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Haiti: consequências dos cortes na área da saúde

09/12/2015
Hospital de MSF tem atendido um número sem precedentes de pacientes após corte de verbas do fundo de saúde nacional

Foto: Olga Victorie

Um número sem precedentes de gestantes está buscando atendimento médico no Centre de Référence en Urgence Obstétricales (Cruo, na sigla em francês), um hospital voltado para complicações obstétricas em Porto Príncipe, capital do Haiti, mantido pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras, após o corte de verbas por parte de doadores internacionais e devido aos gastos limitados do governo haitiano com o sistema de saúde.  

Após esses cortes, a unidade neonatal do Cruo de MSF admitiu 32% mais recém-nascidos em 2014, e a porcentagem de gestantes admitidas após serem encaminhadas de outras instalações aumentou 18%. O número de admissões se manteve o mesmo em 2015.

O governo canadense encerrou seu programa “Manman Ak Timoun an Sante” (Mats, na sigla em creole) em 2013, voltado especificamente para a saúde materno-infantil. Isso é parte de um corte global no financiamento internacional para cuidados de saúde no Haiti, que vinha preenchendo muitas lacunas na oferta de cuidados maternos e outros tipos de assistência.

Enquanto isso, o Haiti planeja gastar apenas 5,4% do seu próprio orçamento com o sistema de saúde em 2015 e 2016. Em contraste, o país vizinho República Dominicana irá dedicar 11,5% de seu orçamento à saúde.

“Os gastos com cuidados de saúde materna mostraram resultados claros no Haiti, e agora vemos que os cortes nesse financiamento estão colocando a vida das mulheres em risco”, disse Paul Brockmann, diretor-geral de MSF no Haiti. “Durante o pico anual de nascimentos no Haiti, que vai de agosto a janeiro de cada ano, as coisas têm sido ainda pior. Esse é um aumento totalmente previsível da procura por cuidados de saúde materna, e, devido a esses cortes, o sistema estava totalmente despreparado. Esses cortes têm de ser revertidos.”

Esse aumento da demanda forçou o hospital Cruo de MSF, mantido de forma independente de qualquer financiamento governamental internacional e, portanto, não afetado pela redução da verba, a priorizar apenas as gestantes com maior risco de complicações no parto. Mas as mulheres que não atendem a esses critérios de admissão agora têm poucas opções até que sua situação se deteriore o suficiente para serem elegíveis ao atendimento.

Serene Princeton, uma mãe muito jovem, não atendeu inicialmente aos rígidos critérios de admissão de MSF e teve sua internação negada. Ela foi ao hospital geral, mas a instalação estava em greve, e outros hospitais só estavam aceitando mulheres em estágio avançado de gravidez, que não era seu caso. Após começar a ter sangramentos e a temer a morte de seu bebê e a sua própria, Serene voltou ao Cruo pela segunda vez. Naquele momento, sua situação cumpria os critérios estabelecidos por MSF, e ela foi admitida.

MSF inaugurou seu hospital Cruo em março de 2011. Mais de 27 mil bebês nasceram ali, e quase 9 mil bebês foram admitidos no departamento de neonatalogia. MSF atua no Haiti desde 1991, e, atualmente, também administra uma unidade especializada em queimaduras no hospital Drouillard, um hospital em Martissant e mantém uma equipe de resposta de emergência à cólera.