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A longa sombra da resposta ao Ebola

09/10/2019
O sistema de saúde de Mabalako enfrenta dificuldades devido à epidemia de Ebola na região
A longa sombra da resposta ao Ebola

Foto: Laetitia Martin/MSF

Em Mabalako, uma zona rural na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo (RDC), a epidemia de Ebola afetou o já frágil sistema de saúde. Muitos médicos e profissionais de saúde foram contratados pela resposta internacional ao Ebola, deixando os centros de saúde e o hospital regional com poucos profissionais e apoio financeiro. As consequências podem ser mortais. Em quatro unidades de saúde, Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem como objetivo melhorar o acesso à atenção de saúde primária e reduzir os riscos de infecção hospitalar no meio de uma zona ativa de transmissão do Ebola.


À primeira vista, a pequena clínica de Metale se parece mais com um posto avançado do que com um centro de saúde. A equipe de MSF reformou o interior do prédio de madeira, que agora abriga espaços de consulta, vários leitos para pacientes, uma maternidade, uma farmácia e um laboratório. Em um prédio pequeno e desgastado ao lado, a antiga maternidade com uma mesa simples de madeira ainda está em uso.


Dirigir para Metale é uma longa jornada pela zona rural de Mabalako e pela ativa zona de transmissão do Ebola. É aqui, na zona de saúde de Mabalako, que o surto começou em agosto de 2018. Quase 400 pessoas foram confirmadas com a doença pelo vírus Ebola nesta zona e mais de 300 morreram. Quando a chuva cai, as pessoas que andam entre os vilarejos ao longo da estrada cobrem a cabeça com folhas de bananeira e a trilha estreita de terra rapidamente se transforma em um banho de lama.


“Instalamos um tanque para coletar água da chuva de sarjetas, instalamos novas latrinas e construímos uma área de descarte com dois tanques seguros para descartar com segurança resíduos médicos ou itens contaminados”, explica Isai Sanou, especialista em água, saneamento e higiene de MSF. Os padrões de água potável e higiene segura são essenciais para prevenir e controlar doenças infecciosas, incluindo o Ebola, mas também beneficiam os serviços de maternidade e de laboratório.


Postos de saúde e centros de saúde como o de Metale são a estrutura principal do sistema de saúde congolês. Eles são o primeiro acesso a cuidados de saúde primária para pessoas que precisam de aconselhamento ou tratamento médico. As doenças infecciosas comuns como malária, sarampo ou cólera são frequentemente diagnosticadas e tratadas aqui e muitos centros têm pequenos serviços de maternidade ou enfermarias pediátricas. Pacientes com complicações ou lesões graves são encaminhados para centros de saúde maiores ou para o hospital geral em cada zona de saúde.


O sistema, no entanto, possui inúmeras lacunas e faltam recursos e profissionais; ainda mais com a resposta de apoio internacional ao Ebola em pleno andamento. Não há eletricidade em Metale e nem geladeira para manter vacinas para as atividades de vacinação de rotina muito necessárias contra sarampo, difteria ou tétano. Várias campanhas de vacinação no Kivu do Norte foram suspensas ou adiadas, no mesmo momento em que a atenção e os recursos são desviados para a complexa luta contra o Ebola.


Para centros de saúde e hospitais da região, o aumento da resposta ao Ebola, financiada internacionalmente, pode ser uma bênção ou uma maldição. Onde as equipes de resposta ao Ebola e organizações internacionais instalam unidades de isolamento e tratamento, elas geralmente melhoram a infraestrutura, fazem pagamentos extras aos profissionais e prestam serviços de atenção de saúde primária. Mas os profissionais de saúde necessários na resposta são contratados quase que exclusivamente de outros centros de saúde e hospitais da região, que agora enfrentam lacunas críticas de mão de obra.


No hospital geral, na vila principal de Mabalako, essa lacuna é evidente. Metade dos médicos e da equipe de enfermagem necessária não estão disponíveis e nas quatro enfermarias do grande pátio ninguém tem tempo suficiente para assistir os pacientes. Como os salários extras com a resposta ao Ebola tendem a ser mais altos e mais confiáveis, muitos profissionais restantes ficam desapontados por não terem sido selecionados e por isso a moral e a motivação são baixas.


No hospital, a escassez de profissionais, tratamentos indisponíveis e salários em falta são uma mistura mortal. "Perdemos crianças na enfermaria pediátrica porque elas não receberam o tratamento correto da malária imediatamente – um erro que poderia ter sido evitado com os recursos humanos certos e mais vigilância", disse o médico de MSF Brian Da Cruz, que apoia os dois médicos restantes encarregados de uma sala de operações, maternidade, clínica pediátrica e uma enfermaria regular com mais de 40 leitos.


O hospital também possui uma zona básica de isolamento para pacientes com doenças infecciosas, mas a pequena estrutura não possui vestiários, zona de descontaminação e não há acesso seguro para as famílias visitarem os pacientes. Como os pacientes suspeitos de Ebola são levados para outra estrutura mais bem equipada, seus quartos são usados atualmente para observar quatro crianças com sarampo, uma doença evitável por vacinação, mas altamente infecciosa, levando a epidemias regulares na RDC. No lado oposto do pátio, MSF perfurou um poço e instalou um ponto de água, que é usado permanentemente por pessoas que vivem no bairro em busca de água potável.


Embora o apoio de MSF tenha se concentrado principalmente na melhoria da infraestrutura e no trabalho com o restante da equipe nos centros de saúde e no hospital regional, atualmente a equipe está avaliando um modelo diferente, incluindo um esquema de pagamento regular para complementar os salários da equipe e oferecer treinamento ao lado do leito. “Estamos discutindo para desempenhar um papel mais forte no hospital e nos três centros de saúde que apoiamos, assumindo a responsabilidade de supervisão, oferecendo treinamentos no trabalho e garantindo que os pacientes tenham acesso a cuidados gratuitos enquanto a equipe é paga”, explicou Amandine Colin, coordenadora do projeto.


De volta a Metale, a especialista em sensibilização da comunidade de MSF, Wivine Bokotogi, entrega um conjunto de cartões sobre prevenção e tratamento da malária a dois promotores de saúde locais. A malária é outro grande ônus da saúde que corre o risco de ser negligenciado, pois a atenção e os recursos são direcionados à epidemia de Ebola. Na RDC, a malária foi responsável por 13% das mortes de crianças com menos de 5 anos de idade em 2016, e até metade das pessoas examinadas nos centros de tratamento de Ebola no ano passado tiveram resultados positivos apenas para a malária. "Treinamos os promotores de saúde locais com mensagens-chave para prevenir a malária, incluindo instruções para cobrir fontes de água estagnadas, usar redes mosquiteiras e levar as crianças aos centros de saúde mais próximos para que possam ser tratadas a tempo", disse Wivine.


Recursos e conhecimentos substanciais estão sendo utilizados para acabar com esta segunda maior epidemia de Ebola. Sem muita atenção em cuidados de saúde acessíveis e de qualidade, no entanto, a luta contra o Ebola atualmente ameaça lançar uma sombra longa e problemática.
 

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