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Kos, Grécia: falta de ação das autoridades gregas torna-se abuso de refugiados

12/08/2015
MSF está oferecendo cuidados médicos a centenas de pessoas abrigadas temporariamente em edifício fora de uso

Foto: MSF

A situação na ilha de Kos nas últimas duas semanas foi submetida a uma reviravolta, na medida em que mais de 7 mil refugiados, requerentes de asilo e imigrantes chegaram ao local durante o mês de julho – o dobro de pessoas em comparação a junho. Na ausência de instalações de recepção adequadas, a maioria das pessoas foi levada a montar tendas em parques e praças públicos na cidade de Kos, ou a dormir ao relento, no entorno do posto policial, sem qualquer acesso a latrinas ou a chuveiros. Alimentos não têm sido fornecidos aos imigrantes e refugiados desde abril, nenhuma instalação foi inaugurada ou organizada para recebê-los, apesar de muitos terrenos terem sido disponibilizados. A única solução sugerida até o momento foi a de realocar essas pessoas de um lugar para o outro.

Nos últimos dois dias, a polícia tem conduzido operações para remover as pessoas dos espaços públicos, orientando-as a ficarem em um estádio de saibro em um dos extremos da cidade, que não tem instalações de higiene, sombra ou abrigo. Essa iniciativa foi conduzida pelas autoridades locais sem qualquer tentativa de estruturar uma instalação de recepção ali. Paralelamente, equipes de MSF testemunharam o assédio de imigrantes e refugiados em espaços públicos, incluindo homens de segurança privada os impedindo de se sentarem nos bancos de um parque no centro da cidade. Nesta manhã, cerca de 2 mil pessoas estavam no estádio, entre elas muitas famílias com bebês pequenos e crianças, em fila debaixo do sol escaldante, à temperatura de 32 graus, esperando uma oportunidade de dar seus nomes à polícia na esperança de serem registrados. Rapidamente, a situação fugiu do controle, com a polícia incapaz de garantir o manejo adequado da multidão e dispersando as pessoas com sprays e mangueiras de incêndio. 

“MSF está muito preocupada com a progressão da situação em Kos”, conta Brice de la Vingne, diretor de operações de MSF. “O que era uma situação de inércia do Estado agora é um abuso, com a polícia fazendo uso de força bruta para lidar com essas pessoas vulneráveis. A grande maioria das pessoas que chegam aqui são refugiados que escaparam da guerra na Síria e no Afeganistão. As autoridades de Kos deixaram bem claro que não têm intenção de melhorar a situação dessas pessoas, na medida em que acreditam que isso consistiria um ‘fator de atração’. Mas a verdade é que as pessoas fugindo da guerra vão continuar chegando, as autoridades tentando ou não impedi-las.”

Atualmente, MSF está oferecendo assistência médica no hotel Capitain Elias, edifício fora de uso, delapidado e sem energia elétrica, onde centenas de refugiados buscam abrigo por um período médio de 10 a 15 dias até que sejam registrados pela polícia grega e tenham autorização para saírem da ilha – a maioria sem ser propriamente informada sobre o processo em si. MSF também tem oferecido consultas médicas por meio de clínicas móveis e distribuído itens não alimentares a refugiados que vivem nos parques e espaços públicos.

“Oito meses após a primeira chamada de MSF às autoridades gregas para que organizassem uma recepção decente e humana nas ilhas do Dodecaneso, especificamente em Kos, estamos chocados ao observarmos que o Estado grego tem falhado em fazê-lo até o momento”, afirma Brice de le Vingne. “Ainda está para surgir um local grande o suficiente para receber a todos e que ofereça tudo nos padrões mínimos. Isso nos faz pensar o que mais as autoridades gregas esperam para agir diante da situação, assumir suas responsabilidades e receber essas pessoas de forma humana e digna.”

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