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Desaparecimentos e violência: o preço para cruzar o México

05/09/2018
Oito anos depois do massacre de San Fernando, em 2010, sequestros e violência continuam sendo a realidade para refugiados e migrantes que tentam deixar a América Central
Desaparecimentos e violência: o preço para cruzar o México

Foto: Juan Carlos Tomasi

Em San Fernando, no estado mexicano de Tamaulipas, 72 pessoas - 58 homens e 14 mulheres - foram sequestrados e assassinados nos dias 22 e 23 de agosto de 2010. Eles foram baleados no pescoço e tiveram seus corpos abandonados em um rancho. Todos eram migrantes que tentavam chegar aos Estados Unidos.

Os corpos foram encontrados pela Marinha antes de serem enterrados, o que colocou em evidência a extrema violência, o abuso e os maus-tratos sofridos pelos migrantes no México.

Oito anos depois, não há muitos sinais de melhora. "A violência está se espalhando incessantemente", diz María Hernández Matas, coordenadora do projeto de migração de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no México. “Os migrantes e refugiados a quem oferecemos ajuda estão sujeitos a ameaças e riscos constantes durante a travessia pelo país. Eles foram vítimas de sequestros, extorsões, roubos, ameaças, ataques físicos e abuso sexual.”

“Uma parte significativa do trabalho de MSF com migrantes e refugiados é tratar problemas de saúde mental e física que resultam da violência sofrida no México e nos países de origem”, explica Hernández.

"Aqueles que não tinham dinheiro foram mortos"

Um paciente hondurenho de 22 anos, que está no abrigo de Coatzacoalcos, onde MSF trabalha, compartilhou sua história com a equipe de MSF.

"Há cerca de quatro anos, na fronteira entre os EUA e o México, em Nuevo Laredo, Tamaulipas, fui sequestrado e levado para San Fernando. Comigo havia diversas outras pessoas raptadas. Nós fomos amarrados e vendados. Eles nos bateram.

Queriam os telefones de nossos parentes em Honduras e nos Estados Unidos para pedir um resgate de 3.000 dólares. Aqueles que não tinham dinheiro foram mortos. Alguns pagaram o resgate, mas mesmo assim eles ainda os mantinham raptados para que pudessem continuar pedindo mais dinheiro.

Eu estava com medo. Pensei que eles iam me matar. Disse a eles que não tinha dinheiro, que vinha de uma família pobre. Eles me disseram que se minha família não tivesse dinheiro, eles me matariam. Eu chorava. Pedi a eles que me libertassem. Vi como eles batiam nas pessoas. As mulheres eram violadas.

Eles nos levaram de Nuevo Laredo para San Fernando em um carro. Foi um pesadelo. Eles não nos deram de comer, só nos deram água. Ficamos retidos durante quase dois meses. Um dia, ao amanhecer, ouvi tiros. Quando escutei que era a Marinha, levantei, tirei minha venda e saí correndo chorando.

Eu não queria que a mesma coisa que aconteceu com o meu tio acontecesse comigo. Ele foi uma das pessoas assassinadas no 'massacre dos 72'. Eu encontrei um oficial da Marinha e ele me disse para parar. Disse a ele que havia sido sequestrado e que vinha de Honduras.

Agora estou indo para o norte porque, infelizmente, não posso mais morar no meu país. Deixo Honduras por causa do governo e das gangues. Não há trabalho e eles cobram impostos sobre a guerra.

Minha chegada tem sido muito difícil. O passado me alcançou quando fui sequestrado novamente em Coatzacoalcos. Agora eu me sinto bem, porque conversei com psicólogos de MSF na Casa dos Migrantes. Eu realmente tinha medo de continuar, mas então conheci os psicólogos da organização e eles me deram coragem.”

MSF tem trabalhado desde 2012 com migrantes e refugiados no México, que fogem da violência e da falta de oportunidades em seus países de origem. Atualmente, MSF trabalha para melhorar o acesso a atendimento médico e psicológico dessas pessoas ao longo da travessia migratória, priorizando a ajuda aos mais vulneráveis, como menores desacompanhados, mulheres que viajam sozinhas e sobreviventes de violência.

Em coordenação com o abrigo para refugiados La 72 em Tenosique (Tabasco) e a Casa dos Migrantes Diocesanos em Coatzacoalcos (Veracruz), nossas equipes oferecem serviços médicos e cuidados de saúde mental.

Para os casos mais graves de extrema violência, tortura ou tratamento cruel, desumano e degradante, MSF oferece atendimento multidisciplinar (médico, de saúde mental e de assistência social) por meio de seu centro de atendimento abrangente na Cidade do México e administra serviços médicos especializados para reabilitação completa.

MSF também mantém uma equipe móvel - um médico, um enfermeiro e um psicólogo - que visita regularmente abrigos para migrantes e refugiados em Reynosa, Tamaulipas.

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