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“Atendemos pacientes que precisavam de cuidados médicos havia pelo menos duas semanas”

28/10/2016
Em entrevista, a médica canadense Danielle Perriault fala sobre as maiores dificuldades enfrentadas pela população e pelas equipes de MSF nas regiões do Haiti mais afetadas pelo furacão Matthew
 “Atendemos pacientes que precisavam de cuidados médicos havia pelo menos duas semanas”

Foto: Andrew McConnell/Panos Pictures

Danielle Perriault é médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) e trabalha no Haiti, depois da passagem do furacão Matthew, atendendo à população que vive em zonas remotas.

“Na quarta-feira da semana passada, nossa clínica móvel se dirigiu a Lopineau, um povoado nas montanhas do sul do Haiti ao qual só é possível chegar de helicóptero. Da mesma forma que a maioria das localidades da região de Grande Anse, o furacão deixou um rastro de destruição na região. As ruas estão cercadas de árvores caídas e escombros, e o vale está coberto de troncos partidos ao meio. A única coisa mantida de pé são os restos de uma fachada vermelha e branca da igreja, além do centro de saúde, que sobreviveu ao furacão e serviu de refúgio para as pessoas do povoado.

A maior parte dos equipamentos que levamos são para tratar ferimentos abertos e infectados, fazer curativos ou vacinar contra o tétano. Como é época de chuvas, os voos de helicóptero também sofrem restrições, de modo que nosso tempo no povoado é sempre limitado. Além disso, o trajeto até uma localidade pelas estradas danificadas pode durar mais que duas horas só de ida, o que reduz nosso tempo de atendimento aos pacientes. Temos que trabalhar o mais rápido possível. Naquela quarta-feira, tratamos 58 pacientes, mas houve dias em que atendemos até 90 pessoas somente até a metade do dia. A nossa prioridade é o tratamento de ferimentos abertos, fraturas e urgências pediátricas.

Há pessoas que tinham ferimentos e ossos quebrados há mais de duas semanas, e não haviam recebido qualquer tipo de atenção médica. As fraturas, sejam elas simples, múltiplas ou abertas, às vezes são imobilizadas por curandeiros tradicionais. É possível imaginar o sofrimento das pessoas que ficaram tanto tempo sem cuidados médicos. Além disso, há muitas pessoas às quais ainda não conseguimos chegar.  

Há alguns dias chegamos a um povoado. Um padre era a única pessoa que podia nos receber no centro de saúde, já que todas as enfermeiras haviam ido embora antes do furacão. Naquele dia, muitas pessoas esperavam para receber atendimento médico. Estávamos tão concentrados em tentar atender todos os pacientes que, no fim, pedi ao sacerdote que nos ajudasse a colocar gesso em uma perna quebrada.

A falta de alimentos se soma ao trauma que o paciente já sofre. Há alguns dias atendi uma mulher idosa com queimaduras graves nas mãos. Como ela não quis tomar uma injeção para a dor, tentei distraí-la falando de sua família. Ela me contou que tinha perdido os dois filhos e agora era a única pessoa que poderia cuidar dos netos. Sua única preocupação durante o tratamento era a situação que a aguardava quando ela saísse da clínica: ela iria para casa e não teria comida para alimentar os netos.”

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