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Líbano: "Nos sentimos menos invisíveis"

16/03/2018
Em Wadi Khaled, MSF oferece cuidados de saúde primária à população local e a refugiados sírios próximo à fronteira
Líbano: "Nos sentimos menos invisíveis"

Foto: Elisa Fourt

Wadi Khaled é uma região remota e negligenciada, localizada no extremo nordeste do Líbano, perto da fronteira com a Síria. Em 2016, MSF abriu um centro de saúde onde uma equipe de médicos e enfermeiros oferece uma ampla gama de serviços de saúde primária, aconselhamento de saúde mental e tratamento para pessoas em situação de vulnerabilidade, independentemente de sua nacionalidade.

Quando Samia abre as portas do centro de saúde primária de Médicos Sem Fronteiras (MSF), algumas pessoas já estão do lado de fora esperando. "Geralmente é assim", ela comenta. "E em uma ou duas horas, nossa sala de espera provavelmente estará lotada." A enfermeira trabalha em Wadi Khaled há alguns meses, mas diz que ainda se surpreende com o número de pacientes atendidos todos os dias no centro.


Aman segura Hanin em seus braços enquanto ela se registra no centro de saúde primária de MSF em Jandoula (Wadi Khaled)

No departamento de pediatria, Aman, uma mãe libanesa, é uma das primeiras na fila para registro. Ela diz que sua filha Hanin está doente e que a informaram que a pequena poderia ser tratada gratuitamente aqui.

Aman e sua filha são encaminhadas para a sala de espera, até serem atendidas pelo pediatra. Assim como elas, muitas outras mães e crianças esperam sua vez de serem atendidas. Nidal, uma mulher palestina, senta em um banco no meio da sala. Ela segura seu filho nos braços, esperando seu nome ser chamado.

Nidal e seu filho Amir estão à espera de uma consulta no centro de saúde primária de MSF em Jandoula (Wadi Khaled)

"Meu filho está com febre, então vim diretamente até aqui esta manhã. O fato de um médico atender Amir e não nos cobrar por isso faz uma grande diferença para mim. Se eu fosse ver um médico regular, eu teria que pagar entre 30 e 40 dólares (entre 96 e 128 reais) por consulta. E ainda teria que comprar os medicamentos. Eu tenho nove filhos e meu marido é o único que trabalha na família, então simplesmente não podemos pagar por isso. A vida em Wadi Khaled é extremamente difícil. As famílias são grandes e os serviços são caros. Então, todos conhecem o trabalho de MSF aqui. Esse centro é essencial para nós. É o nosso único recurso quando há algum problema com nossos filhos", relata Nidal.
Zahra, promotora de saúde, entra na sala de espera. Ela reúne todas as pessoas e explica quais os serviços disponíveis no centro. Ela também fornece informações sobre a importância da vacinação e responde às questões dos pais.

"Quando abrimos esse centro, rapidamente percebemos que havia muitos equívocos da população sobre como se manter saudável, tomar a medicação corretamente ou a importância da vacinação para crianças pequenas. Wadi Khaled é uma área isolada, com poucos serviços disponíveis. O nível de analfabetismo é alto e muitas pessoas que conhecemos nunca ouviram sobre as informações básicas que fornecemos. Nesse sentido, nosso trabalho é necessário, porque, às vezes, eles colocam sua saúde em perigo sem mesmo perceber."

Acabada a sessão de grupo, Zahra retorna ao departamento de doenças crônicas do centro. Ela tem uma consulta com Ghassan, um idoso sírio que sofre de diabetes e hipertensão. Durante 30 minutos, ela explica como ele deve tomar sua medicação e como ele pode melhorar seus hábitos alimentares.


Khaled checa os sinais vitais de Layla na sala de triagem, no centro de saúde primária de MSF em Jandoula (Wadi Khaled)

A área de espera dedicada aos pacientes que sofrem de doenças crônicas é tão cheia quanto a do departamento de pediatria. Khaled, um dos enfermeiros do centro, é responsável pela triagem. "A maioria dos pacientes que vejo aqui sofrem de diabetes, hipertensão ou asma", explica Khaled enquanto examina Laila, uma idosa síria que vive em um assentamento informal nas proximidades depois de fugir de seu país em 2012. Khaled checa seus sinais vitais antes da consulta com o médico. "Isso nos ajuda a acompanhar tudo", ele diz. "Eu realizo esses testes em cerca de 40 pacientes todos os dias, então imagine quantos pacientes atendemos em uma semana inteira... O número de pessoas que sofrem de doenças crônicas é extremamente alto nessa região do Líbano."

Bem ao lado, o dr. Mohammed atende Ahmad, outro refugiado que sofre de hipertensão. Ele e sua esposa, Houria, fugiram da Síria há cinco anos com seu filho que sofre de epilepsia, tentando encontrar uma vida melhor do outro lado da fronteira. Eles vêm regularmente ao centro e relatam que dependem completamente dos serviços prestados aqui. "MSF mudou a vida de muitas pessoas em Wadi Khaled. Antes, simplesmente não tínhamos para onde ir quando sofríamos de alguma coisa. Nós apenas tentávamos comprar qualquer medicamento em uma farmácia local que pensávamos ser bom para nós. Agora, não só sabemos mais sobre como cuidar de nós mesmos, mas também sentimos que, se houver algum problema, temos para onde ir. E de certa forma, nos sentimos menos invisíveis."

Em 2017, MSF realizou mais de 20 mil consultas em seu centro de saúde primária em Wadi Khaled, onde a maioria dos pacientes são libaneses ou sírios. Isso inclui mais de 8 mil consultas para tratar doenças crônicas, mais de 9 mil consultas pediátricas, mais de 2.500 vacinas e mais de 2.500 sessões individuais de saúde mental, visando atender pessoas em situação de vulnerabilidade que precisam de cuidados. MSF é uma das poucas organizações humanitárias que realizam atividades nessa região remota do Líbano.

Médicos Sem Fronteiras começou a trabalhar no Líbano em 1976, em resposta à Guerra Civil Libanesa, enviando equipes médicas para o sul do país e para Beirute. Essa foi a primeira missão de MSF em uma zona de guerra.

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