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Atravessando florestas africanas com uma geladeira a tira colo

10/05/2013
Equipe móvel de doença do sono de MSF enfrenta desafios para levar cuidados às populações mais afetadas pela doença fatal

Viajar por meio de florestas lamacentas de moto e cruzar grandes rios em pirogas carregando uma geladeira, um microscópio e um gerador não é tarefa fácil. E é isso o que o coordenador de projeto Will Turner e sua equipe farão durante as próximas quatro semanas, esquematizando uma expedição para testar 40 mil pessoas para a doença do sono (tripanossomíase humana africana – THA) em vilarejos remotos da República Democrática do Congo (RDC).


A cidade de Bili, bem ao norte do país, está localizada em uma região densamente florestada entre o rio Uélé e a fronteira com a República Centro-Africana. A região tem alta prevalência de doença do sono, enfermidade fatal transmitida pela mosca tsé-tsé, mas o acesso é tão difícil que o problema foi ignorado por muito tempo. Cerca de 85% de todos os casos de doença do sono do mundo ocorrem na RDC.


“Viemos ao distrito porque ele fica na região onde a doença do sono é mais ativamente endêmica no mundo”, afirma Will Turner. “Mesmo assim, essa doença fatal simplesmente não é combatida aqui, devido à insegurança e ao difícil acesso à região.”


No início de abril de 2013, a equipe móvel de doença do sono de MSF instalou um laboratório e uma ala para tratamento no hospital de Bili e começou a testar as pessoas para a doença. Uma vez que toda a população da cidade havia sido testada, a equipe concentrará esforços nos cerca de 50 vilarejos em meio à floresta dos arredores. As pessoas que forem diagnosticadas com a doença – que é fatal se não for tratada – serão transferidas para o hospital em Bili.


“A equipe vai ficar viajando por cerca de três a quatro semanas seguidas”, afirma Turner. “Por vezes, vão utilizar motocicletas para abrir caminho em rotas praticamente inacessíveis floresta adentro. Vai ser um novo vilarejo a cada dia e a equipe dormirá em tendas. Assim, esperamos identificar e curar centenas de pacientes infectados.”


Os desafios logísticos são enormes. Pode levar um mês até que os suprimentos cheguem a Bili. Pequenos aviões, pousando em pistas improvisadas nas florestas, podem transportar uma quantidade limitada de suprimentos por vez. Caminhões carregados têm de cruzar rios em jangadas, à medida que as estradas lamacentas estão, frequentemente, bloqueadas por árvores derrubadas. Durante a estação das chuvas, muitos dos vilarejos tornam-se completamente inacessíveis.


Além disso, o teste para a doença do sono é complexo: diversos dos componentes precisam ser mantidos permanentemente resfriados e, por isso, é preciso ter em mãos, também, um gerador e uma geladeira, mesmo nas regiões mais remotas. Para realizar o diagnóstico, técnicos de laboratório experientes precisam utilizar ferramentas um tanto sensíveis, como microscópios e centrifugadoras, que também precisam ser transportados pela floresta.
Mas a equipe móvel de doença do sono está preparada para tais desafios, tendo realizado projetos semelhantes no Sudão do Sul, no Chade, na República Centro-Africana, no Congo e em outras regiões da RDC.


Mais recentemente, a equipe passou nove meses no Sudão do Sul, que é, historicamente, outra região onde a doença é prevalente e um país com um sistema de saúde frágil que batalha para superar décadas de guerra civil. A equipe estabeleceu como objetivos os vilarejos da região central e a oeste de Equatoria, onde as taxas da doença do sono estavam elevadas anteriormente. Viajando por milhares de quilômetros, de vilarejo em vilarejo, a equipe testou mais de 60 mil pessoas. Trinta e oito casos foram identificados e tratados, o que significa que houve uma redução considerável da prevalência da doença nessas regiões. Além de realizar testes ativamente, a equipe de MSF também trabalhou para melhorar as técnicas de exames, diagnóstico e tratamento utilizadas nas clínicas do Ministério da Saúde. Mais de 200 profissionais sul-sudaneses foram treinados em monitoramento, exames e tratamento, conhecimento que poderá ser colocado em prática nos próximos anos.


De volta a Bili, Turner e sua equipe esperam concluir o que foi iniciado quatro anos atrás, quando uma equipe de MSF identificou e tratou 120 pacientes com doença do sono na região em apenas três meses, antes que razões de segurança levassem à interrupção do projeto.
 
A pouco tempo de voo dali, outra equipe de MSF está combatendo a doença do sono nas cidades de Dingila e Ango e redondezas.


“Testando e tratando as pessoas em uma região abrangente, salvamos vidas, prioritariamente, mas também reduzimos a prevalência da doença”, diz Turner. “Cada pessoa tratada é um passo na direção certa.”


Mas o terreno complicado, o pacote complexo e a insegurança regional não são os únicos desafios. “Até que tenhamos ferramentas mais simples e adaptadas para diagnóstico e tratamento, das quais os programas nacionais possam depender, erradicar a doença vai continuar sendo uma tarefa hercúlea”, conclui Turner.

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