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Fronteira etíope-queniana: “foi impressionante; ninguém esperava ferimentos nesta escala”

20/02/2019
Abubakar, coordenador de emergência em Takaba, conta sobre o impacto médico da violência
Fronteira etíope-queniana: “foi impressionante; ninguém esperava ferimentos nesta escala”

Foto: Brendan Bannon

MSF enviou uma equipe de emergência para o lado queniano da fronteira para ajudar os feridos que chegavam da cidade etíope de Moyale, onde a violência começou em 14 de dezembro. A equipe está dando apoio ao hospital distrital de Takaba, no distrito de Mandera, que recebeu mais de 100 feridos entre 14 e 16 de dezembro. O coordenador de emergência Abubakar Mohamed, que trabalha para MSF em emergências há mais de 20 anos, descreve a situação que encontrou naquele período.

 

“Cheguei em Takaba no sábado 15 de dezembro. Foi impressionante. Imagine um hospital com 30 leitos recebendo mais de 100 pacientes em menos de três dias. Ninguém esperava ferimentos nessa escala. As pessoas da comunidade estavam trazendo os pacientes da fronteira em caminhões, primeiro para um pequeno vilarejo chamado Erestino, onde eles tentaram estabilizá-los, e depois para Takaba.

Com a maioria dos pacientes chegando gravemente feridos e em estado crítico, o hospital distrital de Takaba ficou rapidamente sobrecarregado. No dia seguinte ao início da violência, nossa equipe chegou a Takaba com suprimentos médicos urgentemente necessários, incluindo medicamentos e equipamentos cirúrgicos para o hospital. Nossa prioridade era implantar um sistema de triagem para garantir que os pacientes mais urgentes fossem atendidos rapidamente.

Vimos pacientes com graves lesões abdominais e torácicas e com fraturas nos membros superiores e inferiores. Todas essas lesões eram de tiros.

O que estamos vendo aqui em Takaba é o grave impacto médico da violência. Os pacientes nos dizem que houve confrontos graves na cidade etíope de Moyale. Os confrontos começaram há muitos meses em julho, depois cessaram por alguns meses, antes de explodirem novamente, primeiro em outubro e depois em dezembro. Esta é a terceira onda da violência, e parece ser pior que as anteriores.

Os pacientes precisam percorrer um longo caminho para chegar ao hospital aqui em Takaba. É muito longe para pessoas com ferimentos graves: são 80 km, em um caminhão, em temperaturas de quase 40 graus, apenas para chegar a um lugar onde possam receber assistência médica.

Na terça-feira, recebemos um paciente que foi ferido em Moyale às nove da manhã. Quando chegou ao hospital de Takaba, eram quase oito e meia da noite. Isso é muito tempo. Nos disseram que vários pacientes gravemente feridos morreram no caminho.

Muitos dos pacientes que chegaram ao hospital estão em estado crítico. A mão de um paciente estava completamente quebrada, os ossos expostos e esmagados. Outro paciente foi trazido com a bochecha dilacerada e levado diretamente para o centro cirúrgico. Quando o vi depois da cirurgia, não pude acreditar que era o mesmo homem. O cuidado que os pacientes recebem aqui é surpreendentemente bom, dadas as circunstâncias difíceis.

Desde o momento em que os primeiros feridos chegaram, todas as atividades no hospital foram focadas na resposta de emergência. Os dois enfermeiros de MSF que ajudam nas cirurgias estão trabalhando incansavelmente desde que chegaram. Vários profissionais médicos das unidades de saúde das redondezas viajaram até Takaba para ajudar. As autoridades mobilizaram muitos recursos. Elas trouxeram leitos sobressalentes para o hospital e a comunidade deu colchões e forneceu alimentos para os feridos, bem como água, sabonetes e mosquiteiros. As pessoas doaram muito sangue, o que ajudou a salvar a vida de muitos pacientes.

No hospital, temos atualmente 65 feridos. A maioria são pacientes pós-operatórios, que exigem muito cuidado. Um adicional de 50 pacientes estão na "aldeia médica" da cidade, que montamos para pacientes ambulatoriais, para dar o espaço necessário no hospital aos pacientes críticos.

Se a violência parar, podemos administrar a situação. Mas se continuar, será difícil. Com mais feridos chegando, o hospital ficará congestionado. Não há mais espaço para acomodar novos pacientes. Esta é a nossa maior preocupação no momento.

Enquanto isso, mais cinco profissionais de MSF chegaram e recebemos um caminhão carregado com suprimentos médicos, principalmente itens cirúrgicos, antibióticos e analgésicos. Usaremos a maior parte para montar um posto médico em Dandu, uma cidade a meio caminho entre Takaba e a fronteira, onde planejamos estabilizar qualquer ferido que chegar de Moyale. Queremos chegar o mais perto possível da fronteira para reduzir a distância que os pacientes têm que percorrer para ter acesso a cuidados médicos. Mas espero que isso não seja necessário. Só espero que a situação se tranquilize.

 

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