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COVID-19 e falta de equipamento de proteção ameaçam atendimento médico no Quênia

18/05/2020
As pessoas que vivem na favela de Mathare estão em situação cada vez mais vulnerável
COVID-19 e falta de equipamento de proteção ameaçam atendimento médico no Quênia

Foto: Paul Odongo/MSF

Para os mais de meio milhão de habitantes em Mathare, uma das maiores favelas do Quênia, a chegada do surto de COVID-19 no país pode apresentar um risco ainda maior do que a infecção pelo vírus propriamente. A paralisação dos serviços de saúde locais, causada pelo surto, afetou fortemente a capacidade de oferta de assistência médica essencial; agora, muitas pessoas correm o risco de serem privadas de cuidados que salvam vidas. Isso aumenta os níveis de precariedade em que a maioria dos moradores já era forçada a viver – geralmente, eles compartilham espaços lotados e apertados e têm acesso limitado à água limpa, o que torna impossível a adoção de medidas preventivas contra a COVID-19. O resultado é uma situação com potencial para consequências dramáticas, pois a necessidade de assistência médica aumenta enquanto sua disponibilidade é significativamente reduzida, como presenciam as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF), que trabalham para prestar atendimento de emergência e ajudar sobreviventes de violência sexual e violência de gênero.

“Muitas unidades de saúde privadas fecharam por causa do risco de contaminação e falta de equipamento de proteção individual (EPI). Pelo menos um centro público de saúde foi fechado e sua equipe ficou em quarentena depois que alguns deles contraíram COVID-19”, diz o médico Hajir Elyas, coordenador do projeto de MSF em Mathare. “Alguns hospitais estão se recusando a receber pacientes com problemas respiratórios, mesmo quando o coronavírus é descartado. Como consequência, muitos casos de TB, asma e pneumonia acabam em alas de isolamento de  COVID-19, o que atrasa seu atendimento e aumenta a exposição desses pacientes e suas famílias”.

Até o dia 14 de maio, tinham sido registrados 758 casos de COVID-19 e 42 mortes no Quênia. Como em muitos outros países, MSF tem se esforçado para adaptar seus programas, a fim de manter a continuidade da oferta de cuidados médicos em Mathare. Até agora, nossas equipes conseguiram manter as atividades em execução, incluindo os serviços de emergência necessários para salvar vidas. Em abril, o número de chamadas de ambulância (551) e de pessoas atendidas na emergência (mais de 2.300) atingiu seu pico, comparado ao início do ano. O alcance das nossas atividades foi expandido para preencher parte da lacuna deixada pelo impacto do surto: entre março e abril, por exemplo, o número de pacientes obstétricas que chamaram ambulância mais que dobrou (de 98 para 209), enquanto as mulheres grávidas enfrentam grandes dificuldades para encontrar meios de transporte à noite.

“O desafio para as mulheres grávidas é que nenhum táxi ou veículo de serviço público está operando após o toque de recolher, nem mesmo o boda boda (táxi de motocicleta), que as pessoas usam em assentamentos informais”, explica George Wambugu, gerente de atividades médicas. “Isso deixa as mães expostas a complicações obstétricas. Atendemos gestantes em nossas ambulâncias ou na sala de trauma. Recentemente, uma mãe teve um bebê prematuro em nossa ambulância, que precisava de reanimação. Felizmente, o bebê sobreviveu e ambos se recuperaram bem.”

As sobreviventes de violência sexual na região estão enfrentando uma situação particularmente difícil. Com quase nenhuma opção de transporte e uma situação volátil durante a noite, o número de pessoas que visitam a “Casa Lavanda”, o centro de MSF dedicado a atendimentos para violência sexual e de gênero, diminuiu, mesmo que haja indícios de que o número de incidentes provavelmente tenha aumentado. "Sabemos que o número de casos está aumentando", diz o médico Elyas. "Recebemos telefonemas de mulheres ou jovens em confinamento forçado com seus agressores, que não têm como sair de casa e vir receber cuidados".

As equipes de MSF também confiam fundamentalmente na disponibilidade de EPI para proteger pacientes e profissionais do risco de infecção. No entanto, a escassez global de material de proteção pode forçar MSF a encerrar seus programas - incluindo atividades emergenciais que salvam vidas - se um fornecedor confiável de EPI não for encontrado rapidamente. Isso acontece no pior momento possível. Embora o número de casos relatados de COVID-19 esteja relativamente baixo até o momento, espera-se que haja um aumento e existe o risco da doença causar vítimas indiretas – ou seja, pessoas que não puderam receber atendimento médico essencial para outros tipos de problemas de saúde.

Com a proximidade da estação chuvosa, espera-se que o aumento sazonal de doenças respiratórias torne a situação ainda mais desafiadora. “Pessoas com sintomas respiratórios, principalmente crianças, podem ser rotuladas como casos suspeitos de COVID-19 e encaminhadas para o hospital errado, resultando em cuidados tardios ou inadequados”, diz o médico Elyas. "Como consequência, podemos esperar certa relutância dos pais em levar os filhos aos serviços de saúde.”

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