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“Eu podia ver a alegria em seus rostos”: cuidados que salvam vidas no Norte da Nigéria

27/08/2021
Mohammed Dikko Abdullahi, profissional de MSF, conta como o trabalho em Maiduguri ajuda a população e o inspira a atuar com a assistência humanitária no país
“Eu podia ver a alegria em seus rostos”: cuidados que salvam vidas no Norte da Nigéria

Foto: Sylvain Cherkaoui/Cosmos

Mohammed Dikko Abdullahi trabalha para MSF em sua cidade natal, Maiduguri, um local de relativa segurança em uma região que enfrenta mais de uma década de violência. Ele conta a história de uma jovem família e os cuidados médicos que salvam vidas na cidade.

Na primeira semana de agosto, tive que viajar de volta para a aldeia do meu avô para ver minha família. No domingo, ao voltar para casa, me deparei com um homem perto da minha residência aqui na cidade. Ele perguntou meu nome e disse que estava procurando por mim. Falou que seu filho estava doente há cerca de três semanas, mas não conseguia ajuda. Disseram a ele que deveria procurar por mim, que eu saberia o que fazer.

Conhecimento local

Sou o coordenador-assistente de projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Maiduguri, capital do estado de Borno, no Norte da Nigéria. Eu nasci aqui e ajudo a coordenar o trabalho de MSF na área. Contamos com uma equipe de 233 profissionais, a maioria contratada localmente. Conhecemos as comunidades locais, a língua que falam e a sua cultura.

Depois de descobrir onde ele estava hospedado, disse ao homem como ele poderia chegar ao hospital de MSF. Ele explicou que não tinha dinheiro para pagar o tratamento, mas assegurei-lhe que seria de graça.

Primeiro da fila

Quando cheguei ao escritório na segunda-feira de manhã, o homem, sua esposa e o filho foram as primeiras pessoas que encontrei em pé no portão. Eu os conduzi para dentro. Após uma avaliação, a criança, que estava gravemente desnutrida, foi internada.

O pai explicou que eles precisaram deixar sua casa por causa do conflito. A família tinha acabado de vir para Maiduguri. Ele não tem emprego, ninguém os sustenta, e isso significava que era difícil conseguir comida suficiente. Essa é uma história comum.

Cuidados para pessoas necessitadas

Desde o início do conflito, em 2009, milhares de pessoas tiveram que fugir da violência e muitas vêm para Maiduguri, porque a situação de segurança aqui é mais tranquila. Mas deixar para trás suas casas e meios de subsistência significa que muitos deslocados vivem em condições realmente difíceis. Alguns estão sem comida, abrigo ou água potável.



Foto: Yuna Cho/MSF
 
Há agora vários campos de deslocados pela cidade. Administramos uma clínica móvel que visita cinco acampamentos, oferecendo atendimento de saúde primária, atendimento de saúde sexual e reprodutiva, serviços de saúde mental e promoção de saúde. Também temos um projeto contra a desnutrição, para o qual recomendei que o homem trouxesse seu filho. O projeto de desnutrição oferece tratamento hospitalar e ambulatorial para crianças. Temos cerca de 70 leitos para os casos mais graves, todos ocupados agora.

O impacto invisível do conflito

Muitas pessoas nessa área são agricultoras de subsistência: elas cultivam, vendem parte das safras que produzem e mantêm uma fração para alimentar suas famílias. Esta época do ano é conhecida como "lacuna da fome", porque é o período em que as reservas que as pessoas economizaram da colheita do ano passado começam a se esgotar, mas a nova colheita ainda não está pronta. O conflito torna as coisas ainda piores.

A violência fez com que muitas pessoas tivessem que fugir, deixando suas fazendas para encontrar segurança. Várias famílias perderam seu ganha-pão. Mesmo para as pessoas que têm terras agrícolas perto de Maiduguri, a situação de segurança agora não permite que elas cultivem, pois não é seguro viajar para fora da cidade. Dessa forma, a população está usando apenas pequenas porções de terra ao redor da cidade para o cultivo, o que não é suficiente para alimentar todo o estado.

Tratamento da desnutrição

No centro de alimentação terapêutica para pacientes internados, as crianças ficam com um cuidador (geralmente a mãe), que também recebe alimentos. A desnutrição torna as crianças mais vulneráveis a infecções e doenças. Por isso, elas recebem todos os cuidados médicos que precisam, além de alimentos terapêuticos especiais para ajudá-las a ganhar peso.

Quando elas estão bem o suficiente para sair, normalmente as registramos no programa ambulatorial para que possam continuar a receber alimentos terapêuticos. Enquanto outras organizações fazem distribuição de comida, o programa se concentra apenas em crianças com dois anos ou menos. No entanto, alguns de nossos pacientes recebem alta totalmente curados.

"Como você está se sentindo?"

Minha função não é médica, faço parte da equipe de coordenação, com uma responsabilidade particular pelo monitoramento de segurança. No entanto, vou para as enfermarias todos os dias que estou trabalhando no hospital. Sempre ando em volta das camas para dizer "bom dia", "como vai?", "como está?".

Ainda nesta manhã, fui visitar as crianças da ala de desnutrição e vi o homem do domingo passado com sua família. A criança está com cerca de nove meses e, depois de dois ou três dias no centro de alimentação, já está melhorando. Eu podia ver a alegria no rosto dos pais.

“Não é o dinheiro que importa”

Esta é a parte mais gratificante do meu trabalho: os sorrisos que vejo no rosto de nossos pacientes. Tenho muito prazer e satisfação em saber que estamos causando impacto.

A história desse homem e sua família é a mais recente, mas existem tantas outras. Quando estou viajando pela cidade, as pessoas vêm me cumprimentar, expressando esse amor. Às vezes, eu nem as reconheço. Elas me dizem: “Nós viemos para a sua clínica, para a instalação de MSF. Meu filho foi tratado lá, ele está bem agora”.

Fui produtor de rádio aqui, um trabalho que me pagava melhor, mas tenho paixão pelo que estou fazendo agora. Não é o dinheiro que importa, mas o que se passa em minha alma. Quando vejo pessoas que estavam passando por uma angústia recebendo ajuda médica, e essa assistência as faz sorrir, honestamente, sinto como se tivesse ganhado o mundo inteiro.



 

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