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"Esta é ainda uma população marginalizada"

21/12/2017
Coordenadora médica de emergência de Médicos Sem Fronteiras (MSF), Kate White, conta o que mudou na crise dos Rohingya em Bangladesh
"Esta é ainda uma população marginalizada"

Foto: Mohammad Ghannam

Em um tempo relativamente curto, MSF passou de ter uma instalação hospitalar em Kutupalong e um posto de saúde no acampamento improvisado a ter duas instalações com internação e 15 postos de saúde para atender os mais de 600 mil refugiados Rohingya que se estabeleceram em Bangladesh.

Agora, temos uma equipe dedicada ao monitoramento e à resposta a novos influxos que chegam pela fronteira. Novos recém-chegados estão sentados no que parece um arrozal tradicional. Eles estão esperando ao longo das margens, cercados por água. A todo momento, há de centenas a milhares de pessoas que não conseguem mais avançar.

Quando finalmente cruzaram a fronteira, nossas equipes começaram a avaliação médica inicial. A maior parte das questões médicas que vemos são relacionados ao fato de que as pessoas que estão aqui andaram por mais de dez dias antes de chegar. Vemos casos de desidratação grave, ferimentos causados durante a travessia das fronteiras, crianças vulneráveis e mulheres grávidas. Nossa equipe está oferecendo verdadeiro apoio humano, assegurando aos recém-chegados que entendemos sua situação, tentando saber pelo que eles passaram até chegarem aqui e deixando claro que estamos preparados para ouvi-los. Esse contato, por si só, faz uma grande diferença.

"A possibilidade de uma emergência de saúde pública ainda é muito real"

A situação ainda é precária e a possibilidade de uma emergência de saúde pública ainda é muito real. Mas MSF está tomando medidas proativas para melhorar as condições. Nossas equipes de água e saneamento estão aumentando significativamente o número de latrinas, poços e bombas manuais. Nossos poços são de pelo menos 100 metros de profundidade para evitar contaminação na água potável. Além disso, nossas equipes de sensibilização da comunidade estão mapeando de onde os pacientes estão vindo para que possamos checar e melhorar as condições de água, saneamento e higiene especificamente nessas áreas.

Infelizmente, já vimos um número significativo de crianças com casos complicados de sarampo. Normalmente, você não isolaria uma criança que não teve complicações graves, mas tivemos que fazê-lo neste caso. A baixa cobertura de vacinação em Mianmar fez com que precisemos fazer todo o possível para proteger a população da disseminação rápida da doença. Agora estamos apoiando o governo de Bangladesh com uma campanha de vacinação em massa em todos os assentamentos para crianças de seis meses a 15 anos. Isso significa que podemos reduzir a probabilidade de um surto e aliviar o peso dos efeitos colaterais. Espero ver menos mortalidades associadas a doenças evitáveis.

Estamos vendo mais e mais casos de desnutrição aguda grave com o passar do tempo. Examinamos  diariamente crianças menores de 5 anos de idade e mulheres grávidas. Oferecemos programas de nutrição suplementar para garantir que as mulheres tenham os nutrientes extras para apoiá-las durante a gravidez e potencialmente prevenir o risco de complicações pré-nascimento e bebês com baixo peso ao nascer. Também oferecemos um programa de nutrição terapêutica para pacientes internados, para ajudar as crianças desnutridas na clínica. O primeiro passo é estabilizar a criança, resolver as complicações e ajudá-la a aumentar gradualmente a massa corporal. Uma vez que estão mais aptas e saudáveis, elas podem continuar seu programa como pacientes ambulatoriais, em uma instalação de MSF mais perto de onde vivem para que o acesso não seja um problema.

Quando começamos, estávamos tratando ferimentos causados por explosão e ferimentos de bala, mas agora são casos de acidentes devido a condições de vida. O fato de que as pessoas têm que construir abrigos de bambu é um risco. Acho que vemos uma lesão de bambu pelo menos cinco vezes por dia - quem sabia que o bambu poderia resultar em tantas feridas?

Curiosamente, esta é a primeira vez que conseguimos ampliar nossos serviços de saúde mental na fase aguda. Pudemos fazer isso porque nosso programa de saúde mental já está bem estabelecido com uma base forte e robusta. Isso significa que conseguimos integrar a saúde mental em aspectos além do suporte psicossocial padrão, o que ajudou significativamente nossos serviços médicos gerais. No início da crise, tínhamos um enorme problema na dispensa de pacientes. Havia um medo real de sair rumo a esse acampamento desconhecido para começar uma nova vida a partir do zero. Fomos capazes de oferecer aconselhamento de alta, algo que nunca conseguimos fazer em uma configuração de resposta de crise. Colocamos pacientes em contato com conselheiros de saúde mental 24 horas antes de receberem alta, para garantir que eles estavam mentalmente preparados para ir. Nós também fornecemos apoio de saúde mental em pontos de entrada, em trânsito e em quase todos os aspectos da nossa programação.

"São dois passos para a frente e um passo para trás"

Essa ainda é uma população marginalizada, não porque nossos serviços sejam poucos, mas porque a infraestrutura existente está dificultando o acesso. O terreno é difícil, barulhento, extremamente montanhoso e você está sempre perdido - é quase impossível se lembrar de onde alguém veio.

Nossas equipes estão deslocando tudo para os campos a pé, incluindo equipamentos técnicos, trazidos para construir latrinas e instalar sistemas de abastecimento de água potável. Tijolos, sacos de areia e cimento e todos os materiais de construção típicos são transportados para os campos. Os suprimentos que chegam nos postos de saúde levam até uma hora desde a estrada principal. É difícil convencer os pacientes a saírem quando há uma emergência e estão doentes - alguns estão sendo levados de maca por nossos profissionais de sensibilização da comunidade, que atravessam terrenos difíceis por horas para chegar ao hospital mais próximo.

Os serviços nunca estão exatamente onde devem estar para essa população e continuarão a ser extremamente precários. "São dois passos para a frente e um passo para trás". Estamos chegando lá, estamos fazendo progressos, mas toda vez que avançamos, há um passo inevitável para trás. Mas, ao dizer isso, permaneço otimista. Essa é uma população resiliente. Os serviços estão disponíveis e as pessoas estão desafiando as probabilidades e encontrando maneiras de colocar as coisas em funcionamento.
 

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