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As armadilhas deixadas pela guerra na Síria

13/04/2018
Atendidas no hospital de MSF em Hassakeh, duas famílias relatam o sofrimento de crianças sendo atingidas por minas deixadas em suas casas.
As armadilhas deixadas pela guerra na Síria

Foto: Louise Annaud/MSF

- Cinco irmãs: “olhe para Sedar! Ela está sem as pernas!”

Humaid, de 45 anos, vem de Dhiban, em Deir ez-Zor. Ele tem duas esposas e dez filhos, incluindo Sedar, de 4 anos; Dumua, de 5; Butul, de 6; Arimas, de 9; e Lamis, de 13, que foram gravemente feridas por uma armadilha explosiva:

“Nós fugimos de Dhiban por causa dos confrontos. Quando a situação se acalmou, voltei sozinho para verificar a nossa casa e não encontrei nenhum dispositivo suspeito, então trouxe minha família.

Dois meses depois, eu estava dirigindo meu carro quando um dos meus sobrinhos correu até mim e me disse que cinco das minhas filhas foram hospitalizadas após uma explosão. Elas estavam brincando e ajudando a separar lenha no terraço quando algo escondido atrás de um rolo de lã explodiu e quase as matou.

Eu corri para uma clínica e o que vi partiu meu coração. Os enfermeiros não sabiam como lidar com a situação. Eles até fizeram a transfusão do tipo sanguíneo errado em uma delas. Em algum momento eu tive que gritar com um dos médicos: 'por favor, faça alguma coisa!'. Minha filha estava morrendo e só então ele tirou sua jaqueta e amarrou na perna dela. Antes da guerra, tínhamos médicos qualificados, mas todos fugiram por causa dos combates.

Depois de prestar alguns primeiros socorros e fazer duas operações, eles disseram que podíamos levar as meninas para casa, mas decidi levá-las para Hassakeh. Todos nos ajudaram e preparamos dois carros para isso. Infelizmente, um deles quebrou no meio do caminho, então demoramos mais de quatro horas para chegar até aqui e já tinha anoitecido. Não tivemos problema no posto de controle, já que eles viram que era uma emergência. Meu irmão ouviu falar sobre esse hospital na entrada da cidade. Nós não sabíamos que o atendimento era gratuito nem sabíamos que havia uma organização como Médicos Sem Fronteiras apoiando.

Olhe para Sedar! Ela está sem as pernas! Ela está confusa e diz que às vezes ainda sente dores em seus pés. Ela chora. Os médicos aqui estão ajudando muito Sedar e minhas outras filhas. Caso contrário, eu as teria levado para Damasco. Eu faria o impossível por elas.

Estamos hospedando uma família de pessoas deslocadas em nossa casa. Graças a Deus nada aconteceu com eles.

Antes, se alguém precisasse de cuidados de saúde, poderíamos ir a um hospital em Al-Mayadin ou a uma das clínicas particulares. Quando o Estado Islâmico chegou, eles fecharam nossa cidade e ninguém foi autorizado a sair. Eles pressionaram muito os médicos, até que eles fugiram. A partir daquele momento, se alguém adoecesse, seus parentes tinham que ter medicamentos ou morreriam. Hoje, muitas instalações estão destruídas pelos ataques aéreos ou simplesmente fechadas. Algumas reabriram e oferecem atendimentos de várias especialidades, mas sem os equipamentos adequados.

Eu tenho um terreno em Dhiban. Se MSF quiser construir uma clínica lá, eu posso cedê-lo.


Por favor, façam algo sobre as minas. Removam-nas. Precisamos salvar nossas crianças."

O incidente que feriu as meninas aconteceu no dia 5 de fevereiro e elas tiveram alta do hospital no dia 13 de março. A filha mais velha teve uma de suas pernas parcialmente amputada devido à gravidade dos ferimentos.


- Cinco irmãos e primos: "eles estavam apenas brincando com bolinhas de gude"

Leila*, de 45 anos, vem de Kubar, em Deir ez-Zor. No dia 9 de março, cinco de seus sobrinhos estavam cuidando das ovelhas em uma área agrícola quando uma mina explodiu. Eles chegaram ao hospital apoiado por MSF em Hassakeh cinco horas depois, trazidos por seus parentes. Um dos meninos, Nabil*, de 5 anos, já estava morto. Outro, Khaled*, de 10 anos, teve um traumatismo craniano grave e estava com uma fratura no crânio. Seu irmão Ali*, de 12 anos, sofria com uma lesão abdominal crítica e precisava de uma laparotomia urgente. Marwan*, 8 anos, e Redhwan*, 13 anos, tiveram pequenas feridas devido aos estilhaços.

“Parecia o som de um ataque aéreo. Foi muito forte. Todos nós escutamos. Muitos de nós corremos para ver o que tinha acontecido. Eu não conseguia acreditar. Eles estavam apenas brincando com bolinhas de gude.

Minha família tem um carro. Nós os colocamos no banco de trás e os levamos à clínica de Hawas, a cerca de 15 quilômetros de Kubar. Não fomos à clínica de Al-Kasra porque não há médicos e quase nenhum enfermeiro. Ou pelo menos foi o que ouvimos falar. Eles não têm equipamentos adequados, então só podem tratar feridas simples. Eles não teriam a capacidade de lidar com os ferimentos dos meus sobrinhos. Soube que eles estão reconstruindo o hospital público, mas eles só começaram a pintar as paredes.

Depois dos primeiros socorros, alguns curativos e a terapia intravenosa nas crianças, um de seus tios os levou para Hassakeh e eles chegaram aqui às 7 ou 8 horas da noite. Ele sabia sobre esse hospital que é gratuito e tem médicos estrangeiros. Nós os seguimos em um carro alugado. Pagamos 27 mil libras sírias (cerca de 180 reais) pela viagem.

Uma das crianças não sobreviveu à explosão. Que Deus nos ajude com as restantes.

Duas das crianças são órfãs. O pai delas morreu há 10 anos de uma doença e elas vivem com a mãe e a família de seus irmãos. Um par de cabras e uma ovelha: é basicamente tudo o que eles têm, e uma casa feita de cimento e lama. A vida não está sendo fácil para eles e agora acontece isso.

Ouvimos sobre a ocorrência de 10 incidentes semelhantes ultimamente. Algumas das pessoas morreram no local. Quando fugimos, a cidade foi minada pelo Estado Islâmico. Não dentro das casas, mas, principalmente, perto dos portões de entrada. A maioria delas é coberta, então, por via das dúvidas, todos nós tentamos ter uma atenção extra.

 Kubar tem estado calma nos últimos cinco meses. Nós escapamos quando a violência começou e passamos cerca de 20 dias fora, mesmo quando os confrontos duraram apenas uma semana. Aqueles que não tinham carros fugiram a pé, de burro e até mesmo com vacas. Alguns foram para Abu Khashab, outros para Serwan. Os meninos ficaram com parentes em Jazra e eu em Sabag.

Os últimos anos foram como a morte. Nós não temos liberdade. Para ir a Damasco por motivos médicos era preciso deixar a casa como garantia. Os médicos que não fugiram tratavam os pacientes, mas com muitas limitações. Todas as escolas foram fechadas. Fumar era proibido e alguém poderia ser executado por um pequeno delito. Ser decapitado por nada.

Precisamos que organizações especializadas venham remover as minas. Já estamos em março, é primavera. Temos medo que ocorram mais explosões, mas realmente precisamos mover nossas ovelhas para que pastem nos campos.”


Todos os meninos sobreviventes tiveram alta do hospital após uma semana, exceto o que teve traumatismo craniano. Ele passou por uma neurocirurgia em uma unidade de saúde mais especializada e também poderá voltar para casa logo.


* Nomes foram alterados
 

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