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Mali: mais de 53.000 consultas realizadas na região isolada de Mopti

12/03/2019
Conflito, toque de recolher e enchentes colocam os cuidados de saúde fora de alcance
Mali: mais de 53.000 consultas realizadas na região isolada de Mopti

Foto: Lamine Keita/MSF

Adama acompanhou sua filha grávida em estado avançado, Mariam, ao hospital apoiado por MSF em Douentza, na região de Mopti, no centro do Mali, para que ela pudesse dar à luz com a ajuda de obstetrizes. Adama e sua filha vivem no interior e a viagem para a cidade não foi fácil. "Desde o início da crise, temos medo de sermos roubadas no caminho", diz Adama.

“Temos medo de ter nossas coisas roubadas, de sermos agredidas. Muitas pessoas perderam a vida nessas estradas. Se você for atacada por um ladrão e não tiver dinheiro, eles vão bater em você. A crise limitou totalmente nossa liberdade.”

A crise a que Adama se refere começou em março de 2012, com a ocupação do norte do Mali por grupos armados não estatais que lutavam contra o Estado e seus militares. Em 2015, apesar da assinatura de acordos de paz, a crise mudou para o centro do Mali, área que tem se tornado cada vez mais foco de instabilidade e violência dentro do país.

As atividades de grupos armados não-estatais na região de Mopti não são a única razão para a instabilidade. Em algumas áreas, a crise somou-se a conflitos locais entre a comunidade Fulani, que vive principalmente da pecuária, e a comunidade Dogon, que é majoritariamente agricultora.

As operações militares estão em andamento na região de Mopti há vários meses, com o apoio das forças militares francesas e das Nações Unidas, além do G5 Sahel (grupo de cooperação para a segurança e o desenvolvimento de Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger e Chade ). As autoridades militares malianas também impuseram uma série de medidas de ordem pública, incluindo toques de recolher e proibição de viajar de motocicleta e veículos de duas rodas.

Todos esses fatores se combinaram para restringir os movimentos das pessoas, dificultando a obtenção de atendimento médico quando necessário.  

"É difícil porque não temos nenhum agente de saúde no vilarejo e a instalação médica mais próxima fica a 15 km de distância", diz Ousmane, que levou seu filho de 5 anos, Soumaila, para Douentza em busca de tratamento para malária grave. "Chegamos à cidade de Douentza em uma carroça", diz ele.

Por causa da violência e insegurança, muitas organizações que prestam cuidados de saúde, incluindo provedores de saúde pública e organizações de ajuda, reduziram as atividades ou deixaram completamente a região, especialmente as áreas rurais onde o conflito é mais intenso.   

Equipes de MSF estão trabalhando em Douentza desde 2017 para garantir que as pessoas mais vulneráveis possam acessar serviços de saúde gratuitos. No hospital de Douentza, eles descobriram que os pacientes geralmente chegam com problemas que já se tornaram sérios. “Especialmente por conta de restrições relacionadas à insegurança, medo e distância, é somente quando o estado de saúde do paciente se torna muito sério que eles tentam ir ao centro de saúde”, diz Badamassi Abdrahimoune, coordenador do projeto de MSF em Douentza. "Então, muitas vezes, temos problemas para tratar esses pacientes simplesmente porque eles chegaram tarde demais."

Esta experiência é compartilhada pela equipe de MSF que apoia o hospital em Ténenkou, no oeste da região de Mopti e perto do rio Níger. O rio e seus afluentes frequentemente inundam durante a estação de chuvas, isolando muitos vilarejos e tornando as viagens quase impossíveis. “As limitações causadas pela atual insegurança compõem os obstáculos crônicos que surgem durante a estação de chuvas. Todos os anos, entre julho e dezembro, regiões inteiras se tornam ainda mais isoladas do que o habitual, separadas das estradas por causa das inundações ”, diz Frédéric Demalvoisine, coordenador-geral de MSF no Mali.

Em resposta, MSF está enviando suas equipes médicas para alcançar as populações isoladas, que se encontram separadas dos serviços de saúde. No distrito de Douentza, MSF expandiu suas atividades para três centros de saúde nas áreas rurais de Boni, Hombori e Mondoro, onde as pessoas são frequentemente impedidas de viajar para Douentza pelos combates. Entre agosto de 2018 e janeiro de 2019, as equipes de MSF realizaram mais de 21.800 consultas médicas nesses três locais. No distrito de Ténenkou, as equipes mantêm clínicas móveis para fornecer cuidados de saúde básica e providenciar para que os pacientes mais gravemente doentes sejam transferidos para o hospital de Ténenkou.

As equipes viajam frequentemente, por exemplo, para Diafarabé, ao sul de Ténenkou, onde centenas de pessoas deslocadas se estabeleceram desde novembro passado, após um ataque armado à vila de Mamba. Acredita-se que cerca de 11 pessoas foram mortas no ataque.

Kassé Tiouté é um dos que fugiu para Diafarabé. Ela relembra os acontecimentos de novembro. “Um dia, homens armados chegaram ao vilarejo e mataram 11 pessoas. Muitas pessoas fugiram imediatamente. Corremos para Diafarabé. Eu estava com meu filho, minha sogra e minhas irmãs. Todos nós adoecemos. Tenho medo até hoje por causa do que vivenciamos. Durante a noite, vejo as mesmas cenas de novo. Eu não quero mais voltar para o meu vilarejo."

Olhando para o futuro, os desafios humanitários continuam enormes. MSF planeja continuar a alcançar populações isoladas privadas de assistência médica devido à deterioração da situação de segurança.


MSF apoia serviços de saúde e fornece encaminhamento de pacientes nas áreas de Douentza e Ténenkou, na região de Mopti, no centro do Mali. MSF também começou a apoiar três centros de saúde comunitários nos arredores de Douentza e está ajudando a enviar agentes de saúde especializados em malária para comunidades de difícil acesso na área de Ténenkou. MSF também mantém clínicas móveis em áreas onde as pessoas têm acesso limitado ou nenhum acesso a centros de saúde. Em 2018, as equipes de MSF na região de Mopti realizaram mais de 53 mil consultas – incluindo 12 mil consultas com clínicas móveis – auxiliaram 1.200 nascimentos e trataram cerca de 400 crianças gravemente desnutridas.  
 

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