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As marcas da explosão continuam vivas na população de Beirute

18/11/2020
Psicóloga de MSF, Sara Tannouri nos conta como as pessoas tentam superar a tragédia do início de agosto
As marcas da explosão continuam vivas na população de Beirute

Foto: Mohamad Cheblak/MSF

A psicóloga de MSF Sara Tannouri relembra a explosão que devastou sua cidade natal, Beirute, capital do Líbano, no começo de agosto e o impacto que teve no bem-estar mental das pessoas, incluindo o dela própria. Confira seu relato completo:

 

“4 de agosto de 2020, às 18h08. Eu estava prestes a sair de casa para a sessão semanal com meu terapeuta pessoal. Eu já estava atrasada e disse um adeus superficial à minha família ao sair.

Assim que fechei a porta do meu carro, ouvi um barulho alto e senti como se o ar estivesse sendo sugado para fora do carro. Segundos depois, vidros estilhaçados e destroços caíram como chuva forte no meu carro. A explosão destruiu tudo à vista.

Eu me senti completamente presa no meu assento e meu corpo ficou paralisado pelo choque. Alguns segundos de silêncio penetrante foram seguidos por uma estranha mistura de alarmes e gritos de ajuda e angústia de vizinhos que pude ver cobertos de sangue, olhares de confusão e medo em seus rostos.

Em meio ao caos, eu podia ouvir minha mãe gritando meu nome e, finalmente, sacudi minha paralisia e corri de volta para casa para garantir a ela que eu estava viva.

Nesse ponto, estávamos convencidos de que um ataque havia ocorrido em nosso bairro, mas não demorou muito para perceber a magnitude do que havia acontecido.

Começamos a olhar ao redor sem acreditar: como nosso lugar reconfortante pode ter sido violado de forma tão perturbadora? Havíamos sobrevivido sãos e salvos ou ainda não havia terminado? Mesmo se tivéssemos sobrevivido, quem não teria? Eu me senti oprimida e entrei em um estado geral de pânico. Para superar esses sentimentos, eu precisava me tornar útil.

No dia seguinte à explosão, e depois de uma noite sem dormir tentando entender a extensão do desastre que estávamos enfrentando, recebi uma ligação da equipe de MSF em Beirute pedindo que eu me juntasse a eles na resposta humanitária como psicóloga.

Senti que precisava usar qualquer conhecimento que tivesse para contribuir com a resposta e para ajudar minha própria comunidade em seus momentos mais difíceis.

Como parte da equipe de emergência de MSF, ajudei a avaliar quatro dos hospitais mais danificados, conduzi visitas domiciliares e forneci primeiros socorros psicológicos e apoio de saúde mental para as pessoas afetadas pela explosão.

Eventos desencadeadores

A presença de MSF em algumas das áreas mais impactadas da cidade esclarece quanto apoio à saúde mental era necessário - e ainda é necessário agora.

O fluxo de pacientes que procuram consultas tem sido constante e a comunidade, que por vezes tende a estigmatizar as pessoas com problemas de saúde mental, tem manifestado uma necessidade real deste serviço.

Desde a explosão, há três meses, o trauma das pessoas foi desencadeado novamente por vários incidentes, por exemplo, quando um incêndio eclodiu no porto, perto do local da explosão, em setembro.

Esses eventos vêm no topo de uma aguda crise econômica e financeira, que deixou as pessoas lutando para sustentar suas famílias, bem como a instabilidade política no Líbano.

À medida que os pacientes enfrentam um trauma após o outro, seu bem-estar mental de longo prazo está se tornando mais difícil de alcançar para muitos.

Para mim, como psicóloga, isso representa um desafio: lembretes recorrentes da tragédia da explosão ou de um novo trauma podem interromper repentinamente o plano de tratamento de um paciente.

Sinto como se o tempo tivesse parado para algumas pessoas na noite da explosão e ninguém parece ter restaurado a normalidade em suas vidas. Isso também se aplica a mim em um nível pessoal.

Olhando para trás, para o dia da explosão, sentimentos de insignificância e vulnerabilidade emergem quando penso em quão pouco tempo foi necessário para destruir os sonhos e aspirações de milhões de libaneses. Mas essa tristeza geralmente é consolada pela força que observo entre as pessoas diretamente afetadas pela explosão. Isso está me ensinando resiliência e determinação.

Aceitando a crise

Fazer parte da equipe de resposta à saúde mental de MSF definitivamente me ajudou a entender como essa crise me afetou pessoalmente.

Ter passado por uma experiência muito semelhante à experiência dos pacientes reforçou um forte sentimento de empatia da minha parte. Decidi canalizar minha energia e conhecimento para fornecer o máximo de ajuda e apoio para aqueles que precisavam.

Quase todo mundo que conheço tem contribuído, de uma forma ou de outra, para reconstruir essa cidade destruída, pedaço por pedaço. Isso me deu forças para acordar incansavelmente todos os dias desde a explosão e manter a esperança.”

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