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A história de Zoya: “Voltei da beira da morte”

28/09/2018
Zoya, paciente co-infectada com calazar e HIV, compartilha sua história de recuperação após receber tratamento de MSF na Índia
A história de Zoya: “Voltei da beira da morte”

Foto: MSF/Vaishnavi Singh

Além de sofrer com a falta de conscientização e o estigma social, pacientes co-infectados com calazar e o vírus HIV também estão propensos a outras infecções, reincidência da doença e correm maior risco de morte. Zoya, de 39 anos, compartilha sua história de recuperação depois de receber tratamento na ala de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Patna, no estado de Bihar, na Índia.

“Comecei com febre. Fui de hospital a hospital, mas a febre sempre voltava. Me sentia fraca, sem forças para trabalhar e perdi o apetite. Nada era gostoso, nem mesmo arroz ou pão. Até as simples tarefas domésticas, como lavar a louça, eram muito difíceis. Finalmente, um médico do hospital do distrito de Siwan disse que eu estava com calazar.

Eles me encaminharam a um hospital em Goriakothi (distrito no estado de Bihar), onde testei positivo para o HIV. O resultado do teste do meu marido também deu positivo. Quando entendi o que tudo isso significava, já tinha gasto muito dinheiro: cinquenta mil rúpias (cerca de US$690).

Depois de uma década morando com meu marido na cidade de Nasik, voltamos a Bihar porque tínhamos dificuldades financeiras. Meu marido é alfaiate, mas, depois de adoecer de icterícia, ele nunca mais voltou a ser o mesmo. Estávamos desempregados e continuávamos nos esforçando para termos dinheiro, mesmo depois de retornar ao nosso vilarejo em Bihar. Foi nessa época que entendi melhor minha doença.

Um agente de saúde de MSF que conheci no hospital me convenceu a viajar a Patna, onde eu poderia receber tratamento gratuito em uma enfermaria mantida por MSF. Ele me disse para pegar algumas roupas e partir imediatamente. Depois que cheguei ao hospital, eles realizaram novos testes. Desta vez, também testei positivo para a tuberculose. Eu mal tinha forças para ficar de pé, quanto mais entender que eu não tinha uma, mas três doenças potencialmente fatais.

Os médicos de MSF me trataram com carinho. Um dos médicos segurava minha mão e dizia: ‘Zoya, se você não comer bem, não vai melhorar’. Meu apetite retornou lentamente e eu pude me mover e andar sem desmaiar. Recuperei todo o peso que perdi nos meses anteriores.

Antes, quando eu estava indo de hospital em hospital, as pessoas nem falavam comigo direito. Elas gritavam para eu ficar em um canto. Mas na ala de MSF, todos nos trataram bem.

Ali, aprendi como as três doenças se espalham e como cuidar de mim mesma. Recebi medicamentos antirretrovirais para o HIV e tratamento para o calazar e para a tuberculose. Após ter alta, voltei para casa e descobri que todos no meu vilarejo sabiam da minha doença. Um agente de saúde do governo que me acompanhou até Goriakothi disse a todos que eu não sobreviveria porque vivia com Aids. Percebi o porquê de nenhum dos meus parentes ter me visitado enquanto eu estava em Patna. Agora, minha família, meus vizinhos e todos no vilarejo sabiam da minha doença.

Vivemos em uma casa de dois andares com a minha família, que é bastante extensa. Quando cheguei do hospital, meus parentes limpavam e jogavam água nos lugares em que eu estivera. Ninguém usou o banheiro que eu usei. Todos me menosprezavam. No começo, não fui convidada para casamentos no vilarejo.

Fiquei com raiva durante um bom tempo. Era minha culpa? Por que interessava a outras pessoas se eu estava doente ou não? Eu me sentava à noite e me perguntava sobre o futuro dos meus filhos. Quem se casaria com a minha filha? Eu sei que se eu tiver cuidado e continuar tomando minha medicação eu posso viver uma vida normal, mas eu ainda me preocupo. Eu me preocupo com cada tosse, corte e mancha de sangue nas minhas roupas. Eu acordo quando minha filha dorme ao meu lado e me pergunto se de alguma forma minha doença também a afeta. Como mãe, você nunca para de se preocupar.

Meu marido esteve ao meu lado durante tudo isso. Ele e meus filhos são tudo o que tenho.  Voltei da beira da morte e agora tenho coragem de continuar.”

Depois de tratar mais de 12 mil  pacientes com calazar em Bihar, no nordeste da Índia, e defendendo com sucesso a mudança de políticas dos protocolos de tratamento em todo o país, MSF lançou atividades para tratar pessoas co-infectadas com calazar e HIV em 2015 e tratou mais de 700 pacientes até o momento.
 

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