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Ajudando as mulheres do Mali a darem à luz em segurança

09/03/2018
MSF oferece atendimento médico gratuito para mulheres em diferentes regiões do país
Ajudando as mulheres do Mali a darem à luz em segurança

Foto: MSF

Em 2017, na região norte de Ansongo, prestamos assistência médica em mais de 1500 nascimentos e oferecemos 2.776 consultas maternas. Em Douentza, no centro do Mali, 442 mulheres receberam assistência durante o parto.

"Não está certo uma mulher morrer enquanto cria outra vida. Devemos fazer tudo o que pudermos para ajudar as mulheres prestando assistência médica durante os partos", diz Mamadou Keita, especialista em obstetrícia e ginecologia e Referente Médico de MSF em Ansongo.

Jornadas que podem custar a vida de uma mulher

Tala, de 17 anos, vem de uma comunidade nômade a cerca de 100 km da cidade de Ansongo, no leste do Mali. Ela viajou por dois dias em condições difíceis para chegar ao Centro de Saúde de Referência em Ansongo, depois de sofrer uma hemorragia e anemia durante o nascimento de seu primeiro filho em casa.
 


No Centro de Saúde de Referência de Ansongo, a mãe de Tala, Tahata, fica ao lado da filha.

"Minha filha ficou mal depois que deu à luz. Ela ficou muito fraca. Ela perdeu muito sangue após o parto. O centro de saúde da comunidade está muito longe da nossa casa, a mais de 50 km. A condição da estrada não é boa e, muitas vezes, temos medo do que pode acontecer no caminho.

Ela teve que dar à luz em casa, como a maioria das mulheres que dão à luz em nossa comunidade. Como ela não estava se recuperando, usamos tratamentos e remédios tradicionais para cuidar dela, mas eles não funcionaram. Foi então que decidimos trazê-la para o centro de saúde em um carrinho, sozinhas, porque os homens estavam nos campos. Nós trouxemos o bebê recém-nascido conosco.

A jornada durou um dia inteiro e foi muito difícil. No centro de saúde, sua condição piorou. A equipe médica nos falou sobre a presença de MSF no hospital de Ansongo. Pegamos a estrada novamente, ainda no carrinho. Minha filha estava realmente sofrendo com o calor. Felizmente, encontramos um veículo e o motorista concordou em nos levar a Ansongo.

Quando finalmente chegamos, era tarde da noite e minha filha foi hospitalizada. Eles me disseram que ela estava sofrendo uma grave perda de sangue. Lembro-me de me perguntar como eu poderia pagar as transfusões e os cuidados. E então as equipes de MSF fizeram algo incrível: eles salvaram a vida da minha filha, sem me pedir dinheiro, e eu até recebi comida enquanto ficava ao lado do leito. Hoje ela está muito melhor e pode finalmente cuidar do bebê".



Amadou, um fazendeiro, originário de Douentza no Mali, acompanhou sua esposa Awa ao Centro de Saúde de Referência em Douentza. Sua esposa sofria de anemia grave após uma hemorragia que ocorreu quando ela deu à luz prematuramente em sua casa.

"Muitas mulheres no Mali sonham em dar à luz em melhores condições"

Awa sofreu uma hemorragia enorme quando deu à luz prematuramente em casa, sem qualquer assistência médica. Para tentar parar a perda de sangue, seus pais usaram medicamentos tradicionais que não funcionaram. Durante esse tempo, Awa estava sofrendo, incapaz de comer e enfraquecendo rapidamente. Por fim, tornou-se gravemente anêmica. Só depois de 20 dias nessa situação ela foi levada em condição crítica ao Centro de Saúde de Referência em Douentza. MSF tratou Awa sem cobrar nada. Amadou, seu marido, estava com ela.

"Nós somos de Douma, uma aldeia muito distante de Douentza, onde não existe nem um centro de saúde. É por isso que eu trouxe minha esposa Awa aqui, para que ela pudesse ser cuidada. Ela estava grávida pela primeira vez. Como estamos longe do hospital, ela não fez nenhum exame pré-natal. Mas pensamos que tínhamos calculado o tempo de gestação e que ela ainda não estava perto de dar à luz. Um dia, de repente, sentiu dores no ventre.

Esse foi o momento em que percebemos que ela estava a ponto de dar à luz o nosso primeiro filho. Era tarde demais para levá-la ao hospital. E, além disso, não há centros de saúde perto de nós. Foi muito difícil para nós ver o que estava acontecendo: ela perdeu muito sangue e o bebê nasceu morto.

A tragédia ocorreu há 20 dias. Para fazer o sangue parar, usamos medicamentos tradicionais que levaram muito tempo antes de parar a hemorragia. Foi uma melhora, mas Awa ainda não estava bem, ela não tinha apetite, ela estava muito menos vivaz. Esse foi o momento em que sua pele começou a parecer inchada: o rosto, as palmas das mãos, tudo ficou deformado. Buscamos uma maneira de trazê-la aqui. Quando chegamos, ela foi examinada e, de acordo com o conselho dos médicos, ela começou a comer bem e recuperou um pouco sua força".


 
Wanli, de Ansongo, no norte do Mali, segura o bebê de sua sobrinha Aminatou. Aminatou sofreu complicações após o parto em casa. Ela foi hospitalizada na maternidade do Centro de Saúde de Referência em Ansongo.

"Tínhamos medo de sair, de seguir as estradas sozinhas, por causa da insegurança"

Aminatou foi levada à maternidade do Centro de Saúde de Referência em Ansongo, em estado crítico, 14 dias após dar à luz em casa sem qualquer assistência médica. Ela tinha sofrido de eclâmpsia. Sua condição se estabilizou após a intervenção do pessoal de MSF e sua vida já não está em perigo.

 "Tudo começou às cinco horas da manhã quando ela estava tomando café da manhã. Foi nesse momento que começou a eclâmpsia. Ela desmaiou e não conseguia parar de tremer. Buscamos uma maneira de trazê-la aqui para o hospital. Mas estava escuro, então não havia homens para nos acompanhar ao hospital. Tínhamos medo de sair, de seguir as estradas sozinhas, por causa da insegurança.

Na manhã seguinte, nós a trouxemos para o centro de saúde da comunidade onde ela estava tendo consultas durante a gravidez: a última foi três dias antes de dar à luz. Minha sobrinha sofre de complicações decorrentes do parto em casa. Eu sei que partos fora do hospital funcionam às vezes, mas também às vezes podem ter consequências realmente sérias. Mas, devido à insegurança, as mulheres não têm escolha senão dar à luz em casa, especialmente durante a noite. Sabemos as possíveis consequências".

O Dr. Sidiki Amadou é o médico de MSF que tratou Aminatou na sala de emergência da maternidade.

"Graças ao tratamento que recebeu, a eclâmpsia diminuiu. Dar à luz em casa é algo que temos que tentar parar. Acima de tudo para a população de Ansongo, porque muitas vezes há complicações como no caso de Aminatou. A eclâmpsia pode ser fatal. Aminatou mordeu a língua com força enquanto tentávamos estabilizar sua condição crítica. Sem tratamento, ela poderia ter morrido, como muitas outras. Para tentar incentivar o parto em hospitais, com assistência médica, MSF divulga a mensagem entre as mulheres durante suas consultas pré-natais. Também é importante divulgar a mensagem mais amplamente, para tentar sensibilizar a população sobre o problema para que as consequências sejam realmente compreendidas, antes e depois do parto".

"Eu estava realmente preocupado, sem saber se ela iria sobreviver ou não"

Fatoumata é de uma comunidade nômade em Dala, a 5 km de Douentza, no centro de Mali, e é mãe de cinco filhos. Ela estava quase morta quando chegou ao Centro de Saúde de Referência em Douentza. A equipe de MSF a estabilizou.

"Eu acompanhei minha esposa que estava mal. Chegamos às 11 horas da manhã e ela estava completamente inconsciente. Suas dores começaram cerca de três dias antes disso. Ela me dizia que seu tórax estava doendo, mas nós não fomos imediatamente ao hospital para ver o que estava errado. Foi só quando a saúde dela se deteriorou muito que pegamos um moto-táxi para chegar ao hospital aqui em Douentza. Quando chegamos aqui no centro de saúde, ela foi recebida pelos médicos. Ela não estava mais se mexendo. Eu estava realmente preocupado, sem saber se ela iria sobreviver ou não. Várias parteiras levaram-na para um quarto em seus braços e fiquei fora do quarto. Depois de alguns momentos, os médicos me perguntaram se eu sabia o que havia de errado com ela e eu disse que não.

Foi quando eles me disseram que minha esposa estava grávida, de cerca de 5 ou 6 meses. Ninguém na família suspeitava! Nem eu nem ela percebemos que ela estava grávida. Os profissionais de saúde me disseram que sua doença era ligada à gravidez. Agora, sua condição melhorou e ela está acordada. De agora em diante, ela virá aqui para suas consultas de pré-natal".

Aissata Koné, parteira de MSF responsável pela recuperação de Fatoumata na maternidade de Douentza

"Perguntamos aos acompanhantes de Fatoumata se eles sabiam a razão de sua condição e eles nos disseram simplesmente que ela não estava bem. Então, examinamos a paciente e percebemos que estava grávida de cerca de 5 ou 6 meses sem saber, e que ninguém na família sabia disso também. Nós lhes explicamos a importância de ir ao centro de saúde quando sentisse alguma dor. Fatoumata deu à luz em casa numa outra vez e as coisas não correram bem. Felizmente, com esta gravidez atual, conseguimos conversar com ela a tempo de informá-la sobre a importância das consultas de pré-natal".
 

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