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Iêmen: médica enfrenta insegurança para salvar vidas

24/02/2017
A médica iemenita Sana abriu mão da vida no campo para trabalhar no hospital de MSF em Taiz, palco de confrontos violentos
Iêmen: médica enfrenta insegurança para salvar vidas

Foto: Malak Shaher/MSF

Quando a guerra se intensificou no Iêmen, Sana havia acabado de se formar em Medicina e estava fora do país. Ao saber das notícias, ela se sentiu obrigada a voltar a Taiz, palco de alguns dos confrontos mais intensos do conflito. Hoje, ela trabalha na ala de tratamento de desnutrição do hospital materno-infantil da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

“Eu havia acabado de me formar em Medicina, no Cairo, quando a guerra se intensificou no Iêmen. Minha família disse que eu deveria ficar no Egito por segurança, mas eu queria ir para casa. Eu voltei no dia 25 de maio de 2015.

No início, fiquei com a minha família – meus pais, meus dois irmãos e minha irmã – em nossa casa no centro de Taiz. Um dia, um tiro atingiu uma armação de metal do lado de fora de nossa janela enquanto eu e minha irmã estávamos em casa falando sobre um livro. Fomos salvas por pura sorte.

Em julho, tivemos de nos mudar. Naquela época, nossa rua estava cheia de soldados e havia confrontos pesados na vizinhança. Havia tanques nas ruas e barulho de artilharia pesada e armas de fogo. Estávamos diante da morte.

Próximo à nossa casa, um grande shopping estava sendo usado por franco-atiradores. Um dia, eu vi um menino sendo atingido. Ele não era um soldado, era apenas um rapaz de 18 anos, desarmado.

Fomos embora no dia seguinte. Não tínhamos tempo para arrumar nossas coisas. Tudo o que levamos foram algumas roupas e nossos documentos mais importantes. Fomos para a casa do meu tio, que mora perto da universidade de Taiz. Mas só ficamos lá por seis semanas, porque a região também logo se tornou instável: havia confrontos próximos e mísseis começaram a atingir o bairro. Decidimos sair da cidade. Nos mudamos para a casa dos meus avós. Eles vivem em um vilarejo muito distante. Ficamos ali pelos nove meses seguintes.

Foi uma época muito frustrante. A mensagem de que eu era médica se espalhou, e as pessoas vinham me pedir ajuda o tempo todo. Mas, infelizmente, eu podia fazer muito pouco por elas. Consegui comprar alguns antibióticos, mas não pude obter suprimentos como insulina ou remédio para asma, por exemplo.

Eu vi diversas pessoas com doenças de pele, porque haviam fugido de suas casas e estavam vivendo em condições muito precárias, em prédios antigos e degradados. Elas não tinham dinheiro para comprar medicamentos. Às vezes, minha família pagava o transporte delas até um hospital em Sana’a, que fica a seis ou sete horas de distância.

Um dia, eu conheci uma mulher com câncer. Ela não pode receber tratamento, e eu também não podia ajudá-la. Eu dei a ela o meu anel de ouro para que ela pudesse pagar a viagem até um hospital em Sana’a.

Era mais seguro viver no campo, mas eu não podia fazer muito de casa. Durante três meses, eu trabalhei em um pequeno consultório, perto de casa, mas não estava confortável com o fato de eles constantemente prescreverem mais medicamentos do que o necessário para ganhar mais dinheiro. Então, pedi demissão.

No verão passado, vi um anúncio de uma vaga para trabalhar no hospital de MSF em Taiz. Eu pensei ‘É isso o que eu tenho que fazer!’. Para chegar à entrevista de trabalho, tive que fazer uma viagem pelas montanhas porque a estrada principal estava bloqueada. A viagem levou quatro horas em vez das uma ou duas horas usuais.

Comecei a trabalhar com MSF em julho, então nos mudamos novamente. Hoje, meus pais e eu vivemos a meia hora do hospital. Teria sido mais seguro ficar no campo, mas eu preciso trabalhar. Eu não me importo se aqui é um pouco mais perigoso. Eu realmente tenho que trabalhar.

Um dia, meu pai estava indo me buscar do trabalho em um miniônibus emprestado, porque seu carro havia sido muito danificado por tiros antes de nos mudarmos da cidade. Naquela tarde, ouvimos uma explosão: uma bomba ou um míssil havia caído não muito longe dali. Eu sabia que meu pai estava chegando, e fiquei muito preocupada com ele. Mas, felizmente, ele apareceu pouco mais tarde do que havíamos combinado. Ele me disse que também havia ficado muito preocupado comigo, mesmo sabendo que eu estava no hospital.

Eu gosto muito de trabalhar aqui, no centro de nutrição terapêutica intensiva de MSF. A maioria dos nossos pacientes são crianças pequenas, porque são as que correm mais riscos de se tornarem gravemente desnutridas. Havia um casal de gêmeos – um menino e uma menina – cuja família havia dito que não tinha nada para comer em casa. Nós recebemos as crianças no hospital e, no início, eles estavam se recuperando bem. Pouco depois, começaram a fazer o tratamento ambulatorial, e iam ao hospital uma vez por semana para serem examinados e receber seu alimento terapêutico. Mas, lamentavelmente, o estado de saúde da menina piorou. Um dia, ela chegou tão fraca que não pôde ser salva. O menino ainda está vivo, felizmente, embora ainda esteja em tratamento.

No futuro, quero ser pediatra. Quero ajudar as pessoas desde o seu nascimento. Eu tinha todos os documentos para voltar ao Cairo para me especializar, mas não aconteceu como o planejado, e agora o Ministério da Saúde não tem verba. Espero poder obter uma bolsa de estudos do Estado e me tornar pediatra no futuro.”

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