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Alívio diante de um futuro incerto

01/02/2016
Após deixar o Afeganistão e enfrentar várias dificuldades, refugiado hoje assiste outros migrantes vulneráveis como mediador cultural de MSF

Foto: Sara Creta/MSF

Jamal Afshar, de 34 anos, é um refugiado do Afeganistão que hoje atua como mediador cultural da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no centro de recepção de Gorizia, na Itália, na fronteira com a Eslovênia. Ele conta as dificuldades que enfrentou após deixar seu país de origem e o trabalho com MSF.

Durante os últimos anos, eu tive de enfrentar muitas dificuldades: fui repatriado duas vezes na Grécia, fui expulso outras vezes e tive de viver em um centro de detenção. Também passei alguns dias em acampamentos de refugiados na França, na Inglaterra e na Grécia, então, eu entendo os medos e os problemas das pessoas como eu, que se encontram nessa situação de futuro incerto. A primeira vez que cheguei a Itália em 2005, foi apenas de passagem, antes de partir para a Inglaterra. Hoje, depois de me deparar com a morte várias vezes e ter experiências muito difíceis, me foi concedida proteção internacional. Estou feliz por trabalhar para MSF como mediador cultural e por oferecer uma recepção calorosa e moradia adequada para solicitantes de asilo que chegam em busca de abrigo, alimentação, cuidados médicos e proteção.

 

Quando você começou a trabalhar para MSF?

Profissional de MSF fala com migrantes sobre sua jornada pelos Balcãs (Foto: Sara Creta/MSF)Eu comecei na Sicília, prestando primeiros socorros psicológicos aos recém-chegados com um grupo composto por um psicólogo e um mediador cultural. Eu conheci os sobreviventes que fizeram a travessia por mar, pessoas extremamente traumatizadas pelos momentos perigosos que enfrentaram durante a jornada. No início, não foi fácil absorver a dor das pessoas. Por vezes, eu não conseguia conter minhas lágrimas.

Eu senti emoções muito fortes, mas fiquei feliz em poder ajudar as pessoas que precisavam de apoio e informação, assim como eu quando cheguei a Itália pela primeira vez em 2005 e estava cansado, frágil e confuso, como eles. Hoje, meu trabalho é uma grande oportunidade de ajudar pessoas em necessidade, assim como eu.

 

Você pode nos contar um episódio em particular que tenha te emocionado durante seu trabalho como mediador cultural?

Em Palermo, neste verão, eu conheci e apoiei um nigeriano que perdeu sua esposa durante a viagem; ele estava vivo, mas completamente imóvel. Ele não conseguia comer nem andar. Eu fiquei muito próximo dele, sabia que ele estava sentindo muita dor, mas falei para ele ser forte e o aconselhei a compartilhar sua dor com os outros. Ele não conseguia nem reconhecer o corpo de sua parceira. Seu coração estava partido.

 

Durante seu trabalho como mediador cultural de MSF, o que os refugiados perguntam a você? Quais são as preocupações deles?

Um dos migrantes no novo centro de recepção de MSF em Gorizia, na Itália (Foto: Alessandro Penso)A maior preocupação deles é com relação ao seu futuro. Eles estão confusos, alguns deles têm necessidades médicas, outros querem ir para outro lugar para reencontrar a família, pedem conselhos. Você pode ver nos olhos deles que eles estão preocupados; eles estão confusos porque não sabem como o sistema funciona. Eles estão com medo. Eu também tive medo de morrer durante a minha viagem. Eu fiquei com medo de me afogar quando atravessei o Mar Egeu, ou quando fiquei escondido debaixo de um caminhão entre a França e a Inglaterra por três horas. Eu lutei para sobreviver com a neve no meu rosto, entrelaçando minhas mãos em volta do tubo que ligava as rodas. Mas, finalmente, eu consegui chegar à Inglaterra.

 

O que você acha que a Europa deveria fazer?

Há um lado europeu disposto a abrigar, mas, infelizmente, também existe a União Europeia que fecha os olhos para os abusos nas fronteiras. Um tratamento humano igualitário e uma proteção digna deveriam ser a prioridade, e a Europa deve oferecer isso. Eu também sofri violência e abusos. Na Turquia, a polícia me humilhou enquanto eu estava muito doente. Em Istambul, eu fiquei preso na casa de um traficante por 20 dias. Tentei fugir e eles me bateram e me torturaram, colocando whisky dentro do meu nariz. Na Grécia, eu fugi porque não queria ser identificado. Fui agredido e forçado a deixar minhas digitais, mesmo que não quisesse. Depois, fiquei detido em um centro de identificação e expulsão. Eles me disseram que eu tinha que deixar o país.


Por que você acha que a sua presença é importante aqui?

As pessoas têm à frente delas um exemplo positivo de integração, e isso as tranquiliza e as faz sentir mais confortáveis. Eu também passei por diferentes países e foi muito difícil porque eu nunca conheci alguém que estava disposto a fazer um esforço para me fazer entender o contexto. Ninguém explicava o que estava acontecendo comigo, eu sempre tive que achar o caminho, sozinho, por meio dos meus amigos que estavam aqui. É crucial ter alguém que fale a sua língua, entenda a sua situação, que te acalme durante o processo. Estar aqui é um novo desafio para mim. Eu posso encorajar e apoiar essas pessoas que vêm até aqui. Eu também, assim como eles, apesar dos obstáculos em meu caminho, sempre tentei ser forte e alcançar meus objetivos.

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