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Família refugiada na Europa: “Fomos tratados como cachorros”

02/08/2016
Em depoimento a equipes de MSF, Nayef Khudur, do Curdistão iraquiano, descreve situações difíceis e as humilhações enfrentadas por ele e sua família na tentativa de chegar à Europa
Família refugiada na Europa: “Fomos tratados como cachorros”

Foto: MSF

Nayef Khudur é um yazidi de 28 anos, do monte Sinjar, no Curdistão iraquiano. Ele está preso com sua família no campo de Katsikas, na Grécia, próximo ao limite com a Albânia, após o fechamento das fronteiras entre a Grécia e a Macedônia.

Khudur, sua esposa Zeina e seus três filhos estão vivendo no campo desde o dia 18 de março. Há alguns meses, Karam, seu filho de 5 anos de idade, foi levado pela avó para a Alemanha.  

Eles pensavam que conseguiriam se juntar ao dois se viajassem pela rota dos Balcãs, saindo da Turquia e passando pela Grécia até chegar à Europa Ocidental. Porém, desde que o acordo de migração entre a União Europeia e a Turquia entrou em vigor, a família está retida.

Khudur, que encontrou uma equipe da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no campo de Katsikas, descreveu como militantes do Estado Islâmico atacaram Sinjar em agosto de 2014. Os jihadistas mataram centenas de homens e sequestraram muitas mulheres e crianças pequenas.

Ele, Zeina e seus filhos fugiram do vilarejo em que viviam e se abrigaram com parentes em uma cidade próxima. Mas essa cidade também foi atacada e, depois que um bombardeio atingiu uma casa próxima, a família teve de fugir novamente. 

Então eles andaram e pediram carona até chegarem a Sulaymaniya, uma das principais cidades curdas, a cerca de 400 quilômetros de distância de onde estavam. Eles precisavam desesperadamente de dinheiro, e Khudur tinha amigos em Sulaymaniya que encontraram um trabalho para ele. Ao chegar na cidade, a família tinha apenas 10 mil dinars (20 euros).

Khudur começou a trabalhar em uma fazenda de galinhas. O salário era bom e ele conseguiu juntar o dinheiro necessário para que a família fosse para a Turquia.

Eles tomaram um voo para Istambul, e então viajaram para Izmir, na costa, onde toda a família foi detida e jogada em uma cela. “Fomos tratados como cachorros”, diz Khudur.

A experiência na prisão só fez com que eles ficassem mais determinados a fugir, e no dia 28 de fevereiro, dias depois de serem soltos, pegaram um barco de Bodrum para a Grécia.

A família conseguiu chegar a Atenas antes de o acordo entre União Europeia e Turquia entrar em vigor, mas acabou no campo de Katsikas, impossibilitada de ultrapassar as fronteiras gregas.

“Estamos aqui, e graças a Deus a situação é melhor do que em outras partes da Grécia, como os acampamentos de triagem ou o porto [de Piraeus, perto de Atenas]. Graças a Deus a nossa situação também é melhor aqui do que na prisão da Turquia ou no Iraque”, disse Khudur.

“O sol vai voltar a brilhar e nós vamos conseguir encontrar o nosso filho na Alemanha”, ele acrescentou.

Mas a jornada já cobrou um preço muito alto. Khudur pesava 75 quilos, e agora pesa apenas 55.

“Como yazidis, nós estamos acostumados com as crises, mas dessa vez foi demais. É muita coisa para aguentar: o que aconteceu conosco nas mãos do Daesh [Estado Islâmico], e agora, como refugiados... Eu espero que esse pesadelo acabe.”

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