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Ebola: “Entendeu-se que a resposta à epidemia deveria se dar de fora para dentro dos centros de tratamento”

02/04/2015
Brasileiro fez parte da primeira equipe de promoção de saúde do centro de tratamento de Ebola de MSF em Kissy, em Serra Leoa

Foto: Yann Libessart/MSF

A ansiedade era muita. E em se tratando de projetos de emergência, com Médicos Sem Fronteiras, a sensação aumenta ainda mais. Era dezembro de 2014, e o primeiro destino do brasileiro Roberto Wright Reis seria o Mali, onde realizaria atividades de sensibilização das comunidades sobre o Ebola, uma vez que a epidemia avançava e casos já haviam sido reportados no país. Felizmente, o surto não evoluiu como o esperado e, por isso, Roberto foi enviado a Kissy, região de Serra Leoa onde a organização inauguraria, em janeiro de 2015, um novo centro de tratamento de Ebola com maternidade. Ali, ele seria responsável por uma equipe de promoção de saúde que teria como principal atribuição a comunicação com pacientes, seus cuidadores e familiares, para que ficassem cientes do que se passaria ali durante e após o tratamento da doença.

“Quando cheguei, não havia nada ali. Tudo estava ainda sendo estruturado”, conta Roberto. Além de designar para sua equipe um espaço para chamar de seu, ele precisou recrutar profissionais locais. E essas pessoas precisariam ter características específicas, como a empatia, a capacidade de se conectar com as pessoas. “Nós éramos responsáveis por receber todos os que chegavam na triagem do centro de tratamento. Era nossa a primeira palavra de boas-vindas para aquelas pessoas já tão assustadas, em estado emocional e de saúde tão delicados. Precisávamos conseguir preencher a lacuna deixada, em termos de atenção, pelo período em que o auge da epidemia consumia todo o tempo e a energia dos profissionais nos centros de tratamento, e todos trabalhavam no limite de suas capacidades. A objetividade, por vezes, não favorecia esse cuidado com as pessoas”, conta Roberto. Segundo ele, 2014 deixou uma gama de lições aprendidas e que esforços para sensibilizar as comunidades praticamente encabeçam a lista de medidas a serem implementadas. E, nesse sentido, estabelecer um primeiro contato que inspire confiança é essencial, porque, entre outras coisas, facilita o rastreamento de pessoas que tiveram contato com aquele paciente, que pode testar positivo para o Ebola. “O foco passou a ser a comunidade. Entendeu-se que a resposta à epidemia deveria se dar de fora para dentro dos centros de tratamento”, conta Roberto.

A equipe do brasileiro contou, no início, com 5 profissionais locais. Ao final, eram 25 pessoas. Nos centros de tratamento, os promotores de saúde se ocuparam da recepção dos pacientes, da comunicação com eles e seus familiares na área da triagem e do acompanhamento na ala de tratamento, ainda que menos frequente do que o faziam os enfermeiros e médicos. “Com o tempo, aprendemos a identificar nos pacientes aquele momento em que começam a se entregar à doença. E, algumas vezes, estimulando-os, conseguíamos que buscassem força para reverter o quadro. E observar isso é incrível”, conta Roberto. Entre as responsabilidades da equipe, estavam a comunicação da morte de um paciente, trabalhar o luto após os funerais conduzidos no centro de tratamento e oferecer primeiros cuidados psicológicos para pacientes e familiares em choque.

O acompanhamento dos sobreviventes na volta às suas casas é uma das principais atividades dos promotores de saúde durante um surto de Ebola. A presença de um promotor de saúde nesse momento é extremamente importante para a pessoa que vence o vírus, para que a comunidade entenda que ela não mais transmite a doença ao chegar em casa, pois está de fato curada. O papel dos promotores é o de comunicar a condição de saúde do sobrevivente e abraçá-lo em público. “Essa parte do abraço, mesmo sendo ‘protocolar’, é a que faço com mais carinho. É uma das partes que mais me inspiram e me fazem ver que nossos esforços dia e noite valem a pena”, explica Roberto. O gesto também proporciona o início do acolhimento daquela pessoa por parte de seus familiares e vizinhos na comunidade. O trabalho de combate ao estigma que enfrentam os pacientes curados é um processo delicado, e deve ser iniciado pelos promotores de saúde mesmo antes do paciente deixar as instalações de MSF.

Assista aqui o vídeo: https://youtu.be/RHRZ6ouaNiE

Pa Kumbra Bai

Para Roberto, um dos momentos mais significativos de sua participação de dois meses no projeto de Ebola foi a estruturação do Comitê de Lideranças Comunitárias, com representantes das 16 etnias da região. Era por meio das reuniões semanais que se buscava garantir a aceitação e entendimento do projeto e mesmo da doença por parte da comunidade. “Era interessante observar o comportamento daquelas pessoas, como se davam as relações de respeito entre elas e quais eram suas prioridades. A gente escuta coisas que nem imagina, do tipo ‘e a água que se usa, de onde vem e para onde vai? O gerador vai ficar depois que vocês forem embora? Tratam outras coisas que não Ebola’? E todas as reuniões, sem exceção, começavam com rezas muçulmanas e cristãs”, relembra. E com chá, leite e café, que, segundo Roberto, tinham de ser servidos em canecas, porque copo de plástico, para muitos dos anciãos, era coisa de criança.

Para envolver a todos os cerca de 30 presentes nas conversas sobre múltiplos temas, Roberto simulava às vezes um ônibus em movimento. “A gente recorreu às ferramentas lúdicas para tentar colocar toda aquela diversidade em uma mesma página. E todos os líderes entravam no ônibus, e respondiam aos comandos do motorista, que poderia ser eu ou qualquer participante. Quando tinha algum participante novo, como um profissional internacional recém-chegado ou um membro da comunidade, era preciso esperar em um ponto de ônibus fictício antes que o grupo já dentro do ônibus ‘buscasse’ esse novo integrante”, conta. Ainda hoje, a importância do comitê é extremamente significativa em Kissy, e sempre que algo relevante é feito no centro de tratamento – expansão de alguma ala, alteração no fluxo de pessoas ou mesmo mudanças na localização dos portões – ou mesmo fora dele, na comunidade, o grupo é reunido para ser consultado ou informado. Foi a partir da relação com essas pessoas representantes de grupos tão distintos que nasceram os laços afetivos dos quais Roberto mais se recorda e sente saudades. “Tinha todo o tipo de liderança que se pode imaginar: de chefes tradicionais e líderes religiosos a representantes de pessoas com deficiência e um cantor de hip hop. Eu me sentia verdadeiramente integrado àquelas pessoas, sentia que as entendia e que era entendido. A comunicação fluía bem”, explica ele. Antes de deixar Kissy, o momento mais marcante: “Fui honrado com um novo nome, Pa Kumbra Bai, que, em uma das línguas locais, significa ‘pai de todos os chefes’”.

A condução de atividades de mapeamento e sensibilização das comunidades do entorno do centro de tratamento de MSF ressaltou o que tantos já sabiam: mesmo um ano depois do início da epidemia de Ebola, muitas pessoas continuam sem saber o que é a doença e como se proteger dela.