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Combate a doenças tropicais: ainda há muito por fazer

30/01/2012
Apenas doações de medicamentos não são suficientes; é preciso apoiar programas de controle e sistemas de saúde em países onde as enfermidades são endêmicas

A Fundação Bill e Melinda Gates está sediando uma conferência hoje, chamada “União pelo Combate às Doenças Tropicais”, cujo principal objetivo é chamar a atenção do mundo para doenças tropicais que vêm sendo negligenciadas há muito tempo. No entanto, segundo alerta dado pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), as ambiciosas metas para eliminar ou controlar dez doenças tropicais negligenciadas só poderão ser concretizadas quando importantes lacunas de financiamento e apoio forem supridas.

“Apesar de estarmos muito satisfeitos com a decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS), de doadores e de agências de desenvolvimento, de finalmente dar a devida atenção à questão às dez doenças tropicais negligenciadas, estamos muito preocupados por perceber que alguns obstáculos ao combate a essas enfermidades estão sendo encobertos”, disse Daniel Berman, vice-diretor da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais (CAME) de MSF. “O aumento das doações de medicamentos por parte da indústria farmacêutica é apenas parte da solução. No entanto, não é possível eliminar e controlar enfermidades como Chagas, calazar e doença do sono sem o aumento do apoio a programas de identificação e tratamento de pacientes, nem sem o aumento de investimentos para novos e melhores testes diagnósticos e medicamentos.”

Para que doenças como essas sejam eliminadas, é fundamental que novos tratamentos e testes de diagnóstico, que possam ser usados por profissionais da saúde com treinamento básico em áreas remotas, sejam desenvolvidos. Por exemplo, o tratamento da doença do sono ainda requer uma punção lombar muito dolorosa para o paciente, e ainda não há tratamento oral disponível. São necessários injeções e terapias intravenosas, que não podem ser encontrados facilmente em clínicas básicas de regiões rurais, e são muito doloridos para os pacientes.

Os medicamentos não são os únicos a sofrer com a crônica falta de financiamento: os programas de saúde também são vítimas dessa realidade. Se o Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DfID, na sigla em inglês), a USAID e a OMS, entre outros agentes externos, querem eliminar essas doenças, eles precisam aumentar de maneira crítica os programas de saúde e fortalecer os sistemas de vigilância às dez doenças tropicais negligenciadas. No momento, ainda existem “pontos cegos”, ou seja, regiões onde essas enfermidades têm alta prevalência, uma vez que a insegurança e a falta de financiamento acabam fazendo com que muitas pessoas fiquem sem diagnóstico e tratamento.

“Todas as ambiciosas metas de eliminação dessas doenças não servirão de nada se não dermos apoio total a programas nacionais de controle e sistemas de saúde em países onde as enfermidades são endêmicas”, disse o Dr. Andreas Lindner, membro da equipe inter-regional de combate à doença do sono de MSF, que atua em países como Chade e República Centro Africana. “Nós temos que entender que apenas os programas de controle nacionais – e não MSF, ou qualquer outra organização – vão conseguir controlar essas doenças. E eles precisam de todo apoio e cooperação possíveis.”

MSF está muito preocupada com a ênfase dada à necessidade de mais doações de medicamentos, uma vez que as estratégias de eliminação das dez doenças tropicais negligenciadas acabam sendo baseadas apenas no que as empresas farmacêuticas estão oferecendo. Os compromissos assumidos pela Gilead, pela Novartis e por outras companhias refletem apenas as políticas das próprias empresas, que não são necessariamente as prioridades de saúde pública.

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