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Balcãs: triagem por nacionalidade amplia necessidades humanitárias

27/11/2015
MSF teme deterioração das condições de vida das pessoas, já fragilizadas

Foto: Florian Lems/MSF

Como resultado das novas medidas adotadas pelos governos da Eslovênia, Croácia, Sérvia e Antiga República Iugoslava da Macedônia (FYROM, na sigla em inglês) para permitir a entrada de apenas algumas nacionalidades em seus territórios, centenas de pessoas em trânsito estão retidas nas fronteiras da Grécia, FYROM e Sérvia, com poucas informações sobre seus direitos e atuais perspectivas, e com acesso insuficiente à assistência humanitária. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) está preocupada com as consequências médicas e humanitárias dessas novas políticas fronteiriças e pede aos governos dos países europeus e dos Balcãs Ocidentais que cumpram com suas obrigações de proteção e permitam que organizações humanitárias ofereçam assistência adequada àqueles que precisam.

Equipes de MSF estruturam abrigo contra o frio para refugiados retidos na fronteira da Sérvia com a Croácia (Foto: Florian Lems/MSF)“A situação já estava dramática antes de essa triagem arbitrária ser colocada em prática”, diz Stefano Argenziano, coordenador das operações de MSF sobre migrações. “Nós temos demandado há meses medidas concretas por parte das autoridades para garantir chegadas seguras e legais àqueles em necessidade. Não só não vimos resposta suficiente, mas a capacidade de atores humanitários para oferecer abrigo e apoio a essas pessoas é muitas vezes limitada por bloqueios impostos por autoridades nacionais e locais.”

Grécia

A situação é particularmente tensa no acampamento de trânsito de Idomeni, onde cerca de 1.500 pessoas – quase todas de nacionalidades que estão sendo impedidas de cruzar a fronteira – estão sendo mantidas na fronteira com a FYROM, sem informações sobre os próximos passos e recebendo alimentos apenas de organizações voluntárias. Todos os dias, novos ônibus chegam e os números devem aumentar significativamente nos próximos dias. MSF estabeleceu 12 tendas de médio e grande portes que estão oferecendo abrigo a cerca de 900 pessoas, e a organização está pronta para aumentar a capacidade com a estruturação de outras oito tendas. Esse escalonamento da assistência humanitária está sendo, atualmente, desafiado pelas autoridades nacionais e locais.

Equipes médicas estão trabalhando sete dias por semana e já observaram um aumento das necessidades de saúde de grupos de pessoas que estão ali encurraladas. Nossos psicólogos notaram, e têm testemunhado diariamente, em especial, um aumento do número de ataques de pânico e tentativas de autoflagelação, consequências diretas das condições nefastas na fronteira e incertezas constantes acerca de seus futuros.

“A maioria dessas pessoas vivenciaram jornadas longas e árduas para chegar até aqui, tendo que, frequentemente, arriscar suas vidas e perder tudo o que tinham”, conta Antonis Rigas, coordenador de projeto de MSF em Idomeni.

Sérvia

Refugiados chegando à Sérvia pela fronteira com a Macedônia (Foto: Florian Lems/MSF)Em Presevo, a 10 km da fronteira com a FYROM, dezenas de pessoas foram privadas de entrar no centro de registro devido as suas nacionalidades e tiveram de passar a noite do lado de fora, sujeitas às baixas temperaturas. Entre elas, havia mulheres, incluindo uma gestante do Afeganistão que não tinha documentação.

Na cidade de Sid, na fronteira com a Croácia, cerca de 350 pessoas foram impedidas de seguir adiante após a implementação da nova política. Algumas contaram que chegaram a cruzar a fronteira para a Croácia, mas a polícia as obrigou a voltar para a Sérvia. Diversas pessoas demonstraram sinais de abuso e reportaram à equipe de MSF que haviam apanhado, levado chutes e sido ameaçadas pela polícia da fronteira da Croácia.

“Esses novos procedimentos de segregação por nacionalidade podem gerar efeitos dramáticos, e tememos que parte das pessoas em trânsito serão forçadas a se esconderem novamente, onde não haverá acesso a qualquer assistência humanitária”, afirma Stephane Moissaing, coordenador-geral na Sérvia. “Essa política força às pessoas a buscarem rotas ainda mais perigosas e as coloca efetivamente nas mãos dos traficantes, ficando sujeitas a ainda mais violência e extorsões.”

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