Equipe internacional de MSF é forçada a sair de Gaza, em meio a catástrofe humanitária: “Situação é desumana”

Rocío Simón Martínez, uma das profissionais que precisaram deixar o território após decisão das autoridades israelenses, relata as enormes necessidades de ajuda

Maram, paciente que precisa ser evacuada de Gaza urgentemente por motivos médicos, no Hospital Nasser. Gaza, Palestina, novembro de 2025. ©Nour Alsaqqa/MSF

Rocío Simón Martínez, coordenadora de enfermagem de Médicos Sem Fronteiras (MSF), acaba de concluir sua segunda experiência de trabalho em Gaza, onde esteve entre os últimos profissionais internacionais de MSF a sair do território, no final de fevereiro de 2026.  

Desde então, todo a equipe internacional de MSF foi forçada a partir, após a decisão das autoridades israelenses de cancelar o registro de 37 ONGs que atuavam no Território Palestino Ocupado. MSF continua comprometida em prestar assistência pelo maior tempo possível com nossa equipe palestina. 

Minha primeira vez em Gaza foi entre novembro e dezembro de 2024. Retornei ao território em novembro de 2025 como coordenadora de enfermagem e fiquei por quase quatro meses, até 26 de fevereiro, quando todos os profissionais internacionais das ONGs afetadas pelo cancelamento do registro foram obrigados a partir. 

Prolonguei minha estadia quando soubemos que Israel não permitiria a entrada de substitutos internacionais. Como gerente de enfermagem para o sul de Gaza, visitei e supervisionei várias unidades na região e também viajei para o norte para supervisionar um dos hospitais que apoiamos lá, o Al-Helou, bem como a clínica na área de Al-Zeytoun, na Cidade de Gaza. 

A situação é desumana, e todos os dias vemos as consequências médicas para as pessoas em Gaza por causa das condições em que são forçadas a viver.”

Mesmo durante o que tem sido chamado de cessar-fogo, nunca pareceu realmente que as hostilidades tivessem parado. Drones sobrevoam constantemente. Era possível ouvir ataques aéreos todos os dias. Situações com vítimas em massa podem ter diminuído em comparação com o período anterior ao acordo, mas a violência nunca desapareceu. 

O que vi desta vez foi ainda mais destruição. O sistema de saúde está devastado. Menos prédios de pé. Mais tendas. Mais famílias deslocadas e amontoadas em áreas cada vez menores. A situação é desumana, e todos os dias vemos as consequências médicas para as pessoas em Gaza por causa das condições em que são forçadas a viver. 

Atendemos casos de infecções respiratórias: pneumonia, bronquiolite, crianças expostas ao frio do inverno em barracas improvisadas sem aquecimento. Tratamos constantemente casos de gastroenterite aguda, pois a água potável continua escassa. As pessoas fazem fila todos os dias apenas para buscar água, como vêm fazendo há mais de dois anos. As doenças de pele são generalizadas por causa da superlotação e da falta de condições para se ter uma higiene adequada. 

Palestinos nos pedem para falar sobre o que vimos, sobre como estão vivendo, sobre a violência contínua e o bloqueio, que moldam todos os aspectos de suas vidas. É isso que posso fazer agora. Falar.”

A necessidade de tratamento de feridas é avassaladora. Chegamos a realizar até 900 curativos por semana. Muitas dessas feridas têm meses, lesões que nunca cicatrizaram adequadamente. Tratei jovens de 18 e 19 anos de idade que agora estão paralisados devido a ferimentos por tiros na coluna vertebral, confinados em uma cama, desenvolvendo úlceras de pressão que facilmente se infectam nessas condições de vida. 

Também atendemos muitos pacientes com fixadores externos ainda presos aos membros, à espera de cirurgias que não podem ser realizadas dentro de Gaza. As evacuações médicas são extremamente limitadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 18.500 pacientes precisam de cuidados especializados que simplesmente não existem em Gaza, mas não têm permissão para sair. 

 

O caso de Mohamed, de 3 anos

Não consigo esquecer Mohamed, um menino de 3 anos de idade com desnutrição crônica e necessidades médicas complexas. Nós o tratamos com leite terapêutico, e ele melhorou, mas assim que voltou para casa, seu estado se agravou novamente.

A última vez que o vi, ele havia perdido muito peso porque se recusava a tomar o produto à base de amendoim usado para tratar a desnutrição fora do hospital. Mohamed é celíaco e tem outras necessidades alimentares especiais. O menino ainda está aguardando ser evacuado.

Sem acesso aos cuidados fora de Gaza, crianças como ele podem não sobreviver, por mais esforços que façamos.  

 

Os profissionais palestinos em Gaza

Nossa equipe palestina vive essa mesma realidade. Eles enfrentam a mesma insegurança, escassez e pressão psicológica que todos os demais. A ameaça de ataque nunca desaparece. 

São nossos colegas palestinos que estão levando adiante o trabalho de MSF. Mas apoiá-los à distância nunca será o mesmo que estar ao lado deles — convivendo e apoiando aqueles que mantiveram um sistema de saúde devastado em funcionamento após mais de dois anos de trabalho incansável.  

 

O futuro incerto

Enquanto estava sentada no ônibus saindo de Gaza, senti um nó na garganta. Cada vez que voltamos, a destruição está pior. Desta vez, parti me perguntando como será a situação se formos autorizados a voltar, e quando.  

Desde 1º de janeiro de 2026, MSF não consegue fazer entrar nenhum suprimento em Gaza. A partir do final de fevereiro de 2026, toda a nossa equipe internacional foi forçada a deixar Gaza após a decisão de Israel de cancelar o registro de MSF e de outras 36 ONGs que atuavam na Palestina.

Isso terá consequências catastróficas para as pessoas que dependem quase inteiramente da assistência humanitária — incluindo água, alimentos, cuidados de saúde, saneamento e educação. As necessidades são enormes. 

Palestinos nos pedem para falar sobre o que vimos, sobre como estão vivendo, sobre a violência contínua e o bloqueio, que moldam todos os aspectos de suas vidas. É isso que posso fazer agora. Falar. E esperar que um dia MSF e todas as outras organizações tenham permissão para trabalhar livremente, porque a população palestina em Gaza precisa urgentemente desse apoio. 

 

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