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África do Sul: MSF responde à violência xenofóbica no país

07/05/2015
Milhares de imigrantes e refugiados tiveram de deixar suas casas para sobreviver aos ataques

Foto: Greg Lomas

Uma equipe médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) está respondendo às necessidades de saúde das pessoas deslocadas desde o início de ataques xenofóbicos violentos na província de KwaZulu-Natal (KZN), na África do Sul, em abril. A equipe oferece cuidados médicos básicos de acordo com as avaliações das necessidades em três acampamentos de deslocados internos, abrigando mais de 5 mil pessoas em torno da cidade costeira de Durban. Uma segunda equipe conduzirá, em breve, avaliações semelhantes na região de Ekurhuleni, próximo de Joanesburgo.

A equipe de seis pessoas em KZN começou a trabalhar em 14 de abril. Os profissionais estão concentrando esforços em atender imediatamente às necessidades médicas e humanitárias negligenciadas de imigrantes e refugiados que deixaram suas casas durante a situação de violência. As pessoas nos acampamentos são predominantemente de Moçambique, Malauí, Zimbábue e República Democrática do Congo.

A equipe de MSF está oferecendo ativamente serviços médicos e de água e saneamento nos três acampamentos (Isipingo, Chatsworth e Phoenix), coordenando-os junto ao Departamento de Saúde local para garantir o funcionamento de clínicas móveis regulares duas vezes por semana para consultas e tratamentos, assegurar encaminhamentos para hospitais e oferecer medicação para condições crônicas, como HIV e TB. O objetivo da equipe é oferecer apoio quando são identificadas falhas na resposta a cuidados médicos, em serviços de água e saneamento, na ajuda para sobreviventes de violência sexual e de gênero, e na melhoria da administração de acampamentos.

“Nós temos visto crianças com diarreia, febre, doenças de pele e um caso de pneumonia. Também temos tratado homens que foram gravemente feridos pela violência, mas não tinham buscado cuidados porque estavam com muito medo de ir ao hospital ou de sair dos acampamentos onde há assistência”, diz a Dra. Gemma Arellano, coordenadora da equipe de emergência de MSF em KwaZulu-Natal.

“No campo Chatsworth, um homem sofreu fraturas em suas costelas depois de um ataque, mas ele estava com muito medo de buscar ajuda. Apesar da dor, até hoje, ele não quer ir a um hospital por medo de ser atacado de novo”, diz Gemma Arellano. “No campo Phoenix, nós tratamos um homem que havia tido múltiplas fraturas no braço. Apenas três horas antes, ele havia sido espancado por um grupo de 15 homens. Eles o jogaram no rio depois do ataque, mas o homem conseguiu sobreviver. Temos visto situações de violência direcionada a indivíduos”, ela conta.

O número de pessoas deslocadas em cada um dos acampamentos é baseado em estimativas feitas por nossa equipe, já que os administradores dos acampamentos, inicialmente, não puderam fazer registros populacionais de rotina. A equipe de MSF relata que ônibus começaram a chegar para levar pessoas de volta para o Malauí, Zimbábue e Moçambique.

Campo de Phoenix (situado cerca de 26 km ao norte de Durban)

O campo de Phoenix está crescendo rapidamente e, atualmente, abriga uma estimativa de 2.500 pessoas, incluindo 600 pessoas que foram transferidas de outros acampamentos.

MSF está prestando assistência com serviços de de água e saneamento, e instalando um tanque de 1.500 litros para aumentar o abastecimento de água limpa que sai de apenas duas torneiras compartilhadas.

A equipe também está determinando as necessidades médicas dos residentes do acampamento baseando-se no perfil médico das pessoas quando elas se registram. A equipe está concentrada em prevenir riscos de doenças transmitidas pela água, distribuir sabonetes e água, assim como baldes. Os profissionais também estão concentrando esforços nas necessidades das mulheres grávidas e de crianças com menos de cinco anos.

As necessidades médicas de pessoas com HIV e tuberculose também estão sendo monitoradas e o Departamento de Saúde local irá estabilizar novamente o acesso à medicação antirretroviral dentro do acampamento.

Campo de Chatsworth (situado cerca de 20 km ao norte de Durban)

Atualmente, estima-se que que 3.500 pessoas estejam no campo de Chatsworth, que está lotado. Cerca de 20% da população do acampamento são crianças com menos de cinco anos que são particularmente vulneráveis.

MSF estará oferecendo serviços de clínicas móveis no acampamento, complementando os serviços do Departamento de Saúde local. A equipe médica de MSF também coordenará avaliações nutricionais e, já que muitas das crianças podem não ter sido vacinadas contra o sarampo, uma campanha de vacinação será realizada em breve.

Campo de Isipingo (situado cerca de 2 1km ao sul de Durban)

O campo de Isipingo foi o primeiro a ser estabilizado, e é o lar de aproximadamente 400 pessoas. Os problemas primários identificados na avaliação inicial estavam relacionados ao acesso a cuidados de saúde primária e necessidades psicossociais.

MSF pede que a reintegração seja rápida

MSF não apoia uma situação prolongada de acampamentos de deslocados para cidadãos estrangeiros.

“MSF faz um apelo para que a reconciliação comunitária entre os deslocados e os sul-africanos comece imediatamente para acalmar as tensões e reduzir os medos. Isso poderia permitir que pessoas deslocadas retornassem com segurança às suas casas, se assim o quiserem, e garantir que a reintegração à sociedade sul-africana possa começar. As autoridades sul-africanas têm a capacidade de responder à atual emergência, mas os esforços de reconciliação e reintegração não devem cair no esquecimento”, diz Andrew Mews, coordenador-geral de MSF na África do Sul e no Lesoto.

Respostas adicionais de MSF

MSF continua preocupada com o aumento das tensões e nossas equipes em outras cidades sul-africanas (Joanesburgo, Rustenburgo e Cidade do Cabo) estão monitorando a situação e colaborando com grupos da sociedade civil e comunidades para denunciar a violência, além de estarem pedindo atividades de reconciliação.

Em Joanesburgo, MSF está estruturando uma segunda equipe com a tarefa de conduzir avaliações médicas nos próximos dias em Ekurhuleni e em outros locais onde pessoas deslocadas têm buscado segurança.

MSF enaltece a coragem com que a maioria dos sul-africanos estão se opondo à xenofobia por meio de ações de organizações religiosas, grupos da sociedade civil e indivíduos que mobilizam apoio para acabar com a violência e mostrar solidariedade aos cidadãos estrangeiros deslocados.

No Malauí, no Zimbábue e em Moçambique, três dos seis países do sul da África onde MSF atualmente administra projetos de rotina de HIV e tuberculose (TB), nossas equipes estão em estado de alerta para o caso de os governos locais precisarem de apoio quando alguns de seus cidadãos começarem a chegar depois das ações de repatriação.

MSF na África do Sul

MSF trabalha para oferecer assistência médica em seis países no sul da África (Lesoto, Malauí, Moçambique, Suazilândia, Zimbábue e África do Sul), concentrada em cuidados voltados para HIV e TB. Nossa resposta de emergência à onda de violência xenofóbica na África do Sul, em KwaZulu-Natal, e possivelmente em Gauteng, parte de nosso trabalho regular.

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