Líbano: é urgente ampliar a ajuda humanitária após quase dois meses de devastação

Mesmo após anúncio de cessar-fogo temporário, civis seguem deslocados e lidam com perdas, traumas e acesso limitado à saúde

Liceu Abel Kader, em Beirute, onde funciona um abrigo. Especialmente no sul de Beirute e no sul do Líbano, as pessoas perderam suas casas, entes queridos e meios de subsistência. Mais de um milhão foram deslocadas à força. ©MSF

Após o anúncio do cessar-fogo temporário no Líbano, na quarta-feira (16/04), uma frágil sensação de alívio é ofuscada pela incerteza e pela cautela entre a população libanesa. As necessidades humanitárias e médicas de centenas de milhares de pessoas permanecem imensas, e Médicos Sem Fronteiras (MSF) continua adaptando sua resposta em todo país, avaliando também as necessidades à medida que as pessoas continuam se deslocando. MSF reforça também o apelo por um aumento urgente da ajuda humanitária e pelo acesso sem obstáculos às pessoas que precisam de assistência.

 

Deslocamentos forçados e incertezas 

No sul de Beirute, capital do país, as pessoas estão indo e voltando entre os abrigos e suas casas, recolhendo o que podem e se preparando para retornar aos locais de deslocamento caso a situação piore. Especialmente nesta região, em Bekaa e no sul do Líbano, centenas de pessoas perderam suas casas, entes queridos e seus meios de subsistênciaMais de um milhão de pessoas foram deslocadas à força no Líbano, devido aos ataques contínuos de Israel. 

 

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As pessoas que viajam para o sul estão em filas no trânsito. A incerteza continua grande e muitas não sabem se encontrarão suas casas de pé ou destruídas. Embora uma pausa nos ataques possa trazer algum alívio, a incerteza permanece, e as necessidades de reconstrução e assistência continuam. Isso inclui o impacto psicológico de meses de trauma causado pelas mortes, pelos deslocamentos forçados e pela falta de acesso ao básico para sobreviver. 

 

Ataques ao Líbano eram constantes mesmo antes da escalada 

Mesmo antes da escalada da guerra, no início de março, o chamado cessar-fogo já existia, mas apenas no nome, já que os ataques contínuos das forças israelenses continuavam a devastar a vida da população. Mais de 64 mil pessoas ainda estavam deslocadas internamente devido às incursões e à ocupação de Israel no sul do Líbano, enquanto ataques a equipamentos de reconstrução e outras instalações civis impediam a recuperação em muitas áreas. 

Desde 2 de março, mais de 2 mil pessoas foram mortas e mais de 7 mil ficaram feridas até 10 de abril, de acordo com autoridades de saúde locais. Somente em 8 de abril, ataques em grande escala das forças israelenses em todo o Líbano foram responsáveis por um quinto das vítimas registradas desde o início de março, horas após o anúncio de cessar-fogo regional no Oriente Médio. 

 

Médicos Sem Fronteiras apoia hospitais no Líbano

Equipes de MSF estão trabalhando no Hospital Universitário Rafik Hariri, em Beirute, e no Hospital Jabal Amel, em Sour, apoiando o sistema de saúde local. Em colaboração com os profissionais dos hospitais, estamos tratando pacientes com lesões que alteram a sua vida, incluindo membros amputados e traumas graves em órgãos. Os ataques indiscriminados em áreas densamente povoadas não pouparam civis, e ataques a instalações médicas mataram e feriram profissionais de saúde.

 

Deslocamento das pessoas deixa graves consequências

Entre as pessoas forçadas ao deslocamento, muitas tiveram que fugir às pressas, levando apenas as roupas que vestiam, deixando para trás suas casas e pertences. O tempo que passaram em abrigos superlotados ou em barracas improvisadas nas ruas agravou o estado de saúde dessas pessoas, devido às más condições de higiene, à falta de um ambiente adequado e ao sofrimento psicológico contínuo.  

As consequências do deslocamento durante a guerra não terminam quando as pessoas tentam voltar para suas casas. Algumas não poderão retornar, pois suas casas foram destruídas, enquanto outras nem mesmo conseguem chegar às suas comunidades na fronteira sul, devido à ocupação das forças israelenses. 

As dificuldades econômicas, a perda do emprego, o trauma de ter que fugir repentina e repetidamente, a incerteza quanto ao futuro e a ausência de segurança têm um impacto grave na saúde mental das pessoas. Muitas pessoas continuam sofrendo de estresse, ansiedade, depressão e sintomas de estresse pós-traumático grave.

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