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Caçando barbeiros com o celular

07/11/2016
MSF desenvolve aplicativo para exterminar o inseto transmissor da doença de Chagas
Caçando barbeiros com o celular

Foto: MSF

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) deu início, em três municípios do departamento de Narciso Campero, na Bolívia, a um sistema central de informação chamado “eMOCHA”, um avanço tecnológico que permite reportar por SMS a localização de “barbeiros”, insetos transmissores da doença de chagas, a fim de que eles sejam eliminados de forma rápida e eficaz.

Controle vetorial do inseto barbeiro: atividade é apoiada por MSF em Narciso Campero, na Bolívia (Foto: Juan Renau / MSF) Com o desenvolvimento dessa plataforma, que utiliza tecnologia móvel e sistema de posicionamento global (GPS), é possível saber em tempo real o lugar onde os insetos são localizados. A partir de qualquer ponto, com um telefone celular, é possível enviar uma mensagem gratuita para o eMOCHA, que registra as moradias com barbeiros para que o sistema programe a visita de um técnico que, além de fumigar o local, fornecerá informações que contribuam com a vigilância e o controle vetorial na região. Isso representa um grande avanço se considerarmos que, anteriormente, somente a notificação da existência do inseto podia levar até um mês.

O projeto-piloto começou a funcionar com bons resultados e a intenção é que ele seja implementado em outras zonas, e que, inclusive, possa ser usado para o acompanhamento de outras doenças. A implementação desse aplicativo faz parte do modelo de atenção integral posto em prática por MSF para combater à doença em colaboração com o Ministério da Saúde a partir de 2015.

Trabalhando com o modelo de atenção integral, profissionais de MSF têm demonstrado que é possível diagnosticar e tratar pacientes de Chagas em áreas rurais desde a atenção primária, inclusive nas zonas mais afastadas dos centros municipais. No município de Monteadugod, em Chuquisaca, equipes de MSF realizaram atividades comunitárias de formação e sensibilização, oferecendo apoio técnico às equipes sanitárias de 17 centros de saúde, tanto no diagnóstico da doença, que inclui o uso de testes rápidos que permitem detectar pacientes positivos de forma eficaz, como no tratamento e na assistência a complicações adversas.

Graças ao trabalho conjunto, 3.284 pessoas foram examinadas em 2015, e, das 1.165 detectadas com a doença, 223 iniciaram o tratamento. Neste ano, até o mês de agosto, 3.096 pessoas foram examinadas, confirmando 673 casos da doença, e 393 desses pacientes já começaram o tratamento. Tendo em conta que cerca de 30% da população desenvolve complicações cardíacas, MSF realizou também a doação de sete equipamentos de eletrocardiograma e cinco de fumigação, além de ter conduzido 1.720 testes rápidos de diagnóstico. 

MSF está presente na Bolívia há três décadas, sendo que há 15 anos concentra esforços na atenção à doença de Chagas. Em projetos de MSF, mais de 7 mil pacientes receberam tratamento, ao mesmo tempo em que atividades de prevenção e controle de barbeiros foram realizadas nas zonas mais desfavorecidas do país, que contam com a maior prevalência de doença de Chagas no mundo.

De acordo com dados da Coligação Chagas, estima-se que 6,1% da população boliviana, mais de 600 mil pessoas, vivam com a doença e que outras 500 mil pessoas estejam em risco de contraí-la. De acordo com dados do Programa Nacional de Chagas (PNCH), durante o ano de 2015 foram diagnosticadas 23.717 pessoas com a doença, das quais apenas 10% iniciaram tratamento. As equipes de MSF na Bolívia lutam para garantir o máximo de atenção integral à doença, incluindo suas complicações. Com essa finalidade, elaboraram, junto ao Ministério da Saúde, um manual que colhe os resultados da experiência de implementação desse modelo, para que ele possa ser utilizado como referência em outras regiões endêmicas do país.