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A Caixa de Pandora da desnutrição, epidemia e doenças se abre na República Centro Africana

26/02/2007
Em entrevista, o chefe de missão Alfonso Verdú Pérez fala sobre a situação no país e as dificuldades que MSF enfrenta para levar assistência de saúde aos necessitados

Em agosto de 2006, Médicos Sem Fronteiras começou a trabalhar na região de Ouham, no norte da República Centro-Africana. As equipes de MSF oferecem assistência de saúde primária e secundária em Kabo e Batangafo e nas redondezas. Alfonso Verdú Pérez, chefe de missão de MSF na região, conta como está a situação no país.

Em dezembro de 2006, equipes de MSF contabilizaram 36 vilarejos parcialmente ou totalmente destruídos na estrada entre Kabo-Batangafo e Kabo-Dékoa. Como é a vida da população local?

A violência na região, principalmente a destruição por incêndio das casas em ambos os eixos, significa que muitas pessoas fugiram para o 'mato'. Não sabemos o que a palavra 'mato' significa, mas testemunhos de pessoas que encontramos nos dão uma clara idéia: 'Nós estamos vivendo como selvagens', 'Nós perdemos nossa dignidade', 'Estamos comendo o mesmo que os animais'.

O que está acontecendo aqui constitui uma crise humanitária. As pessoas que temos contato foram afetadas primeiro por fogo cruzado e agora estão presas entre acusações de serem pró-rebeldes (então não podem viajar para os principais vilarejos e ter acesso aos serviços de saúde ou até mesmo voltar para as próprias casas para reconstruí-las), ou pela ameaça de soldados rebeldes (que roubam seu escasso estoque de comida e tomam as poucas posses que eles ainda têm).

Ainda assim, quando as equipes de MSF chegam nas clínicas móveis para os encontros pré-marcados, nós vemos comida ou bicicletas abandonadas nas estradas. Elas pertencem aos civis que fugiram pensando que o Exército estava chegando para atacá-los novamente. O número de cidades-fantasma aumentou agora em ambas regiões. É o Reinado do Medo. Essas pessoas realmente vivem entre a cruz e a caldeirinha, em uma espiral constante de violência que está os levando ao limite.

Nessa área, o número de vilarejos queimados por grupos armados e pelo Exército da República Centro Africana aumentou nos últimos meses, fazendo com que milhares de pessoas fugissem para o mato. Quais são suas necessidades mais urgentes?

Após sobreviver por vários meses sob as condições mais extremas, o instinto de sobrevivência das pessoas está começando a entrar em colapso. Por exemplo, nós já sabemos que os estoques de comida, que as famílias costumam esconder para poder usar após episódios violentos, já acabou ou foi roubado por grupos armados.

Embora ainda não saibamos quais são os números exatos da desnutrição, nós percebemos um pequeno aumento no número de crianças com desnutrição aguda e moderada. A falta de distribuição de comida no passado, pequena ou nenhuma liberdade de movimento, a falta de qualquer forma de transporte comercial e muitos outros fatores levaram à vulnerabilidade da situação de segurança alimentar.

Isso ficou ainda pior devido à grande presença da malária: cerca de 70% das crianças com menos de cinco anos têm o mal. Quase 40% dos adultos sofrem dessa doença que, quando associada à desnutrição, representa um grande perigo para suas vidas.

Doenças resultantes das atuais condições de vida na floresta são recorrentes: infecções respiratórias, parasitas e diarréias são conseqüência da falta de abrigo, de água potável ou condições de vida extremamente ruins.

MSF encerrou a distribuição de itens de necessidade básica em janeiro. Mas de nenhuma forma isso é suficiente e mais mosquiteiros, kits de higiene e lonas plásticas são necessidades urgentes. Por fim, mas não menos importante, esse cenário é o ambiente perfeito para o surgimento de uma epidemia. Um surto de meningite, que consiste em um ciclo de três anos, é um risco em potencial. Sarampo é outro exemplo. No momento, estamos acompanhando alguns casos de diarréia hemorrágica que descobrimos durante as últimas consultas com as clínicas móveis.

As equipes de MSF enfrentam problemas de segurança e com freqüência não conseguem chegar até os necessitados ou usar as clínicas móveis. Você pode explicar que tipo de dificuldades você enfrenta e o impacto na vida das pessoas a quem você tenta socorrer?

Quando falamos de milhares de deslocados vivendo em condições sub-humanas, as prioridades são uma avaliação independente das necessidades e resposta imediata. Em uma situação de conflito, o acesso deve ser conquistado e negociado todos os dias. Na RCA, temos que fazer isso a cada hora.

No mês passado, fomos forçados a cancelar mais de seis clínicas móveis em três rotas diferentes (Batangafo - Kabo, Kabo - Ouandago e Kaga Bandoro - Oundago) quando as autoridades militares na área não deram garantia de segurança para que entrássemos nas áreas rurais, ou quando nossa análise de risco indicou ameaça a nossa segurança. No entanto, nas últimas duas semanas o acesso melhorou consideravelmente. Todas nossas clínicas móveis estão funcionando novamente (oito por semana) e nós pudemos até expandir nossas atividades, pondo para funcionar uma nova clínica móvel e abrimos uma nova rota (Batangafo - Kaga Bandoro).

Os níveis de violência fazem com que essa parte da RCA seja uma área impenetrável para a maior parte das organizações humanitárias. Reabrir centros de saúde nas rotas da área rural é muito difícil nesse clima de violência. A única opção é implementar um circuito regular de clínicas móveis, como MSF está fazendo.

Composto por vários médicos e enfermeiros, as clínicas móveis são a única maneira possível de oferecer assistência à população, que como disse antes, não tem acesso aos centros de saúde nos vilarejos, uma vez que são acusados de ser pró-rebeldes, nem podem usar o sistema de saúde, uma vez que foi completamente destruído.

Nossas clínicas móveis realizam uma média de 150 consultas por dia e a maioria das pessoas que tratamos está em uma situação extremamente vulnerável. Por exemplo, mais de 500 curativos foram feitos no mês passado, a maioria deles relacionados às difíceis condições de vida.

Você testemunhou alguma história ou episódio que possa ilustrar a situação pela qual os civis estão passando?

Sim, a história do professor H.J. em um dos pequenos vilarejos que foi totalmente queimado no fim de dezembro do ano passado. Ele começou dizendo que 'este ano acadêmico estava perdido'.

Ele se manteve profissional mesmo nas mais difíceis situações: suas roupas estavam sujas e esfarrapadas. Ele continuou a dizer: 'Não consigo entender por que ninguém está fazendo nada por nossas crianças'.

Foi ele quem me fez entender o significa da palavra 'mato', como citei acima. Ele me disse: "Nós vivemos como animais, como selvagens. Olhe as minhas roupas: eu perdi a minha dignidade".

H.J. é um dos líderes da comunidade. Quando ele andava em minha direção, olhou a sua volta para os outras oito pessoas que representam o vilarejo. "Nós vivemos no mato, em grupos de famílias. Quando o medo chega até nós, nós nos reagrupamos em aglomerados de 20, 40 pessoas, deitados no solo".

Foi uma situação muito delicada e é por isso que perguntei a ele de onde vem esse medo, depois que o encontro acabou.

'Antes, nós só temíamos a FACA – o Exército, mas descobrimos quando, quem e como eles chegam às áreas onde estamos, então evitamos encontrá-los. Agora isso é difícil porque não é só a FACA, mas também os grupos rebeldes que vêm até onde estamos e perguntam quanta comida e dinheiro temos. Se não dermos o que querem, eles batem. Cada vez mais forte', me contou.

H.J. ressaltou seu medo com relação ao futuro: 'Estou muito preocupado com os próximos meses, uma vez que não podemos trabalhar em nossas colheitas e não temos mais nenhuma comida disponível. Agora, comemos apenas frutas e mel.

H.J. tem oito filhos, com idades entre seis meses e nove anos.

"No mês passado, 15 pessoas morreram no meu vilarejo por causa da diarréia. Você pode vir contar as sepulturas comigo, se quiser".

O que você pensou quando viu um vilarejo incendiado?

Primeiro, não entendi o que vi. Você pensa que foi escolha dos moradores deixarem o vilarejo, que quiseram morar em outro lugar. Quando você entende que isso é resultado da violência contra essas pessoas, não há como aceitar isso, mesmo se você já esteve em outras situações de conflito. Você nunca se acostuma com isso.

Estamos falando de vilarejos, geralmente com menos de 300 pessoas, perfeitamente integradas a meio em que vivem, com uma maneira de viver muito pobre, mas funcional. De repente, tudo se transforma em fogo e fuga, abrindo a caixa de Pandora da desnutrição, epidemia e doenças.