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Chade: falta de informação e de recursos dificulta resposta à cólera

17/11/2017
Mais de 1.180 casos da doença foram registrados desde o início da epidemia, em agosto deste ano
Chade: falta de informação e de recursos dificulta resposta à cólera

Foto: Clarisse Douaud

Uma epidemia de cólera no Chade seguiu o rio Bahr-Azoum - usado por muitos para higiene, banho e até consumo - ao longo de seu caminho sinuoso para o sul, da região oriental de Sila ao distrito mais densamente povoado de Am Timan, em Salamat, próximo à República Centro-Africana.

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) deslocou sua unidade de resposta de emergência de Sila para Am Timan à medida que a epidemia mudava de lugar. Havia 795 casos e 23 mortes na região de Salamat, desde o dia em que o primeiro caso foi registrado, em 11 de setembro, até 14 de novembro, de acordo com dados do Ministério da Saúde Pública do Chade.

À medida que a comunidade lutava para lidar com um número crescente de casos em Am Timan - onde MSF criou um centro de tratamento de cólera (CTC) com 40 leitos, seguido por três unidades menores nas aldeias vizinhas - a necessidade de aumentar a conscientização sobre a doença transmitida pela água se tornava evidente.

"A particularidade aqui é a gravidade dos casos", disse o Dr. Roger Haïwe, responsável pelas atividades de tratamento no CTC, que foi criado pela Unidade de Resposta de Emergência do Chade (CERU) de MSF em 22 de setembro. "Os pacientes não só devem viajar de muito longe para chegar ao CTC, como também têm medo de dizer que têm cólera, já que há um estigma associado".

No pico da epidemia, em meados de outubro, mais da metade dos pacientes chegaram gravemente desidratados porque esperaram muito para ir ao CTC ou tiveram problemas para encontrar transporte. Com apenas duas ambulâncias em uma região marcada por estradas rurais rudimentares e uma conexão telefônica precária, os pacientes enfrentaram inúmeros obstáculos para obter tratamento.

Os aldeões tiveram problemas para chegar ao serviço de ambulância em Kach Kacha, uma das aldeias afetadas no distrito de Am Timan, onde a única alternativa é tomar um mototaxi.

"Eles estavam muito doentes para serem trazidos em motos", disse o residente de Ahmed Issa, Kach Kacha, relatando como os companheiros acabaram chegando a Am Timan. Eles foram levados ao CTC de MSF de ambulância ao longo da rota acidentada e empoeirada de 45 quilômetros.

Ahmat, de 39 anos, ficou doente depois de beber água do rio enquanto coletava painço. Muitos pacientes relataram experiências semelhantes: haviam matado a sede no rio enquanto trabalhavam em campos, queimados pelo sol. Os agricultores têm sido relutantes em caminhar para o trabalho com os pesados recipientes de água potável necessários para mantê-los hidratados durante o dia.

As atividades de resposta à emergência de MSF incluíram a distribuição de sachês para o tratamento de água - mesmo a água do rio - para que ela se torne apropriada para o consumo. Esses sachês estão entre os kits de higiene que os promotores de saúde de MSF distribuem a todos os pacientes no CTC. Os kits também incluem um balde de 20 litros para o tratamento de água, uma barra de sabão, um cobertor e um mosquiteiro.

Dentro da barraca de recuperação, Amne Fadou, de 90 anos, está sentada em uma esteira com seu novo kit de higiene, que ela não pode ver porque está cega. A Sra. Fadou passou mal enquanto estava no chuveiro de sua aldeia e teve que ser retirada porque outras pessoas precisavam usá-la. Ela foi trazida ao CTC sozinha, pois disse que seus cuidadores tinham medo de contrair cólera.

"Eu estava vomitando e tive diarreia, pensei que estivesse morta", disse a Sra. Fadou, que, na ausência de um cuidador, foi alimentada por Zara Edouard, 18 anos, outra paciente do CTC.

Para abordar a crescente quantidade de casos, uma equipe do Ministério da Saúde Pública abriu uma pequena unidade de tratamento de cólera (UTC) em Kach Kacha. Eles solicitaram a ajuda de aldeões para construir uma unidade improvisada usando ramos de árvores e partes de uma barraca doada que veio sem instruções. Uma semana depois, a unidade ficou sobrecarregada, com 17 pacientes deitados no chão. MSF apoiou posteriormente a criação de três UTCs adicionais de 10 e 20 leitos em Kach Kacha e outras aldeias no distrito de Am Timan.

A cólera - que é propagada pela ingestão de alimentos ou água contaminada com fezes ou vômito de alguém que tem a doença - pode ser tratada com a reposição imediata de fluidos e eletrólitos perdidos por vômitos e diarreia. Se a doença não for tratada, os pacientes podem morrer em poucas horas.

Com crianças ainda brincando no rio potencialmente contaminado, havia uma necessidade evidente de informar a comunidade sobre a importância da higiene. MSF vem sensibilizando a cidade de Am Timan e aldeias vizinhas sobre higiene, tratamento de água e prevenção de cólera. Há sinais de que as pessoas estão mais informadas, de acordo com o dr. Haïwe, que disse que as pessoas inicialmente se apresentaram no CTC à noite por vergonha. Depois, passaram a chegar durante o dia.

Para traçar a evolução da epidemia e as necessidades, MSF também vem realizando vigilância epidemiológica.
"Para MSF e outras ONGs, é preciso ter informações completas, atualizadas e confiáveis para poder tomar decisões embasadas sobre as atividades a serem implementadas", disse Jennifer O'Keefe, epidemiologista de MSF que coleta e analisa diariamente os dados.

Ahmat, cuja mãe o estava esperando, teve alta depois de quatro noites no CTC. Ele estava muito cansado e disse que não podia se levantar ou comer. Quando ele voltar ao trabalho no campo - após a longa viagem de volta a sua aldeia e um período de recuperação - ele disse que vai levar consigo sua própria água potável em vez de beber a do rio Bahr-Azoum.

Contexto

MSF recebeu mais de 950 pacientes em suas instalações de tratamento de cólera no Chade desde que o primeiro caso foi registrado, em 14 de agosto, até o dia 12 de novembro. Em todo o país, o Ministério da Saúde Pública registrou 1.186 casos e 73 mortes ao longo do mesmo período de tempo. Inicialmente, os casos foram concentrados na região de Sila, próximo à fronteira oriental do Chade com o Sudão, até o primeiro caso suspeito ser registrado em Salamat, no dia 11 de setembro. De acordo com o Ministério, houve 432 casos e 52 mortes na região de Sila, onde MSF criou três UTCs e um ponto de reidratação oral.

O Ministério da Saúde Pública declarou uma epidemia de cólera nas regiões Sila e Salamat em 18 de setembro. À medida que os casos diminuíam em Sila, MSF repassou suas atividades ao Ministério de Saúde Pública e redirecionou seus recursos para o sul de Am Timan, onde os casos estavam em ascensão. O centro de tratamento de cólera de MSF em Am Timan recebeu 519 casos entre 22 de setembro e 14 de novembro, resultando em três mortes.

MSF, que está no Chade há mais de 35 anos, mantém um projeto em Am Timan, no qual apoia o hospital distrital e centros de saúde da região, principalmente em pediatria e saúde materna. Na região do Lago Chade, MSF também apoia um hospital regional e oferece cuidados de saúde primária às populações deslocadas por meio de inúmeras clínicas móveis. Em Moissala, na região sudoeste de Mandoul, MSF realiza campanhas sazonais de prevenção da malária.
 

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