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Médica boliviana fala sobre o trabalho de MSF no tratamento da doença de Chagas

15/07/2008
Wilma Chabí, há seis anos com MSF, conta sua experiência em programas de luta conta o mal de Chagas em entrevista.

A doença de Chagas é uma das doenças mais negligenciadas do mundo. Atualmente, calcula-se que o mal afeta 18 milhões de pessoas na América Latina, e a Bolívia é hoje o país com a maior proporção de casos no mundo. Essa doença parasitária ataca especialmente a população mais pobre do continente: o barbeiro, o inseto que transmite Chagas, vive nas fendas de habitações de palha e barro, freqüentes em zonas rurais e bairros urbanos pobres.

Que projetos MSF realiza na Bolívia?
Depois de trabalhar em Tarija e Sucre, onde se oferecia o tratamento contra a doença de Chagas a crianças e adolescentes, estamos trabalhando agora em um novo projeto na cidade de Cochabamba, onde pela primeira vez também se trata adultos. Além disso, temos a intenção de integrar o diagnóstico e o tratamento dentro dos postos de saúde para que, no futuro, se trate desta patologia como qualquer outra.

O tratamento que existe atualmente é efetivo em menores de 12 anos. Em adultos, o medicamento apresenta mais efeitos colaterais e não é tão eficiente, porém há estudos que demonstram que pode melhorar a evolução clínica do paciente.

Em Cochabamba vocês tratam todas as faixas etárias, já em Sucre se tratava pacientes até os 18 anos. Como é o tratamento?
Nos programas que MSF tem realizado, temos comprovado que é possível dar o tratamento de forma ambulatória, ou seja, sem internação nos centros de saúde, mas é necessário haver um bom acompanhamento dos pacientes. O tratamento em menores de nove meses dura 30 dias e em maiores, 60 dias. Quanto mais idade têm, mais efeitos colaterais podem apresentar e um bom acompanhamento possibilita que se controlem esses efeitos. Pela experiência de MSF em Chagas, muitos poucos pacientes têm sofrido efeitos colaterais graves e sido hospitalizados. No entanto, é muito importante tanto o papel do médico como o do paciente: é necessário explicar que efeitos pode ter a medicação para que os dois possam detectá-los e tratá-los a tempo.

Que dificuldades vocês enfrentam na hora de tratar a doença de Chagas?
Atualmente, as ferramentas que temos para tratar Chagas são poucas e antigas. Continuamos utilizando alguns dos únicos remédios que existem para tratar a doença, o Benznidazol e Nifurtimox, e não há avanços em Pesquisa e Desenvolvimento (P & D) relacionados à Chagas. Esses dois medicamentos são pouco eficazes e apresentam um número considerável de efeitos adversos. Por outro lado, por exemplo, não há formulação pediátrica do tratamento. Isso quer dizer que, quando tratamos um bebê, temos que explicar à pessoa que administra o medicamento que deve dar a ele um quarto de um quarto da pastilha. Para que o bebê possa ingerir a medicação, a pessoa responsável deve diluir o fragmento da pastilha em água e logo aplicá-la com uma seringa. Isso deve ser feito duas vezes ao dia. Além disso, a dose varia em função do peso, assim, em cada semana na revisão com o pessoal de saúde, deve-se pesar o bebê e adequar o medicamento.

Contudo, os funcionários de saúde têm pouca informação e desconhecem a forma de manejar da doença, que é uma barreira para levar adiante a expansão do diagnóstico e do tratamento desta enfermidade.

A população conhece a doença?
Se conhecem, sabem que existe e como morrem os doentes – principalmente por patologias relacionadas com o coração e o intestino – mas acham que isso acontece porque não há tratamento. Além disso, muitas vezes você enfrenta a incredulidade do doente. Na maioria dos casos, o enfermo não apresenta nenhum sintoma e, quando lhe dizemos que tem a doença, ele não acredita. Além do mais, a diferença de Chagas para outras doenças é que com essas o tratamento faz com que o paciente melhore e que os sintomas abrandem, com Chagas o paciente é iniciado no tratamento sem se sentir mal, deve sofrer possíveis efeitos colaterais e a única maneira de saber como está indo o tratamento é fazer o controle sorológico.

A Bolívia é o país com o maior número de afetados pelo mal de Chagas e se estima que 60% do território seja área endêmica. Como a enfermidade esta´sendo combatida pelos organismos públicos?
Há poucos anos, a política do Ministério da Saúde a respeito de Chagas só se focava no controle vetorial: analisar o domicílio para comprovar se estava infestado e fumegar. Falava-se do barbeiro, mas não se falava do doente. Contudo, a doença de Chagas só está ligada à casa quando se vive numa zona endêmica onde haja barbeiro; devido às migrações e à transmissão vertical, as pessoas podem estar doentes e não viver nessa zonas. Desde o ano de 2006, aproximadamente, o ministério começou a tratar enfermos, mas não em todos os lugares do país e somente menores de 12 anos.
Além disso, há um ano que o Programa Nacional de Chagas deixou de receber financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que era seu principal financiador, complicando mais a sua capacidade de trabalho.

Sendo uma médica boliviana, qual você acha que é o valor do trabalho de MSF em relação à doença de Chagas?
Com os projetos que MSF está realizando, creio que estamos acabando com o medo que o pessoal de saúde têm de tratar a doença. Eu mesma, antes de trabalhar com MSF, trabalhava em um hospital público e nunca havia tratado de doentes de Chagas.