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Menos de 5% das pessoas que precisam são tratadas com os novos medicamentos contra TB, mesmo após quase 4 anos de sua aprovação

24/03/2017
Farmacêuticas e países devem agir urgentemente para melhorar o acesso a esses tratamentos vitais

Em 2016, apenas 4.800 pessoas com tuberculose resistente a medicamentos (TB-DR) foram tratadas com os dois mais recentes medicamentos para a doença, apesar de eles estarem disponíveis no mercado há quase quatro anos, lamentou hoje a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). À exceção de um pequeno número de testes clínicos e de programas de uso compassivo, apenas 469 pessoas utilizaram a delamanida para seus tratamentos em 2016, e pouco mais de 4.300 usaram a bedaquilina. Isso significa que menos de 5% das pessoas que precisam desses medicamentos chegaram a recebê-los. Enquanto isso, todas as outras pessoas que recebem tratamentos para TB-DR atualmente continuam usando medicamentos antigos, que são mais tóxicos e curam apenas 50% das pessoas tratadas, além de causarem efeitos colaterais graves, que vão da perda de audição à psicose.

Para salvar a vida de pessoas que vivem com TB-DR, o acesso à bedaquilina e à delamanida deve ser urgentemente ampliado pelas farmacêuticas que as produzem e pelos governos. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que mais de meio milhão de pessoas eram infectadas com TB-DR no mundo, sendo que apenas um quarto delas foram diagnosticadas e tratadas.

“É muito desanimador ver que, no ano passado, das centenas de milhares de pessoas que vivem com a tuberculose mortal e resistente a medicamentos, apenas 4.800 receberam os dois novos medicamentos que poderiam aumentar significativamente o número de vidas salvas”, diz o dr. Isaac Chikwanha, consultor para TB da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF.

A tuberculose (TB) é uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo: aproximadamente 1,8 milhão de pessoas morrem de TB por ano. Dois medicamentos novos e promissores, a delamanida e a bedaquilina, chegaram ao mercado há três e quatro anos, respectivamente, com grandes expectativas acerca de sua contribuição para a composição de um tratamento novo e bastante aprimorado para TB-DR. O atual padrão de tratamento para TB-DR demanda que os pacientes tomem aproximadamente 15 mil comprimidos no período de dois anos – o que causa efeitos colaterais graves e debilitantes – e cura apenas uma em cada duas pessoas.

“Quando temos acesso a novos medicamentos como a bedaquilina e a delamanida – incluindo a combinação das duas substâncias – damos às pessoas uma chance real de sobreviver a essa doença mortal”, diz a dra. Jennifer Hughes, médica de TB de MSF em Khayelitsha, na África do Sul. “Dos 18 pacientes de nosso projeto para os quais iniciamos o uso combinado de bedaquilina e delamanida, aproximadamente 90% tiveram resultados de cultura negativa depois de seis meses de tratamento, um sinal preliminar de que o tratamento será um sucesso”.

“Os esforços para ampliar o acesso à bedaquilina e à delamanida foram muito lentos. Na África do Sul, apenas 1% das pessoas que poderiam se beneficiar da delamanida estão recebendo o medicamento hoje, especialmente nas pequenas regiões mais confinadas do país”, adicionou a dra. Hughes. “Quanto tempo mais as pessoas de outras áreas terão de esperar?”
 
Enquanto a bedaquilina e a delamanida eram aprovadas pela OMS para integrarem os regimes de tratamento para pessoas com cepas graves de TB-DR, MSF e outras organizações lutaram pelo acesso a esses novos medicamentos. Hoje, o acesso às duas substâncias – produzidas pelas empresas farmacêuticas Janssen/Johnson&Johnson e Otsuka, respectivamente – é limitado por diversas razões, entre elas o fato de que as empresas não registraram os medicamentos em muitos países com alto índice de TB.

“Nosso primeiro maior problema é o fato de as farmacêuticas não terem sequer registrado esses novos e importantes medicamentos em alguns dos países mais atingidos pela TB. O segundo problema é o alto preço”, diz o dr. Chikwanha. “Tanto a Janssen como a Otsuka, mas especialmente a Otsuka, no caso da delamanida, devem acelerar urgentemente o processo de registro de seus medicamentos em países com alto índice de TB e estipular um preço acessível para eles”.

Os governos também devem facilitar o acesso a esses medicamentos, autorizando sua importação antes que o processo de registro esteja concluído. “Os governos devem fazer tudo o que for possível para ajudar a salvar as vidas de suas populações”, diz o dr. Chikwanha. “Os países têm a responsabilidade de tratar pessoas com TB-DR com os mecanismos disponíveis e recomendados, o que inclui a bedaquilina e a delamanida, especialmente para os que não têm mais nenhuma alternativa de tratamento”.

“Eu tive muita sorte, porque fui uma das primeiras pessoas na África do Sul a conseguir a delamanida”, diz a jovem Sinethemba Kuse, de 17 anos, que vive em Khayelitsha, próximo à Cidade do Cabo. “Estive em tratamento durante 14 meses, e hoje estou bem, quase sem efeitos colaterais. Acho que muitas pessoas deveriam receber esse tratamento, porque ele realmente funciona. Muitas pessoas que não têm a chance de tomar esses comprimidos estão sofrendo, e muitas delas morrem. Então, sugiro que os governos comprem esses medicamentos a fim de que mais pessoas tenham uma segunda chance de viver”.

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