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Grécia: aumentam as tentativas de suicídio e autoagressão entre crianças refugiadas no campo de Moria

17/09/2018
MSF pede que todas as pessoas em situação de vulnerabilidade sejam transferidas urgentemente para um abrigo seguro no território grego ou em outros países da UE
Grécia: aumentam as tentativas de suicídio e autoagressão entre crianças refugiadas no campo de Moria

Foto: Robin Hammond/Witness Change

A organização médico-humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem observado uma emergência de saúde e saúde mental sem precedentes entre homens, mulheres e, sobretudo, crianças retidas no campo de Moria, em Lesbos, na Grécia. MSF pede que todas as pessoas em situação de vulnerabilidade, principalmente as crianças, sejam transferidas urgentemente para um abrigo seguro no território grego ou em outros países da União Europeia (UE).

A política de contenção dos solicitantes de asilo nas ilhas gregas fez com que mais de 9 mil pessoas, 33% delas crianças, fossem retidas por tempo indeterminado no campo de Moria, cuja capacidade máxima é de 3.100 pessoas.

Equipes de MSF veem semanalmente vários casos de adolescentes que tentaram cometer suicídio ou se autoflagelaram, e respondem a vários incidentes críticos como resultado de violência, autoagressão infantil e falta de acesso a cuidados médicos emergenciais, o que demonstra falhas significativas em medidas de proteção a crianças e outras pessoas vulneráveis.

Entre fevereiro e junho deste ano, em uma atividade de saúde mental em grupo para crianças entre 6 e 18 anos, equipes de MSF observaram que quase 25% das crianças (18 de 74) haviam se autoflagelado, tentado suicídio ou pensado em cometê-lo. Outros pacientes também sofrem de mutismo eletivo, ataques de pânico, ansiedade, comportamentos agressivos e pesadelos constantes.

“Essas crianças vêm de países em guerra, onde sofreram com a violência e vivenciaram traumas muito extremos. Em vez de receberem cuidados e proteção na Europa, elas estão sujeitas a medo, estresse e episódios contínuos de violência, incluindo violência sexual”, diz o dr. Declan Barry, coordenador de saúde de MSF na Grécia. “Além disso, o ambiente é inseguro e insalubre e, como resultado, vemos muitos casos de diarreia recorrente e infecções de pele em crianças de todas as idades. Nesse nível de superlotação e condições insalubres, o risco de surto é muito alto.”

Apenas nas duas primeiras semanas de setembro, mais de 1.500 pessoas chegaram a Lesbos e, sem espaço suficiente, dormem sem nenhuma proteção e comida suficiente e com acesso extremamente limitado a assistência médica. MSF tratou muitas crianças que foram identificadas pelo hospital em Atenas como necessitadas de cuidados. No entanto, devido à falta de acomodação no território continental, essas crianças não podem ter acesso a esses cuidados e são forçadas a viver em um ambiente que deteriora sua condição médica e de saúde mental.

“Este é o terceiro ano em que MSF pede às autoridades gregas e à UE que assumam a responsabilidade por seus fracassos coletivos e criem soluções sustentáveis para evitar essa situação catastrófica”, diz Louise Roland-Gosselin, coordenadora-geral de MSF na Grécia. “É hora de levar imediatamente os mais vulneráveis para acomodações seguras em outros países europeus e de parar o ciclo interminável de descongestionamentos de emergência e as condições horríveis que continuamos a testemunhar em Moria. É hora de acabar com o acordo entre a UE e a Turquia.”
 
MSF tem trabalhado fora do campo de Moria, com foco em saúde mental, cuidados pediátricos e de saúde sexual e reprodutiva desde o fim de 2017. MSF também mantém uma clínica de saúde mental em Mytilene desde outubro de 2016.
 

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