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México: "As pessoas se sentem esquecidas aqui"

30/05/2018
Psicóloga e coordenadora de atividades de saúde mental de MSF falam sobre seu trabalho no estado de Guerrero
México: "as pessoas se sentem esquecidas aqui"

Juan Carlos Tomasi/MSF

Ivana Cervín e Laura Moreno trabalham nas clínicas móveis de MSF no estado de Guerrero, no México. Todos os meses elas visitam comunidades afetadas pela violência extrema. As duas profissionais descrevem os desafios de trabalhar no estado e as necessidades da população.

Ivana Cervín Marín é psicóloga e trabalha em uma das clínicas móveis de MSF:

"Trabalhar em Guerrero me faz sentir como se eu vivesse em uma realidade alternativa.  A Cidade do México parece uma bolha. A realidade é esta, é aqui, é esta situação e é o estado de Guerrero que é realmente um guerreiro e que tem sido historicamente punido e, diante de uma nova ameaça, disse 'basta'...  

As pessoas, é claro, foram forçadas a se adaptar psicologicamente a essa nova ameaça e a violência: elas podem se tornar agressivas ou violentas e sofrer muito com isso. Mas é uma resposta adaptada a esse novo ambiente.
Temos visto de tudo - crianças desaparecidas, sequestros, tortura, violência sexual, menores violentados sexualmente, menores grávidas e muitas crianças expostas a traumas.

Lembro-me de um menino que tinha cerca de seis anos de idade; seu avô foi assassinado por criminosos. Eles voltaram e ameaçaram seu pai e sua mãe. Esse menino agora sofre de estresse pós-traumático. Ele melhorou um pouco, mas depois os narcotraficantes voltaram e torturaram seu pai com cabos. O garoto evita contato com pessoas, fica em estado de hipervigilância e tem ansiedade, chora repentinamente e de maneira incontrolável...

E ainda há violência institucional: crianças decepcionadas com o sistema escolar em geral, embora seja em grande parte graças aos professores que o tecido social não desmorona completamente. O trabalho que eles fazem é muito importante. Nós também trabalhamos com eles, para ajudá-los e treiná-los em inteligência emocional para apoiar uns aos outros e criar redes de apoio para as crianças e as comunidades.

As pessoas e as comunidades que atendemos em Guerrero são muito gratas. Quando voltamos à mesma cidade para realizar nossas visitas mensais, as pessoas nos dizem ‘que bom que você não esqueceu de nós’. Porque é assim que eles se sentem, esquecidos."

Laura Moreno é coordenadora de atividades de saúde mental no estado:

“Em Guerrero, fornecemos cuidados de saúde primária, de saúde mental (individual e em grupo) e atividades psicossociais a pessoas afetadas pela violência na região. Realizamos sessões individuais e em grupo e atividades psicossociais para fortalecer os mecanismos de enfrentamento dos pacientes e ajudar a reconstruir as redes destruídas pela violência. Isso pode ser um desafio, pois só visitamos cada comunidade uma vez por mês devido ao contexto volátil e as consultas individuais não podem ser longas. Existem também outros desafios, como visitas coincidindo com a época de semeadura ou de colheita ou o dia em que a população recebe ajuda pública e precisa ir buscá-la.

Realizamos 1.270 consultas em 2017. Nós tratamos pessoas que passaram por experiências muito traumáticas. Algumas tiveram membros de suas famílias mortos ou forçados a fazerem parte de grupos criminosos. As pessoas em Guerrero têm um forte espírito de resistência, mas se o medo e a violência persistirem, o tecido da sociedade pode ser dilacerado. É por isso que oferecer cuidados de saúde mental é tão importante aqui. O apoio que damos ajuda a fortalecer os mecanismos de enfrentamento para que elas possam administrar suas emoções em tempos de incerteza e violência.

Também estamos muito preocupados com casos psiquiátricos sérios. O isolamento que algumas comunidades enfrentam repercute enormemente nelas e em suas famílias, que são excessivamente vulneráveis.”

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