Colômbia: necessidades humanitárias persistem três semanas após terremoto

Equipes de MSF ampliam o atendimento em Chocó e Buenaventura, locais que já enfrentavam barreiras ao acesso à saúde e os efeitos do conflito armado

A casa mais alta do bairro de La Carmelita, na Colômbia, tinha três andares e desabou completamente durante o terremoto. ©Natalia Romero Peñuela/MSF
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Três semanas após o terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia, milhares de pessoas ainda enfrentam dificuldades para acessar cuidados médicos, apoio de saúde mental, alimentos e materiais para reconstruir suas casas. 

Embora o terremoto tenha afetado severamente cidades como Cali e Pereira, as lacunas de atendimento mais críticas permanecem em áreas que há muito tempo enfrentam a pobreza, a presença de grupos armados e barreiras ao acesso à saúde.

Em partes de Quibdó e Medio Baudó, em Chocó, bem como em Buenaventura, no Valle del Cauca, onde as condições já eram precárias antes do desastre, o terremoto agravou ainda mais as necessidades existentes. 

 

O que Médicos Sem Fronteiras (MSF) está fazendo na Colômbia 

MSF mobilizou equipes nas regiões de Valle del Cauca, Chocó e Risaralda, priorizando áreas onde as necessidades permanecem maiores e onde a resposta tem sido mais limitada. 

Diferentemente de outras emergências, os efeitos do terremoto na Colômbia não ficaram concentrados em um único local. 

Siham Hajaj, coordenadora-geral de MSF na Colômbia 

“O impacto foi sentido em territórios que podem parecer próximos entre si, mas que são separados por rios e montanhas, o que tem tornado a resposta mais difícil. Também observamos diferenças significativas entre áreas com uma presença institucional mais forte e outras que têm sido historicamente negligenciadas, incluindo comunidades indígenas e afro-colombianas”, afirmou Siham Hajaj. 

MSF enviou equipes aos departamentos de Valle del Cauca, Chocó e Risaralda e, após realizar avaliações em cerca de dez municípios, estabeleceu clínicas móveis em Buenaventura (Valle del Cauca), bem como em Quibdó e Medio Baudó (Chocó), onde foram identificadas maiores barreiras de acesso aos serviços de saúde e menor cobertura da resposta humanitária. 

Equipes de MSF prestam atendimento em uma clínica móvel no bairro de La Carmelita, Buenaventura, na Colômbia. ©MSF

“Nesses territórios, muitas comunidades enfrentam um desafio duplo ou até triplo”, disse Hajaj. “Para além dos efeitos do terremoto, elas vivem em contextos marcados pelo conflito armado, por limitações estruturais nos serviços de saúde e, em alguns casos, por novos eventos relacionados ao clima.” 

No município de Medio Baudó, comunidades indígenas também enfrentaram enchentes causadas pela rápida elevação do rio Baudó apenas dois dias após o terremoto, agravando ainda mais as condições de vida. 

 

Impactos na saúde 

As equipes de MSF identificaram as necessidades de saúde mental como uma das principais consequências do desastre.

Três semanas após o terremoto, reações comuns incluem ansiedade, estresse agudo, hipervigilância, insônia e um medo persistente de possíveis tremores secundários, além da incerteza em relação ao futuro.

Alejandra Bolívar, psicóloga de MSF, realiza atividade de psicoeducação com crianças no bairro Alberto Lleras, em Buenaventura, Colômbia. ©Natalia Romero Peñuela/MSF

Blanca Lucila, uma mulher indígena Emberá de Medio Baudó, em Chocó, disse ter ficado profundamente abalada. “Na minha comunidade, três casas desabaram completamente e as outras ficaram inclinadas”, contou. “Minha cabeça parece fora de controle; eu me levanto e sinto como se estivesse caindo. As pessoas dizem que algo vai acontecer, e todos estamos ficando dentro de casa por medo.” 

Além dos cuidados de saúde, muitas famílias continuam precisando de apoio para reparar suas casas e ter acesso a alimentos.

Em Buenaventura, Sebastián Cundumí voltou da pesca e encontrou sua casa destruída. “As casas estão destruídas”, disse. “Por fora, algumas ainda parecem estar de pé, mas, quando você entra, não há nada. Precisamos de materiais para reconstruir nossas casas.”

Seu vizinho, Luz Hernecia Rojas, viu sua casa desabar. “Agora estou dormindo na sala da casa da minha filha, que também foi afetada, então, quando chove, todos nós ficamos encharcados”, afirmou Rojas. 

 

A resposta de MSF 

Durante os primeiros dias da resposta, as equipes de MSF em Quibdó, Chocó, concentraram seus esforços em áreas urbanas, incluindo o abrigo do Coliseu Municipal e os bairros de Medrano, Las Palmas, Poblado e Zona Minera.

Ao longo de oito dias, as equipes realizaram mais de 700 atendimentos, incluindo 480 consultas médicas gerais e quase 60 consultas individuais de saúde mental. Também promoveram 15 sessões coletivas de psicoeducação com mais de 200 participantes. 

MSF também trabalhou em coordenação com instituições locais, como a ESE Ismael Roldán e o Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar (ICBF), em atividades de vacinação, apoio nutricional e acesso à água potável. 

Após essa fase inicial, ampliamos nossa resposta para comunidades rurais do departamento, onde persistem necessidades significativas e as dificuldades de acesso continuam dificultando a assistência humanitária. Em Medio Baudó, a equipe realizou mais de 140 consultas médicas em apenas três dias. 

Em Buenaventura, no Valle del Cauca, a equipe continua operando clínicas móveis em alguns dos bairros mais vulneráveis da cidade, onde os moradores não haviam recebido atendimento médico após o terremoto. MSF realizou atividades nos bairros de Alberto Lleras, Palo Seco, La Carmelita, Pampa Linda, Santafé e Unión de Vivienda. 

Em toda Buenaventura, a resposta de MSF inclui um forte componente de apoio psicossocial e saúde mental. No bairro Alberto Lleras, por exemplo, a equipe está implementando a iniciativa “Espaços Seguros”, com atividades recreativas para crianças, apoio em saúde mental e ações de promoção de saúde. 

Em Buenaventura, a equipe realizou quase 800 atendimentos, incluindo 600 consultas médicas gerais e 84 consultas individuais de saúde mental. A equipe também promoveu 59 sessões em grupo, alcançando 750 pessoas. 

“Essa emergência escancarou as desigualdades que já existiam antes do terremoto”, afirmou Hajaj. “Agora, uma das prioridades deve ser garantir que as comunidades mais isoladas recebam atendimento.” 

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