LÍBANO: famílias enfrentam a incerteza sob bombardeios e novas ordens de evacuação

Em menos de duas semanas, mais de 800 mil pessoas foram forçadas a fugir de suas casas.

Unidade Médica Móvel de MSF no Líbano | Salam Kabboul/MSF

Em menos de duas semanas, mais de 800 mil pessoas foram forçadas a fugir de suas casas e cidades no Líbano, devido aos incessantes bombardeios israelenses e às ordens de evacuação em massa.

Esses deslocamentos em massa estão aprofundando a vulnerabilidade das pessoas, incluindo aquelas que não conseguiram retornar para casa após terem sido forçadas a sair anteriormente. Ghina, uma jovem que fugiu de Odaisseh, na fronteira sul do Líbano, é uma das milhares de pessoas que permanecem deslocadas internamente desde 2023. Hoje, ela vive com a família em um abrigo conhecido pelos moradores como abrigo Montana, na cidade de Marwaniyeh, próximo de Saida, a terceira maior cidade do país.

“Vim com a minha família de Odaisseh. Fomos uma das primeiras pessoas a serem evacuadas à força dos nossos vilarejos [em 2023]”, diz Ghina, em frente ao centro de acolhimento. “Vivo neste centro há quase três anos. Antes, morava com a minha família de cinco pessoas em um quarto. Agora, com a chegada de mais gente, há quartos com até 30 pessoas vivendo juntas.”

O centro de acolhimento de Montana funcionava como um abrigo há alguns anos. Hoje, é o lar de mais de 120 famílias deslocadas, muitas das quais vivem ali desde que os vilarejos do sul foram evacuados à força há quase três anos. Mas, com as recentes ordens de evacuação, muitas outras pessoas chegaram nos últimos dias, superlotando o centro de acolhimento e aumentando ainda mais a pressão sobre as famílias que vivem ali.

As clínicas móveis de Médicos Sem Fronteiras (MSF) visitam regularmente esse centro de acolhimento, oferecendo cuidados gerais de saúde aos moradores. Realizamos atividades semelhantes em vários outros centros de acolhimento em todo o país, incluindo nas regiões Norte, Akkar, Bekaa, Monte Líbano e Beirute, onde centenas de milhares de pessoas buscam refúgio.

Nos últimos dias, nossas equipes testemunharam uma rápida deterioração das condições de vida, especialmente entre as pessoas deslocadas à força.

As pessoas estão sendo obrigadas a se deslocar novamente, e isso tem um impacto profundo na saúde física e mental”
– Lou Cormack, coordenadora geral de MSF no Líbano.

A intensificação dos bombardeios em áreas densamente povoadas nos últimos dias, aliada com novas ordens de evacuação generalizadas, está forçando sistematicamente as pessoas a deixarem suas aldeias.

Na manhã de 12 de março, quando a equipe de MSF chegou ao abrigo Montana, as famílias ainda estavam em choque. Na noite anterior, um ataque aéreo israelense havia atingido uma área a apenas 150 metros do abrigo. Embora não tenha causado vítimas e tenha provocado apenas danos leves ao abrigo, o ataque deixou todos assustados.

“O ataque aéreo israelense ocorreu sem aviso e muito perto do nosso abrigo”, diz Ghina. “Todo o abrigo tremeu e as crianças começaram a chorar. Estou cansada dessa situação.”

O bombardeio ocorreu justamente quando novas ordens de evacuação em massa foram anunciadas pelas forças israelenses, avançando mais ao norte do rio Litani, em direção ao rio Zahrani.

“Hoje, este abrigo em Marwaniyeh e pelo menos outros sete indicados pelas autoridades locais como supostamente seguros, já não são mais”, afirma Cormack. “Todos estão incluídos nas novas ordens de evacuação israelenses.”

A ampliação da ordem de evacuação em massa por Israel, agora incluindo todas as áreas até o rio Zahrani, atinge uma região densamente povoada e orienta os moradores a se afastaerem até 50 quilômetros da fronteira sul com o Líbano.

Estamos vendo semelhanças com o que observamos nos últimos dois anos e meio em Gaza: ordens de evacuação em massa, deslocamentos constantes de milhares de famílias e bombardeios sistemáticos em áreas densamente povoadas”, afirma Cormack.

“Após 15 meses de um cessar-fogo frágil que não conseguiu interromper a violência no Líbano, as famílias estão novamente presas entre fugir ou enfrentar as bombas.”

Estima-se que cerca de 14% do território do Líbano esteja atualmente sob ordens de evacuação¹ e que as áreas evacuadas nos subúrbios de Beirute e na fronteira sul abranjam mais de 1.300 quilômetros quadrados. Os habitantes de quase 200 vilarejos foram forçados a evacuar em menos de duas semanas.

Observamos pessoas fugindo de áreas ao sul do rio Zahrani em direção ao norte e estamos a acompanhar de perto o impacto destas novas ordens de evacuação. Desta vez, porém, mais pessoas decidiram não sair de onde estão, muitas vezes porque os abrigos estão lotados, as rotas são inseguras, não têm meios para se deslocarem novamente ou simplesmente não têm para onde ir. Isso provavelmente contribui para uma maior exposição da população civil e para o aumento do número de vítimas.

Ao mesmo tempo, as famílias estão enfrentam o peso financeiro e psicológico de deslocamentos repetidos: a perda de casas e meios de subsistência, o aumento das dívidas, o esgotamento físico e mental, o trauma e a falta de acesso a cuidados de saúde estão a tornar cada vez mais difícil lidar com a situação.

Sobre atuação de MSF:

Até 13 de março, Médicos Sem Fronteiras conta com mais de 12 Unidades Médicas Móveis em todo o Líbano, oferecendo cuidados básicos de saúde, saúde sexual e reprodutiva, além de apoio em saúde mental e psicossocial. Para garantir a continuidade do atendimento aos pacientes, seguimos mantendo nossas atividades em clínicas e projetos que já operavam antes da escalada da violência.

Nossas equipes iniciaram o apoio a hospitais e centros de atenção primária à saúde, doando combustível, suprimentos médicos e cestas de alimentos para profissionais de saúde em áreas afetadas pelo conflito. Estamos ainda em contato com grupos de defesa civil para a doação de kits de primeiros socorros, incluindo sacos para transportar corpos.

Continuamos em contato com as autoridades de saúde e parceiros para oferecer apoio conforme as necessidades surgem.

1 Reuters: Israeli evacuation orders affect 14% of Lebanon, NGO says | Reuters

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