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Mali: MSF no coração do deserto

05/02/2016
Em entrevista, profissional detalha visita ao projeto apoiado por MSF em Timbuktu

Foto: Paolo Marchetti

A Dra. Tane Luna é obstetra e ginecologista. Nascida e treinada em Málaga, na Espanha, ela atualmente trabalha para a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Austrália, na Unidade Médica para a Saúde de Mulheres e Crianças em Sidney. Ela conduziu uma avaliação para MSF no hospital geral de Timbuktu, no coração de uma área muitíssimo remota, marcada pela insegurança e onde o acesso a cuidados é um desafio para a população.

Como foi a avaliação?

Foi muito boa! Foi excitante descobrir esse programa, esse hospital e essa equipe. Excitante e exaustivo ao mesmo tempo. O norte do Mali é uma área em conflito onde o acesso a cuidados de saúde é difícil. Levei quase um dia em um avião que fez diversas paradas até chagar a Bamako, capital do Mali, a mais de 1 mil km de Timbuktu. Na chegada, quando você sai do avião, faz 50o C na pista de pouso e a luz quase cega. Aqui, tudo é muito seco e faz muito calor. Durante todo o dia, procuramos uma sombra e desejávamos o ar-condicionado da ala cirúrgica ou de alguns escritórios.

Em campo, contamos com uma equipe internacional e nacional muito profissional e altamente motivada que atua em colaboração com o Ministério da Saúde, e os trabalhos vão bem. E eles estão tão isolados que a comunicação é muito apreciada, muito rica.

No que consistiu sua visita a campo?

Para todos os seus programas médicos de médio e longo prazos, MSF conduz avaliações, oferece suporte regular. O propósito é duplo: garantir a qualidade dos cuidados oferecidos aos nossos pacientes e oferecer suporte direto às equipes médicas, além daquele estabelecido por meio de comunicação regular por e-mail, Skype, etc. Como parte da equipe do hospital de Timbuktu, trabalhei especificamente na ginecologia, administrando o cuidado a vítimas de violência sexual e o programa de saúde materno-infantil. É um programa relativamente novo e muito motivador. O único aspecto frustrante dessas visitas é que quase não temos tempo de praticar a Medicina, de passar tempo com nossos pacientes.

Quais são as principais preocupações de saúde e acesso a cuidados para a população?

O norte do Mali tem estado em conflito há muitos anos. Todos têm medo de se movimentar. Essa é uma região muito remota em situação de muita precariedade e isolamento. A população está espalhada em uma ampla área e é, frequentemente, nômade. Ninguém se move durante a noite e evita-se longas distâncias. Nem sempre as pessoas dispõem de recursos para virem de tão longe receber cuidados.

É também difícil recrutar profissionais de saúde para trabalhar lá. Em Timbuktu, nossos colegas médicos também estão isolados e dificilmente podem viajar para oferecer cuidados ou aconselhamento em centros de saúde comunitários. Durante a minha visita, conheci duas parteiras de dois diferentes centros de saúde, e foi excepcional elas poderem ter ido ao hospital.

Você pode falar sobre esse hospital e a atuação de MSF?

O hospital é a estrutura de referência para uma população de cerca de 900 mil pessoas, embora tenha as proporções de um hospital de tamanho mediano. Na realidade, a população da zona de saúde é de cerca de 60 mil pessoas. É a maior região do Mali, no coração do deserto do Saara, com uma área equivalente à da Espanha! O hospital de referência mais próximo a Timbuktu fica a 400 km.

Há quatro anos, MSF tem sido responsável por cinco serviços de internação que totalizam 87 leitos na estrutura de referência de Timbuktu. Trabalhamos na cirurgia, maternidade, medicina interna, pediatria e emergência. O departamento de maternidade assiste 100 partos por mês, incluindo entre 15 a 20 cesáreas e cerca de dez consultas por dia. Os principais problemas de saúde são bastante clássicos para uma região com muitas crianças. Há muitos casos de malária e desnutrição, mas também outras patologias. Nós também oferecemos instrumentos médicos e medicamentos.

Na medida em que não há transporte público e ambulâncias não podem transitar, o volume de atividades permanece razoável. Para tentar superar esses problemas de trânsito, também prestamos suporte a três centros de saúde comunitários em Tin-Telout, Agouni e Nibkit.

O que mais lhe surpreendeu ou impressionou durante essa visita?

O país, as pessoas, o tamanho e o potencial desse hospital e a qualidade dos cuidados oferecidos, além das reuniões com nosso obstetra ginecologista Dr. Bah. Ele foi treinado em Cuba e passamos muito tempo falando espanhol, ele com seu sotaque cubano. Ele, gentilmente, cantou até salsa!

As parteiras são muito dedicadas, o pessoal do departamento de emergência é muito organizado e confiável em cada intervenção. Eu realmente espero que a situação se estabilize, porque, apesar de toda essa dedicação e mesmo com o nosso apoio, se a insegurança persistir, os pacientes ainda terão muitas dificuldades para ter acesso aos cuidados.

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