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Grécia: enfrentando o caos em Idomeni

03/03/2016
Mais de 11 mil pessoas estão abrigadas em um acampamento superlotado e muitas, incluindo bebês e idosos, dormem ao relento

Foto: Alex Yallop/MSF

A estrada sinuosa entre os campos de trigo próximo ao vilarejo grego de Idomeni está cheia de pessoas carregando grandes malas em seus ombros, bebês em seus braços e dando um passo de cada vez. O fluxo humano continua dia e noite, mas não chega a uma média de 150 pessoas por dia, e somente sírios e iraquianos com a sorte de ter um passaporte ou identidade de seu país de origem podem continuar a jornada para longe desse lugar e cruzar a fronteira para a Antiga República Iugoslava da Macedônia (FYROM, na sigla em inglês) e em direção ao oeste e ao norte da Europa. Poucos estão indo embora, mas muitos, muitos mais continuam chegando, apenas para acabarem encurralados no que está se tornando uma situação humanitária insustentável. Hoje, em um acampamento de trânsito que tem capacidade para abrigar 1.500 pessoas, há mais de 11 mil amontoadas e retidas sem informações, em uma mistura de ansiedade e desilusão.

Refugiados sírios são impedidos de seguir caminho pela fronteira da Grécia com a FYROM (Foto: Alex Yallop/MSF)Entre aqueles que estão presos no campo congelante de Idomeni, há muitas famílias. Piman, que trabalhou como professor de inglês antes de sair da Síria, está na estrada há dois meses. “Estou aqui com a minha família, dormindo nessa pequena tenda. Nós nunca havíamos imaginado estar nessa situação. Quando deixamos nossa cidade, meus filhos queriam trazer seus brinquedos e seus livros conosco, e eu dizia para eles: ‘não se preocupem’. Nós vamos comprar brinquedos novos na nossa casa nova. Eles ficam perguntando: ‘onde está a nossa casa nova?’”

Situação extremamente caótica no acampamento de Idomeni

Daniela, uma enfermeira da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Idomeni, resume: “Há confusão, estresse, falta de informações confiáveis. Há um sentimento crescente de revolta. Muitos refugiados esperam aqui há mais de 10 dias. As pessoas estão extremamente exaustas.”

Na clínica que MSF opera em Idomeni, famílias inteiras, gestantes e crianças chegam em um fluxo constante, assim como muitas pessoas com deficiência e idosos sofrendo de doenças crônicas. As pessoas, incluindo bebês e idosos, são forçadas a dormir ao relento, no frio, com apenas um saco de dormir para mantê-las aquecidas. As grandes tendas estruturadas por MSF estão lotadas há dias, e centenas de tendas pequenas estão espalhadas por todo o lugar, mesmo próximo à estação de trem. Omar, de 24 anos, um refugiado palestino do campo de Homs, na Síria, diz que está exausto. “Isso está me deixando nervoso, eu não sei o que acontecerá a seguir. Essa espera está me matando. Nos sentimos ignorados aqui.”

Barracas fornecidas por MSF estão distribuídas pelo acampamento de Idomeni (Foto: Alex Yallop/MSF)“Eu estou aqui há uma semana e não faço ideia de quanto tempo mais terei de ficar. A fronteira está fechada e eles não nos permitem atravessá-la. Não há condições de se viver no acampamento. É horrível. Eu quero achar uma maneira segura para continuar, quero encontrar um lugar onde eu possa criar meu filho. Ajude-nos a encontrar um caminho seguro”, repete Mustafa, um refugiado do norte da Síria que chegou a Idomeni com sua esposa Zuzan e dois primos mais novos. Ele é uma das centenas de pessoas que estão dormindo em uma cama. Não diremos que eles são os sortudos, mas, para outras famílias, a noite é fria demais lá fora, no chão de um acampamento lamacento.

Famílias inteiras se reúnem em volta de uma fogueira improvisada para se manter aquecidas enquanto esperam pelo fim de mais uma noite. Ao mesmo tempo, no hospital local de Polykasto, Rula, uma mulher de 30 anos de Aleppo, na Síria, dá à luz seu segundo filho, que chamou de Abdulrahmane. Ela chegou a Idomeni em um estágio avançado de gravidez, com seu marido Fahad e seu filho de um ano, Oman, mas sua bolsa estourou na clínica de MSF e a equipe a transferiu para o hospital.

De 27 de fevereiro a 1 de março, equipes médicas de MSF realizaram 756 consultas médicas. As principais morbidades são infecções gastrointestinais e do trato respiratório (associadas ao acesso inadequado a instalações de higiene). A maioria dos pacientes são mulheres e crianças com menos de cinco anos. MSF está provendo abrigo para mais de 4 mil pessoas e 34 mil refeições por dia.

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