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Malauí: mais de 5 mil refugiados moçambicanos em necessidade

19/02/2016
Condições de vida no acampamento Kapise, no distrito de Mwanza, estão aquém dos padrões humanitários

Foto: James Oatway

Whitney Ward, coordenadora-geral de MSF em Kapise, no Malauí, explica a necessidade crescente de assistência humanitária para mais de 5 mil moçambicanos que fugiram para o vilarejo Kapise, localizado no país vizinho Malauí.

Quais são as condições de vida dos refugiados moçambicanos no Malauí?
Eu trabalhei em vários acampamentos e nunca vi superlotação como essa. Na medida em que as pessoas fugiram de Moçambique, elas se estabeleceram onde puderam, construindo abrigos improvisados de madeira e mato. Estamos falando de centenas de pequenos abrigos amontoados uns em cima dos outros, onde muitas crianças correm ao redor e pessoas cozinham em fogareiros. Como a estação chuvosa não havia começado até pouco tempo, o acampamento era, geralmente, muito seco e apresentava um grave risco de incêndio.

Metade das consultas na clínica de MSF têm relação com casos de malária: somente na semana passada, nós tratamos 388 pacientes de malária. A vulnerabilidade das pessoas é imensa, mas temos tido bastante sorte até o momento, porque nenhuma doença contagiosa afetou o acampamento. A superlotação e a falta de saneamento são um sério risco. Por exemplo, ao passo que o respeito pelo mínimo de condições humanitárias requer ao menos 225 latrinas para as 5.500 pessoas que vivem atualmente no acampamento, há apenas 14 em pleno funcionamento. Mas embora a necessidade seja imensa, considerando a escassez de terreno, seria extremamente difícil construir um número apropriado.

Quais são as últimas tendências em termos de chegadas?
Enquanto cidadãos moçambicanos começaram a chegar ao Malauí no último trimestre de 2015, na semana passada, houve um aumento dramático de 40% do número de chegadas, superando 5.800 pessoas. Temos excedido por muito tempo a capacidade do local atual para acomodar tantas pessoas. Por exemplo, o único fluxo regular de água secou e as pessoas, geralmente mulheres, agora têm de esperar duas horas e meia, em média, para encher seus galões de água.

Cada pessoa tem, em média, oito litros de água por dia, apenas o suficiente para beber e cozinhar e bem abaixo do mínimo de 15 a 20 litros recomendados como nível humanitário mínimo em situações de emergência, apesar da perfuração de poços adicionais e tanques de água que MSF disponibilizou.

A comunidade local do vilarejo Kapise tem sido muito generosa e hospitaleira, mas a tensão imposta sobre eles pelos recém-chegados levanta preocupações acerca de tensões emergentes, especialmente em relação ao acesso à água. É compreensível, porque a situação é simplesmente insustentável: o vilarejo de Kapise abrigava cerca de 150 famílias, e agora mais de mil famílias compartilham um pedaço de terra com recursos escassos.

O que deve ser feito?
MSF está trabalhando para melhorar as condições de vida, mas sabemos que não conseguiremos alcançar os padrões mínimos. Não há dúvidas de que o acampamento precisa ser relocado. Primeiramente, para um lugar que irá aliviar a superlotação, oferecer recursos adequados, assim como garantir o acesso e o envio eficiente de ajuda. Quando tivemos a primeira chuva forte esta semana, a viagem de 45 minutos da cidade vizinha de Mwanza levou duas horas, na qual mesmo veículos 4X4 bem-equipados e resistente ficaram atolados na lama. As pontes de madeira chegaram perto de estarem submersas, o que mostra que o acesso às pessoas poderia muito bem ser totalmente impedido se as chuvas continuarem. Em segundo lugar, a fronteira moçambicana fica a meros 300 metros de distância, bem abaixo do mínimo recomendado nesse tipo de situação, na qual as pessoas relatam ter fugido da violência em seu país.

MSF atua nos distritos de Nsanje, Neno e Mwanza (onde está localizado o acampamento Kapise), no sul do Malauí, apoiando o Ministério da Saúde na oferta de cuidados para pessoas vivendo com HIV. A organização também mantém um projeto de HIV na província de Tete, em Moçambique, e tem capacidade de rápida intervenção em caso de uma emergência na região.