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Aleppo, Síria: “As pessoas estão com medo de ir a hospitais”

15/08/2016
Depoimento de médico sírio que coordena hospital apoiado por MSF no leste de Aleppo
Aleppo, Síria: “As pessoas estão com medo de ir a hospitais”

Foto: Unknown Staff

“Nós oferecíamos muitos serviços neste hospital – cirurgia, pediatria, terapia intensiva, medicina interna. Mas os bombardeios que aconteceram no leste de Aleppo no último mês nos forçaram a priorizar os pacientes feridos na guerra, que representam quase 80% do nosso trabalho nas últimas semanas.

(Foto: MSF)Antes de a região ser sitiada, os hospitais atendiam entre 8 e 10 mil pacientes por mês; esse número foi reduzido à metade no início do mês de julho. Além disso, a maioria dos pacientes passou a ser de feridos na guerra, com um número significativo de internados e de emergências pediátricas.

Um dos principais problemas nos hospitais é que as unidades de terapia intensiva (UTIs) estão sobrecarregadas. Alguns pacientes são forçados a ficar nos centros cirúrgicos porque não há espaço na UTI. Ventiladores e purificadores de oxigênio frequentemente param de funcionar por causa da sobrecarga. Recentemente, dois pacientes morreram porque o purificador de oxigênio parou de funcionar direito.   

O hospital foi atingido três vezes por bombardeios. O incidente mais grave foi no meio de julho, quando o hospital foi forçado a fechar por cerca de dez dias. A maioria dos setores foi afetada e nós trabalhamos muito para reparar tudo o que pudéssemos. No dia 3 e depois no dia 6 de agosto, bombardeios próximos ao hospital prejudicaram novamente as instalações. O hospital está funcionando no momento, mas só é possível atender os casos mais urgentes.  

As pessoas estão com medo de procurar os hospitais. Elas os veem como potenciais alvos. Agora, elas só vêm até nós se é um caso de emergência absoluta.

As equipes médicas estão sofrendo no leste de Aleppo. Com a grande quantidade de pacientes, cada médico tem uma carga que trabalha de dois profissionais. Eles atendem muitos feridos a cada dia. Além disso, como o resto das pessoas os funcionários de saúde têm dificuldades provocadas pela falta de alimentos, combustível e várias outros itens básicos.

Os poucos hospitais que sobraram na cidade são essenciais para que as pessoas sobrevivam. Sem eles, o resultado seria uma morte lenta. Esperamos de verdade poder ver uma rota segura que permita que equipes médicas retornem à cidade e que alimentos e suprimentos médicos sejam entregues na região.”

O dr. Hussein é coordenador de um hospital apoiado por MSF no leste de Aleppo, onde também trabalha como pediatra. Ele saiu de Aleppo para celebrar o Eid Al Fitr (celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadã) fora da cidade, mas não consegue voltar desde que a última estrada que levava ao leste de Aleppo foi bloqueada, em julho. Ele espera poder voltar ao hospital o mais rápido possível para poder continuar oferecendo cuidados e atendimento.

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