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A história de Anna Pantelia em Moria

14/02/2020
"Eu não consigo mais olhar nos olhos desses pacientes"
A história de Anna Pantelia em Moria

Foto: Anna Pantelia/MSF

Levei menos de quatro anos como profissional humanitária na Europa para entender que o atendimento humanitário é só uma gota no oceano se não houver vontade política de provocar uma mudança. Em 2015, eu era uma estudante de pós-graduação da Grécia e uma aspirante a fotojornalista. Eu estava pronta para usar minhas habilidades para tentar dar voz àquelas cujas vozes haviam sido silenciadas ou ignoradas à força, àqueles que vivenciaram e fugiram da violência, guerra e terrorismo. O que eu não estava preparada era para a extensão da crise humanitária que acabara de chegar à Europa, em meu próprio país.

Presos em Moria, Lesbos

Nos últimos cinco anos, trabalhei em muitos campos de refugiados na Grécia, mas a situação nas ilhas gregas atualmente está fora de controle. Mais de 42 mil pessoas são mantidas em condições indignas por meses, enquanto aguardam o processamento dos seus pedidos de asilo. Agora, essas condições são bem conhecidas, graças aos milhares de relatórios e imagens na mídia, bem como ONGs presentes no campo de Moria. Mas o que não é descrito em palavras ou visível em fotos é o nível de desespero dos que estão presos em Moria – pessoas que vivem só focadas em sobreviver, muitas vezes sem eletricidade e, mais recentemente, sem água potável suficiente para beber.

Acordo Europa-Turquia  

Não demorei muito tempo para entender que o sofrimento inimaginável que milhares de pessoas na Grécia estão vivendo é perpetuado simplesmente por uma escolha política. Essa escolha foi tomada em 2016 pelos 28 Estados-membros da União Europeia quando assinaram o chamado acordo UE-Turquia. Desde então, as ilhas gregas se tornaram prisões ao ar livre para milhares de pessoas que estão sendo punidas pelo "crime" de buscar segurança.

Mães em Moria

Algumas semanas atrás, conversei com mães cujos filhos sofrem de doenças complexas e crônicas, como diabetes, danos cerebrais e doenças cardíacas, e que não têm outra opção a não ser morar no campo de Moria. A primeira mãe com quem falei foi Samseyeh, cuja filha de seis anos, Zahra, tem autismo. Samseyeh tem apenas 27 anos e está claramente desesperada por ajuda. Por causa de sua condição, Zahra não consegue se acalmar: ela está constantemente agitada, gritando e esbarrando nos divisores de metal que cercam os três metros quadrados de espaço disponível para essa família de três pessoas.



Convulsões

"Meus vizinhos estão com raiva de mim porque Zahra faz muito barulho, mas não podemos fazer nada. Ela está assim por causa do seu distúrbio", diz Samseyeh, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Muitas vezes, à noite, ela tem convulsões e não há ninguém para nos ajudar. A única coisa que peço é um lugar onde Zahra tenha espaço suficiente para brincar como outras crianças e um médico especialista que possa atendê-la.”

Nenhum atendimento especializado em Lesbos

A ilha de Lesbos não tem médicos especialistas em autismo; a única maneira de melhorar o estado de saúde de Zahra é encontrar um médico especialista e acomodações apropriadas em um hospital grande no continente. O governo grego não apenas negligenciou Zahra e pelo menos outras 140 crianças em Lesbos com condições médicas crônicas e complexas, como também bloqueou intencionalmente seu acesso a cuidados de saúde básicos, vacinas e medicamentos.



A mãe de Mohammed

Gul* é outra mãe que luta para proteger seu filho, Mohammed, de três anos, que sofre de um distúrbio cerebral. "O médico me disse que eu tenho que mantê-lo com boas condições de higiene o tempo todo, mas vivemos em uma pequena parte de uma barraca e, quando chove, há lama por todo lado", diz Gul. "Não temos eletricidade nem aquecimento, então, eu tomo banho com Mohammed apenas uma vez a cada duas semanas."



"Moria não é bom"

As coisas também não estão melhores para Raido*, que foi transferida para um apartamento próximo a Moria depois de três meses morando no campo com seu filho, Abdul, que está totalmente paralisado, e outros três filhos. A voz de Raido* é clara e forte, mas ela está lutando para conter as lágrimas. "Eu sou uma mãe solteira, com uma criança doente que não consegue ficar em pé, se sentar ou se mexer", diz ela, com a voz embargada. "Eu deixo os meus outros filhos sozinhos porque preciso ficar o tempo todo com Abdul." As únicas partes do corpo que Abdul consegue mexer são os olhos e os músculos faciais; ele também sofre de atraso cognitivo e sua fala é arrastada, mas não há como confundir suas palavras quando ele me diz: "Moria não é bom".

Difícil acreditar

É difícil acreditar que, após cinco anos da chamada crise de refugiados na Europa, o governo grego e a UE não possam sequer fornecer eletricidade, aquecimento e água suficiente para famílias como essas. É difícil dormir à noite quando você sabe que, a alguns quilômetros de distância, crianças como Zahra e Mohammed não conseguem dormir porque estão doentes, com frio e com medo.

Mensagens de WhatsApp

É difícil ouvir falar de pessoas que fogem de guerras, escapam da tortura e cruzam mares e acabam sendo esfaqueadas até a morte em Moria. É difícil ler suas mensagens de WhatsApp e saber que a mulher que lhe recebeu várias vezes em sua tenda em Moria não vai mais lhe enviar mensagens porque se queimou viva enquanto tentava manter a família aquecida.

Valores europeus

É difícil testemunhar esse nível de sofrimento em seu próprio país, logo aqui, na Europa, onde os valores fundamentais devem ser liberdade, democracia, igualdade e respeito pela dignidade e pelos direitos humanos. Infelizmente, hoje esses valores “europeus” são respeitados só seletivamente.

Estou envergonhada

Como cidadã grega e europeia, sinto-me profundamente envergonhada pela dor que meu país e a UE estão causando intencionalmente a Samseyeh, Gul, Raido* e às milhares de outras mães que vieram para cá na esperança de uma vida melhor.

*Anna alterou o nome dessas mães por uma questão de privacidade.

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