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COVID-19 no Iêmen: “As pessoas morrem com muita rapidez”

01/06/2020
O sistema de saúde fragilizado associado à falta de suprimentos médicos está gerando uma catástrofe em Aden
COVID-19 no Iêmen: “As pessoas morrem com muita rapidez”

Foto: MSF

Um carro parou em frente ao edifício branco do centro de tratamento de COVID-19 de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Aden, no Iêmen. Dentro havia um homem de cerca de 60 anos de idade, que tossia e respirava com muita dificuldade. Ele conseguiu sentar em uma cadeira de rodas e, em seguida, a equipe o levou à unidade de terapia intensiva para começar a fornecer oxigênio. Quatro horas depois, ele estava morto.

Essa é a velocidade e a brutalidade com que a COVID-19 age em Aden, uma cidade sob o domínio de um surto catastrófico do novo coronavírus. "Houve muitos casos assim", disse Thierry Durand, coordenador do projeto que criou o centro de tratamento. “Várias pessoas morrem com muita rapidez. Elas já chegam em estado grave e, então, é tarde demais. A população não consegue entender como as pessoas podem morrer tão rapidamente”. De 30 de abril a 24 de maio, o centro recebeu 228 pacientes, dos quais 99 morreram. "Nós só vemos casos graves", disse Durand. “Nós, profissionais de saúde, nos sentimos desamparados. Não há muito o que fazer além de colocar os pacientes no oxigênio. Já aconteceu de termos 13 mortes em um dia."

O centro de tratamento registra uma taxa de mortalidade equivalente a UTIs na Europa e nos Estados Unidos, mas a diferença em Aden é que não há um hospital bem equipado, integrado a uma rede de outros hospitais e serviços de apoio. O centro é uma parte, reformada às pressas, de um antigo hospital de câncer, que fica na periferia de uma cidade cujo sistema de saúde entrou em colapso após cinco anos de guerra e cujos habitantes frequentemente ficam imersos na escuridão por causa de cortes de energia. O centro é o único local em Aden dedicado ao tratamento da COVID-19.

"Estamos reutilizando equipamentos de proteção individual (EPI) porque não temos o suficiente", disse Khairil Musa, especialista em UTI, que trabalha com MSF em Aden. “O acesso a testes de diagnóstico é extremamente limitado. Não temos ventiladores suficientes, precisamos de mais concentradores de oxigênio e uma cadeia de suprimentos confiável. Precisamos de reguladores, tubos, máscaras, todas essas coisas das quais não temos o suficiente. É um desafio enorme.”

O pátio do centro está repleto de fileiras de cilindros de oxigênio. São usados 250 cilindros por dia para tratar pacientes que lutam para continuar respirando. "O coronavírus diminui o oxigênio no corpo. Para combatê-lo, precisamos compensar essa falta", continua Musa. "Parece simples, mas os pacientes precisam de um nível extremamente alto de oxigênio. Pacientes com uma forma grave da doença precisam de uma quantidade enorme de oxigênio por minuto. Em Aden, isso é um desafio enorme em termos de suprimentos. As demandas por oxigênio são assustadoras", disse Durand. “Não há oxigênio centralizado, nem oxigênio líquido. No entanto, Aden ainda tem vários recursos, materiais ou humanos. Imagine a situação nos lugares mais remotos do Iêmen."

"Fazemos rondas para verificar os níveis de oxigênio dos pacientes", explicou Musa. “Às vezes, os pacientes parecem estar bem. Aí, você volta um pouco depois e eles estão mortos. Outros estão muito ofegantes – são esses que morrem mais rápido. Eles se cansam e param de respirar."

O alto índice de mortes também é um problema em termo de gerenciamento dos corpos. "Não temos um necrotério no centro", disse Musa. "Existe um imã [um clérigo islâmico] que vem buscar os cadáveres e levá-los de volta para as famílias, mas não há pessoas suficientes para lidar com os corpos". Imagens de drones tiradas por jornalistas de outras partes da cidade mostram fileiras e mais fileiras de covas recentemente cavadas. Dados das autoridades mostram que o número de enterros subiu de 80 a 90 por dia nas últimas semanas. Antes da epidemia, eram registrados 10 enterros diários.

"A equipe de saúde está sofrendo", disse Durand. "Eles estão sofrendo porque não podem salvar seus pacientes, estão sofrendo porque há muitas mortes."

As equipes estão trabalhando sem parar e fazendo de tudo para conseguir mais equipamentos e suprimentos o mais rápido possível. Em breve, a capacidade do centro será ampliada para 72 leitos. Mas o sistema de saúde do Iêmen precisam urgentemente de mais ajuda das Nações Unidas e de outros Estados doadores para poder responder à COVID-19 e impedir que a situação se agrave ainda mais. "A crise é muito maior que nós, não podemos enfrentá-la sozinhos", disse Musa.


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