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Grécia: “Como médica, eu me senti ultrajada”

20/04/2016
Por Federica Zamatto, coordenadora médica dos programas de migração de MSF

Foto: Konstantinos Tsakalidis

Agora, tudo está mudado na ilha grega de Lesbos, que no ano passado viu mais de meio milhão de refugiados e migrantes darem seus primeiros passos em solo europeu. Durante o caos do verão passado, 15 mil pessoas ficaram retidas na ilha após autoridades suspenderem as balsas para a ilha principal. Agora, tudo está limpo e arrumado, pronto para a época turística que está por vir. Os acampamentos estruturados por voluntários e ONGs para oferecer abrigo temporário às famílias que chegavam à ilha estão completamente vazios. Os milhares de coletes laranjas que uma vez haviam tomado a costa foram tirados dali. As praias estão de volta ao normal. Mas, não se engane: Lesbos não está silenciosa e arrumada porque as pessoas pararam de fugir da guerra. Em vez disso, os homens, as mulheres e as crianças que arriscaram tudo em botes de borracha agora estão detidos atrás de grades, longe dos olhos europeus ou do outro lado da costa, em um buraco negro.

Federica Zamatto, coordenadora médica dos programas de migração de MSF (Foto: Arquivo Pessoal)A Europa decidiu varrer migrantes e solicitantes de asilo para debaixo do tapete, como se fossem sujeira. A União Europeia (UE) está tentando esconder o problema e tirá-lo de das vistas. Mas são pessoas, e não sujeira. Esses são homens de todas as idades, assim como mulheres e crianças, que apostaram em uma rota incerta para deixar para trás conflitos, instabilidade e pobreza, na medida em que os riscos da jornada compensam, se comparados à ameaça constante sob a qual vivem em seus países de origem.

A tinta do acordo vergonhoso entre UE e Turquia mal havia secado quando o acampamento improvisado de Moria foi transformado em um centro de detenção. A organização para a qual eu trabalho, Médicos Sem Fronteiras (MSF), suspendeu todas as suas atividades dentro do centro depois que já não existiam mais condições para oferecer ajuda humanitária imparcial e independente ali. Foi uma escolha difícil e controversa.

Alguns dias atrás, eu visitei o centro e o que vi foi chocante: crianças mantidas em detenção, privadas de sua infância. Hoje, Moria está perigosamente superlotado e muitas pessoas estão dormindo ao relento, com nada mais do que lonas plásticas ou papelões para se protegerem da intempérie. Conheci um homem que perguntava desesperadamente onde ele poderia encontrar um lugar coberto para sua família dormir. Eles haviam chegado um dia antes e passaram a noite deitados no asfalto. Conheci várias pessoas que disseram que não haviam recebido qualquer alimento. Conheci uma mãe que estava em busca de fraldas para o seu filho e teve seus pedidos negados repetidas vezes. Conheci um pai com um problema no coração e diabetes, que me mostrou a cicatriz de uma intervenção cirúrgica em seu tórax e as úlceras em sua perna. Um de seus filhos, de cerca de dois anos, foi afetado por uma paralisia. A família inteira havia passado a noite ao relento. Não havia ninguém por perto para cuidar deles, ninguém estava tentando explicar seus direitos ou achar uma acomodação mais decente para eles. Havia duas pessoas em cadeiras de rodas, e uma idosa subindo lentamente um caminho íngreme dentro do complexo. Havia meninas jovens e homens de idade avançada.

A coisa mais ultrajante que vi, no entanto, foram muitas, muitas crianças mantidas em detenção, deixadas em condições miseráveis e indecentes, sem alimentação e educação adequadas, ou até mesmo uma chance de brincar, como as crianças normalmente fazem. Elas estavam por toda a parte, correndo, dormindo, sendo empurradas em seus carrinhos. Eu jamais poderia imaginar que crianças, mulheres grávidas, idosos, a maioria fugindo da guerra, seriam cercados por arames farpados, com os portões fechados, em solo europeu. E eu não consigo encontrar uma explicação aceitável para o porquê de a Europa estar permitindo que isso aconteça.

A Europa, que falhou em implementar o esquema de relocação a partir de acampamentos improvisados para países europeus – mostrando que não havia verdadeiro consenso sobre as estratégias de Estados-membros da UE – agora está tentando esconder o problema, afastando os refugiados e repassando suas responsabilidades para a Turquia. Tenho receio de os cidadãos europeus não saberem o tipo de acordo ultrajante que seus Estados assinaram em seu nome. Se soubessem, sentiriam vergonha, nojo, ficariam furiosos e se sentiriam traídos, assim como eu.

 

Desde julho de 2015, MSF ofereceu consultas médicas, apoio de saúde mental, distribuiu itens de primeira necessidade e conduziu atividades de água e saneamento no acampamento de Moria, em Lesbos. MSF realizou 24.314 consultas na ilha de Lesbos, das quais 12.526 foram em Moria. As equipes também ofereceram transporte entre o norte e os centros de registro em Moria. Até o dia 13 de março, MSF havia transportado 12.952 recém-chegados. Após a implementação do acordo entre a UE e a Turquia, que converteu o acampamento improvisado de Moria em um centro de detenção, MSF decidiu suspender todas as suas atividades por se recusar a participar de um sistema que tem como objetivo primário conter o fluxo de migrantes e refugiados sem consideração adequada com suas necessidades humanitárias e de proteção. Atualmente, os mínimos padrões humanitários não estão sendo adotados e a segurança é uma preocupação em Moria. Além disso, a falta de informação e clareza sobre o status e os procedimentos da situação de refugiados/migrantes está adicionando ainda mais frustração e não está oferecendo garantias suficientes.

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