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El Salvador: muitos morrem em casa antes da chegada das ambulâncias

13/07/2020
MSF alerta para colapso do sistema de saúde do país durante a crise da COVID-19
El Salvador: muitos morrem em casa antes da chegada das ambulâncias

Foto: Alejandra Sandoval/MSF

A organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou um alerta sobre o impacto que a pandemia de COVID-19 está causando nas comunidades da região metropolitana de San Salvador e na capacidade dos serviços de saúde de lidar com o aumento do número de casos.

As equipes de atendimento pré-hospitalar de MSF na parte leste da área metropolitana de San Salvador estão registrando um aumento de mortes de pacientes em casa, antes da chegada das ambulâncias. Algumas comunidades de San Salvador e Soyapango, os principais centros populacionais do país, são os epicentros do contágio de COVID-19 em El Salvador. No geral, é evidente um agravamento rápido dos efeitos da pandemia na população e no sistema de saúde.

“Já estamos em uma fase crítica. Estamos registrando um aumento no número de mortes em residências antes que nosso serviço de ambulância possa chegar. Além disso, a coordenação para a admissão de pacientes em hospitais está se tornando cada vez mais difícil. Isso nunca aconteceu conosco antes”, diz Luis Romero Pineda, coordenador de projetos de MSF em El Salvador. "Por outro lado, há líderes comunitários que nos relatam mortes, algumas delas relacionadas à suspensão de controles e atenção primária", adiciona.

Ángel Sermeño, gerente médico do serviço pré-hospitalar de MSF, alerta que "em muitos casos, o paciente já morreu quando chegamos com o socorro. Em 2019, isso aconteceu conosco 11 vezes, de janeiro a junho. No mesmo período deste ano, foram 37 vezes, 18 somente em junho”. Segundo Sermeño, as principais causas de morte estão relacionadas a fatores metabólicos, respiratórios e cardiovasculares, que se multiplicaram por quatro em relação ao primeiro semestre do ano passado. "Além disso, existem quatro casos de complicações respiratórias que podem estar relacionadas à pneumonia atípica ou à COVID-19", explica ele.

O aumento da mortalidade domiciliar reflete as enormes dificuldades do sistema de saúde em responder à epidemia e garantir acesso da população à saúde. A partir da análise dos dados do nosso sistema de ambulâncias, existem três fatores que explicam o aumento da mortalidade nos últimos meses. O primeiro é a falta de acesso a serviços de atenção primária, o que contribuiu para a deterioração da saúde de pacientes com doenças crônicas. Por outro lado, o sistema de ambulâncias e os hospitais operam no limite de suas capacidades, e em terceiro lugar, os mecanismos para detectar casos de COVID-19 em algumas comunidades não são sistematicamente transferidos para o território nacional, o que impede a detecção precoce e a hospitalização de casos com complicações.

Líderes comunitários nas cinco comunidades de Soyapango e San Salvador, onde MSF presta atendimento médico primário, indicam que, somente desde a declaração de emergência, mais de 50 pessoas morreram depois de apresentar sintomas compatíveis com a COVID-19 ou de doenças crônicas.

Muitos dos serviços de ambulância que MSF realizou nos últimos meses estão relacionados a doenças respiratórias. Em vários casos, a ambulância foi solicitada quando os pacientes já estavam em uma situação particularmente grave.

O estigma e o medo do contágio estão atrasando a busca por assistência médica, às vezes com consequências fatais. Muitas pessoas têm medo de sair de casa e procurar atendimento, com medo de serem consideradas portadoras da doença ou com medo de serem removidas de suas famílias se forem hospitalizadas. Algumas pessoas têm problemas até para comprar uma máscara. Outras procuram ajuda, mas não são atendidas por causa da suspensão de consultas em hospitais e unidades de saúde. Victor, um paciente de Soyapango, relata que seu avô deve trocar uma sonda de vez em quando. “Nós o levamos para um hospital em San Salvador e lá eles pediram para ele ir a um em Soyapango, e de lá para outro. Eles já disseram a ele que é melhor ele não trocar a sonda, que é melhor ele não aparecer, que não há equipe para atendê-lo", lamenta Victor.

Wendy, médica do serviço de ambulâncias de MSF, informa que alguns pacientes morrem esperando para ter acesso ao atendimento hospitalar "enquanto aguardamos a autorização para transferi-los para algum centro de saúde, pois sem coordenação e autorização prévia, não podemos retirar o paciente de sua casa".

Para o coordenador do projeto, Luis Romero Pineda, “é vital melhorar a coordenação, aumentar o número de leitos disponíveis e garantir medidas de proteção nos hospitais pela segurança da equipe e dos pacientes, além de aumentar a capacidade de resposta dos serviços de transferência de emergência em casos críticos. Também é essencial garantir o acesso aos cuidados primários de saúde e melhorar a detecção e o acompanhamento dos casos para evitar que se tornem graves, sejam eles COVID-19 ou não”.


Durante a emergência da COVID-19 em El Salvador, MSF continuou com serviços de atenção primária e saúde mental nas comunidades, assistência psicossocial em centros de detenção para populações deportadas e capacidade expandida de resposta de ambulâncias em apoio ao Serviço Emergencial Médico.

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