consciência de sua identidade como homens frente às sobreviventes, quando a grande maioria dos abusos sexuais na África do Sul é causada por agressores do sexo masculino. Em 2015, uma pesquisa de MSF com 800 mulheres no município de Rustenburg constatou que uma em cada quatro havia sido estuprada durante a vida, com 11 mil mulheres e meninas sendo estupradas apenas nesta área.
Tragicamente, 95% das mulheres no estudo nunca haviam denunciado seu estupro a um profissional de saúde, muitas por medo e vergonha, e conhecimento limitado sobre a importância de procurar atendimento imediato. Embora a África do Sul já seja conhecida por algumas das taxas mais altas de estupro e feminicídio (assassinato feminino), com 52.420 crimes sexuais relatados nacionalmente em 2018, os dados sugerem que esse número pode ser muito maior. 

Como tal, os motoristas de MSF receberam treinamento psicológico de primeiros socorros sobre como envolver as sobreviventes com compaixão, evitando qualquer trauma secundário. Os princípios dos primeiros socorros psicológicos, que oferecem suporte de primeira linha a quem enfrenta uma crise, envolvem a avaliação da situação imediata, a construção de confiança e relacionamento com as clientes, além de ajudar a vinculá-las com segurança ao próximo estágio do atendimento.

“Você pode imaginar, eu sou homem, e a senhora foi abusada por um homem. Ela tem que entrar no carro e às vezes eu estou sozinho dentro do carro com ela. Então, você sabe como é. Você precisa que ela saiba que ela está em um lugar seguro, ela está segura com você”, diz Lebo, em 'Mudança de Condução na África do Sul', um curta-metragem de MSF que segue sua jornada como motorista de MSF e a vida como pai de uma jovem menina.

O filme, lançado pelos motoristas de MSF em Rustenburg em setembro, destaca os altos níveis de violência sexual na África do Sul e o papel que todos podem desempenhar na ligação de sobreviventes a cuidados médicos e psicológicos imediatos, especialmente homens.

Para a sobrevivente Poppy Makgobatlou, do distrito de Babong, em Rustenburg, seu primeiro encontro com um motorista de MSF deixou uma impressão duradoura. Após muitos anos de abuso de seu ex-marido, Poppy finalmente reuniu coragem para procurar ajuda de MSF. Depois de registrar uma ligação com a linha direta 24 horas para que as sobreviventes relatem seu caso, um motorista de MSF veio buscá-la.

“Eu estava chorando, então [o motorista] disse: “não sei quanta dor você está sentindo, não posso lhe dizer que vai ficar tudo bem, porque não sei há quanto tempo você vive assim, mas o que posso dizer é apenas para tentar ser forte ”, diz Poppy, que recebeu tratamento no KCC de Babong, apoiado por MSF.

À medida que cresce a conscientização sobre os KCC, um número crescente de sobreviventes procura atendimento. Em 2015, o primeiro Centro de KCC em Rustenburg recebeu 62 casos de violência sexual e de gênero. Esse número aumentou, com os quatro centros em Rustenburg e Madibeng recebendo um total combinado de 1.266 novos casos em 2018 e 657 novos casos no primeiro semestre de 2019. Agora, muitos casos chegam até nós pelas crescentes atividades comunitárias de MSF, que aumentam a conscientização sobre a violência sexual e de gênero e treinam os líderes locais como 'socorristas' para identificar sobreviventes e oferecer apoio imediato enquanto as encaminha para receber cuidados.

Para Lebo e os outros motoristas, trabalhar para MSF e conhecer as sobreviventes mudou sua própria compreensão da violência e o papel que cada um deles pode desempenhar na mudança da mentalidade de outros homens. Além do trabalho diário, cada motorista está assumindo um papel ativo na condução de mudanças em suas comunidades.

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